“Damas”: do impulso histórico ao dispositivo cinematográfico
Em 1917, inspiradas pela mobilização feminina observada em países beligerantes - onde muitas mulheres apoiavam o esforço de guerra junto da frente -, algumas senhoras da alta sociedade lisboeta decidiram disponibilizar-se para integrar o contingente de enfermeiras da Cruz Vermelha Portuguesa enviado para França, com a missão de prestar apoio hospitalar ao Corpo Expedicionário Português. A descoberta surge por acaso: enquanto pesquisava para outro trabalho, Cláudia Alves deparou-se com uma pasta recheada de documentação. O episódio prendeu-a de imediato, por traduzir a iniciativa de mulheres num período em que a vida pública era, em grande medida, dirigida por mãos masculinas e em que as mulheres nem sequer tinham direito de voto. Desse interesse nasce o filme “Damas”.
Para o construir, a realizadora combina materiais de naturezas distintas: documentos de época, relacionados de forma direta ou indireta com os acontecimentos; um fio ficcionado interpretado por atrizes e atores profissionais (com guarda-roupa, cenografia e restantes recursos habituais da ficção); e ainda documentos forjados, como excertos em Super 8 que imitam supostos filmes domésticos. Tudo isto é atravessado por uma narração em voz off, na primeira pessoa, conduzida por uma personagem cuja natureza ficcional só é revelada no final. A essa figura - Maria Inez Vaz Luiz - são atribuídos afetos, atitudes, comentários e até inclinações sexuais que, por orientarem a visão do filme, tendem a ser lidos como representativos.
O problema do “documentário” em “Damas”
É aqui que “Damas” se fragiliza em vários planos. O primeiro prende-se com o rótulo que assume. Desde a origem, apresenta-se como documentário - e o seu desenvolvimento chegou a ser distinguido, por exemplo, pelo laboratório ARCHÉ do DocLisboa. Só que documentário não é. Ao misturar nomes plausíveis, datas exatas e factos inventados, sobrepondo imagens historicamente autênticas a outras criadas para o efeito, “Damas” quebra o pacto de confiança que, à partida, se estabelece entre quem filma e quem vê quando se invoca a categoria “documentário”. Num documentário, a verdade tem um peso específico.
Dir-me-ão que isto é apenas uma questão de etiqueta. Não me parece. Durante grande parte do tempo, “Damas” apresenta-se com a aparência de documentário. No entanto, o que está ali é uma ficção inspirada em factos reais - e o espectador não é esclarecido.
Se o critério fosse o do documentário, seria de aplaudir a abundância de materiais reunidos em diferentes arquivos internacionais; quem tiver disponibilidade para percorrer o extenso genérico final percebe bem a dimensão do trabalho de Cláudia Alves nessa recolha. O problema é ter esse esforço sido contaminado por impulsos de imaginação. Se, pelo contrário, o olharmos como filme de ficção, o desenvolvimento sabe a pouco: fica-se por vinhetas e por um desejo de imitação - criar “bonecos” que reconstituam as fotografias de época, fabricar planos com grão e contraste ao jeito das velhas bobinas de arquivo. Ou então recorrer àqueles planos a cores, de luz difusa, sem correspondência com algo que tenha efetivamente existido, mas que a memória do cinema posterior aos anos 50 consagrou como conveniente para um tom rétro. No conjunto, e sem se fixar num território claro, “Damas” acaba por desiludir, desperdiçando o esforço de produção que é evidente.
Estes filmes não têm características para atrair espectadores em número bastante
“Caronte”: um filme pobre de meios e de ideias
No extremo oposto, “Caronte”, de Tânia Gomes Teixeira, funciona como contraponto. Se “Damas” é um filme rico, “Caronte” é um filme pobre. Centra-se em Gastão Teixeira, barqueiro no Douro, que se dedica a recuperar do rio corpos de pessoas que se suicidaram. Daí a tentação de o aproximar de Caronte, filho da Noite e irmão do Sono, o barqueiro da mitologia grega ao serviço de Hades, encarregado de transportar as almas entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Ainda assim, depressa se percebe que - tirando alguns planos mais estetizantes - nem se aprende muito sobre o homem, nem sobre o mito. A escassez de recursos seria o menor dos problemas; pior é a pobreza de ideias, num filme que, por pouco mais de uma hora, segue à deriva em direção ao bocejo.
Estrear documentários em sala: números, incentivos e mercado
Se eu estivesse na posição de produtor, distribuidor ou programador de uma sala, não me ocorreria por um instante colocar qualquer um destes filmes num grande ecrã, a depender de uma suposta bilheteira. Falta-lhes aquilo que costuma levar público suficiente a gastar tempo e dinheiro para os ver. Filmes como “Damas” ou “Caronte” fariam mais sentido com exploração através de ecrãs domésticos, seja na televisão em sinal aberto, em TV paga ou em plataformas de streaming.
E, apesar disso, aí estão, estreados - e não num contexto excecional. Em 2026, já tinham chegado às salas sete outros documentários, representando quase 44% das estreias portuguesas. E com resultados? Sem sucesso algum. O melhor colocado (“La Vie de Maria Manuela”) somou 2056 espectadores em 168 sessões (uma média de 12,2 espectadores por sessão, o que, caricaturando, nem dá para acender a luz e pagar aos imigrantes que fazem a limpeza). Então por que continuam a estrear? A razão principal é que produtores e exibidores, segundo a letra dos regulamentos, ganham vantagens nos concursos seguintes de subsídios do Instituto do Cinema e do Audiovisual. A segunda - e não menos importante - é que, em média, um documentário que passou por uma estreia em sala é mais valorizado quando chega a hora de o vender à TV paga ou às plataformas de streaming. Malhas que o Estado e o mercado tecem…
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