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O que os maratonistas comem na véspera da maratona - e porquê

Homem jovem a comer refeição saudável na cozinha, com ténis e dorsal de corrida na mesa.

Na noite que antecede a grande maratona, a cena repete-se: figuras inquietas, com o dorsal já guardado na mochila, a olhar sem convicção para o buffet e para as ementas. À direita, alguém enche o prato de massa até ao limite; à esquerda, uma corredora vai trincando uma tosta seca porque quer “não fazer nada de errado”. A tensão sente-se até no som dos talheres a bater no prato. Cada um está convencido de que encontrou o seu truque infalível. E, ao mesmo tempo, quase todos espreitam discretamente o que os outros estão a comer. A verdade é que a véspera da prova raramente parece uma “parada de superalimentos”, por muito que o Instagram prometa o contrário. E é precisamente aí que a conversa fica interessante.

O que os maratonistas comem mesmo na véspera - e o que isso revela

A fantasia é bonita: maratonistas à mesa, na noite anterior, com um prato impecavelmente composto de massa integral com salmão, abacate e sementes de chia - tudo biológico, tudo “clean”. Só que, na vida real, o dia anterior à corrida costuma ser bem mais discreto. Muita gente come coisas perfeitamente normais, iguais às do dia a dia. Nada de brilhante, nada com aspeto de “dieta de super-herói”.

E há aquele momento que todos conhecem: abrir o frigorífico e pensar “isto chega mesmo para 42,195 quilómetros?”. Os treinadores veem esta dúvida constantemente. Ainda assim, os maratonistas mais rodados repetem sempre a mesma ideia: “Come o que o teu corpo já conhece.” Na véspera, os melhores raramente arriscam novidades. Chegam a parecer aborrecidos - e isso não é por acaso.

Na Maratona de Frankfurt, uma corredora que termina abaixo das três horas contou-me o ritual do dia anterior. Nada de grandes buffets, nada de drama. Ao almoço, faz uma dose simples de arroz branco com um pouco de molho; ao jantar, um prato de massa relativamente pequeno com molho de tomate e um pouco de parmesão, e está feito. Bebe água, toma um copo de cola e vai petiscando alguns palitos salgados. Nada de batidos de proteína, nada de smoothies verdes. “Já experimentei de tudo”, diz ela, a rir, “mas no fim o que resulta melhor comigo é arroz, massa e tostas.”

Outro exemplo, um corredor amador com objetivo de cinco horas, defende a sua “estratégia do pãozinho”: de manhã, um pão branco com mel; ao almoço, massa; a meio da tarde, uma banana; à noite, outro pãozinho, desta vez com queijo. Parece quase banal. Mas muitas vezes é precisamente essa banalidade que protege contra cólicas, paragens de emergência na casa de banho e o colapso por volta do quilómetro 30. Os dados das grandes maratonas urbanas apontam na mesma direção: muitos desistentes não falham por falta de forma física, mas por problemas gastrointestinais.

Quando se observa a alimentação de atletas de topo, há um padrão evidente: a estrutura repete-se, embora os detalhes variem muito de pessoa para pessoa. Quase todos aumentam os hidratos de carbono nas últimas 24–48 horas, mas sem transformar isso num ritual religioso. Nada de exageros, nada de “carboloading” em modo pizza sem limites. O que acontece, regra geral, é um ajuste suave: um pouco mais de arroz, um pouco mais de massa, um pouco mais de pão. Ao mesmo tempo, muitos reduzem fibra, gordura e alimentos mais pesados. A verdade simples e pouco glamorosa: um sistema digestivo calmo vale mais do que a bowl mais na moda.

Plano concreto para a véspera: como os maratonistas comem na prática

Um plano típico para o dia anterior a uma maratona começa de forma surpreendentemente normal. Pequeno-almoço: pão branco ou pãozinho, talvez compota ou mel, um pouco de manteiga, acompanhado de chá ou café. Nada de um buffet carregado de ovos mexidos, nada de cafés gigantes com bebidas vegetais e xaropes. Muitos evitam salada de fruta e integrais nesse dia, sobretudo quem tem o estômago sensível. O objetivo é simples: hidratos de carbono fáceis de digerir para encher as reservas de glicogénio sem “incomodar” a barriga.

Ao meio-dia costuma surgir a famosa “maior refeição do dia”. É aí que, para muitos, entra a massa: massa branca, algum molho, talvez um pouco de frango ou uma porção pequena de legumes. Sem picante, sem excesso de alho, sem aventuras. Quem tolera melhor arroz, escolhe arroz. Quem se dá bem com pão, fica pelo pão. E, sejamos francos, fora das planilhas ninguém anda a pesar cada esparguete. O ponto é comer “um pouco mais de hidratos de carbono do que o habitual”, não perseguir uma perfeição matemática.

Durante a tarde, é comum optar por snacks pequenos. Uma barra, uma banana, alguns palitos salgados, um iogurte doce. Não se trata de comer sem parar, nem de “encher até não caber mais”. A ideia é manter a glicemia estável e não chegar ao jantar de tanque vazio. À noite, a refeição acaba por ser, muitas vezes, surpreendentemente leve: um prato de massa, talvez uma tosta, um pouco de peito de frango, pouca comida crua. Muitos param de comer duas a três horas antes de se deitarem, para permitir que o corpo desacelere em tranquilidade. O medo de estar a comer “pouco” é, frequentemente, exagerado - as reservas constroem-se ao longo do dia, não num único prato XXL às 20:30.

Erros comuns, pequenos truques - e o que os profissionais fazem de forma diferente

Há um conselho que se repete entre nutricionistas e corredores experientes: testa o teu plano de véspera durante os treinos longos. Não tem de ser a distância, mas sim o padrão. O que comes no dia antes do teu treino de 30 quilómetros? Como é que o corpo reage? O mais provável é que isso também resulte antes da maratona. Uma forma prática de o fazer: escolhe três refeições que sabes que toleras bem e mantém-te fiel. Pequeno-almoço simples, almoço como principal refeição de hidratos de carbono e jantar leve, familiar.

Muitos iniciantes caem na mesma armadilha: na véspera tentam, de repente, comer “perfeitamente”. Um superalimento novo, géis diferentes, barras diferentes, vitaminas extra. Só que o estômago não está habituado - e a cabeça, por si só, já está nervosa. Esta combinação costuma rebentar no pior momento, já em prova. Outro clássico é o “comer por medo”: com receio do “homem do martelo”, come-se até já não dar. O resultado é entrar na corrida mais lento, pesado e demasiado cheio. Um lembrete com empatia: não tens de ser perfeito; tens é de encontrar o teu “bom o suficiente”.

Um treinador experiente disse-me uma vez:

“O dia antes da maratona não é um dia de heroísmo culinário, é um dia sem surpresas.”

Muitos profissionais seguem uma pequena lista mental, mais ou menos assim:

  • Comer apenas o que já foi testado nos treinos, nada de novidades
  • Aumentar os hidratos de carbono, reduzindo um pouco a gordura e a fibra
  • Fazer a última refeição maior ao almoço; ao jantar, manter tudo leve e fácil de digerir
  • Beber o suficiente, mas sem litros “em antecipação”
  • Não dramatizar a comida - a calma ganha à perfeição

Mais do que o prato: o efeito mental da véspera

Quando se observa um maratonista na véspera, percebe-se rapidamente que a comida é só a parte visível. Por baixo, está a pergunta verdadeira: “Fiz o suficiente?” O prato transforma-se no espelho de toda a preparação. Quem treinou nas semanas anteriores tende a sentir que o corpo está pronto. Quem duvida procura apoio em rituais - e a alimentação é dos rituais mais poderosos. Por isso, por vezes, a véspera parece mais pesada do que o próprio tiro de partida.

A coisa muda quando se entende que descanso, sono e serenidade interior na véspera podem valer, no mínimo, tanto quanto a gramagem exata de hidratos de carbono. Muitos corredores bem-sucedidos tratam o dia anterior como uma aterragem suave. Dão uma caminhada curta, levantam o dorsal, separam a roupa, comem com calma, conversam com amigos. Sem pesquisas histéricas por “comida perfeita para maratona”. Sem ruminar constantemente se ainda deveriam levar mais um gel.

Talvez a surpresa seja esta: o que os maratonistas comem no dia antes da corrida costuma ser pouco espetacular, quase banal. O mito do prato mágico de massa perde força quando se olha para as pessoas reais. O que fica é uma imagem simples: um prato de massa, um pãozinho com mel, alguns palitos salgados. E alguém a tentar respirar fundo e lembrar-se de todos os quilómetros que já estão nas pernas. Quem percebe isto deixa de procurar o alimento perfeito - e começa a confiar no próprio corpo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Alimentos conhecidos Na véspera, comer apenas o que foi bem tolerado no treino Menos risco de problemas de estômago e menos stress no dia da prova
Foco nos hidratos de carbono Privilegiar fontes fáceis de digerir, como arroz, massa e pão branco Reservas de glicogénio melhores sem sensação de enfartamento
Ritual em vez de perfeccionismo Rotina simples e repetível, com refeições calmas Mais tranquilidade mental e menos confusão com dicas sempre novas

FAQ:

  • O que devo comer, na prática, ao jantar antes da maratona? Uma porção pequena a média de massa ou arroz com um molho leve; juntar um pouco de pão branco ou tostas; pouca comida crua; evitar gorduras pesadas - o melhor é manter tudo simples e familiar.
  • O “carboloading” clássico com quantidades enormes de massa ainda faz sentido? O exagero tipo festa de comida está ultrapassado; faz mais sentido aumentar moderadamente os hidratos de carbono um a dois dias antes e evitar grandes excessos.
  • Posso beber café na véspera? Se bebes café no dia a dia e o toleras bem, podes manter com moderação; é preferível evitar quantidades excessivas ou cafés/sortidos novos.
  • Devo beber muitas bebidas com eletrólitos? Em geral, a hidratação normal chega; uma ou duas bebidas com eletrólitos podem ser ok, mas beber litros “para armazenar” tende a trazer mais inquietação do que benefício.
  • O que comer se tiver um estômago sensível? Reduzir fibra e gordura, preferir produtos de farinha branca, pouca comida crua, evitar pratos picantes ou muito condimentados - em caso de dúvida, escolher o que já resultou nos treinos longos.

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