A tormentila é o tipo de planta em que, durante muito tempo, as pessoas juravam confiar. Trata-se de uma pequena flor silvestre amarela que cresce em turfeiras e charnecas no Reino Unido, na Irlanda e em grande parte da Europa, e que há gerações aparece associada a remédios tradicionais para aliviar dores e combater infeções.
Agora, um novo estudo indica que esse saber popular pode ter fundamento. Os cientistas afirmam que a tormentila consegue abrandar o crescimento de uma bactéria perigosa e resistente a fármacos e pode até ajudar a melhorar o desempenho de um antibiótico de última linha.
Uma equipa de investigação liderada pela Universidade de Southampton avaliou plantas de zonas de turfeira à procura de atividade antimicrobiana.
Os resultados apontam para a tormentila como um candidato promissor para desenvolvimento farmacológico no futuro, numa altura em que a resistência aos antibióticos está a tornar certas infeções cada vez mais difíceis de tratar.
À procura de respostas nas turfeiras irlandesas
O trabalho começou com uma abordagem abrangente. Os investigadores analisaram 70 espécies de plantas de turfeiras provenientes de várias regiões da Irlanda, procurando compostos capazes de travar bactérias.
A lógica era direta: as turfeiras são ambientes exigentes e, para sobreviver, muitas plantas produzem defesas químicas potentes. Em certas situações, essas defesas podem traduzir-se em efeitos antimicrobianos quando testadas em laboratório.
Entre todas as espécies rastreadas, a tormentila destacou-se pelo impacto contra Acinetobacter baumannii, uma bactéria multirresistente que a Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui entre os seus principais agentes patogénicos prioritários.
É um microrganismo particularmente temido em contexto hospitalar, conhecido por provocar infeções graves e por resistir a muitos antibióticos usados com frequência.
Tormentila e resistência aos antibióticos
A Acinetobacter baumannii representa um problema sério nos serviços de saúde, sobretudo em doentes com o sistema imunitário já fragilizado.
Pode provocar infeções em feridas, infeções respiratórias e infeções do trato urinário. O artigo refere que este agente patogénico está associado a cerca de 50.000 mortes por ano em todo o mundo.
Parte do perigo está no seu perfil de resistência. Quando os antibióticos habituais deixam de funcionar, os médicos recorrem por vezes à colistina, um fármaco frequentemente descrito como a derradeira linha de defesa. Se a bactéria também se tornar resistente à colistina, as alternativas terapêuticas podem ficar drasticamente reduzidas.
É por isso que os resultados desta equipa chamaram a atenção. Não observaram apenas atividade antimicrobiana na tormentila; encontraram também indícios de que a planta poderá apoiar a eficácia da colistina.
Tormentila: ajudar os antibióticos existentes a resultar melhor
“Foi extremamente entusiasmante descobrir que esta planta em particular estava a inibir o crescimento deste agente patogénico, e especialmente interessante porque existe uma longa utilização histórica desta planta na medicina para tratar infeções”, afirmou o autor sénior Ronan McCarthy, da Universidade de Southampton.
“A colistina é um antibiótico de último recurso, é a nossa última linha de defesa antibiótica. Quando um agente patogénico é resistente a isso, há muito poucas outras opções.”
“Descobrimos que existe potencial para a tormentila aumentar a eficácia da colistina, para prolongar a sua efetividade e fazê-la funcionar melhor.”
Este ponto é relevante. Muitas pessoas assumem que a única resposta à resistência passa por “novos antibióticos”. Porém, outra via é prolongar a utilidade dos antibióticos existentes, combinando-os com compostos que enfraqueçam as bactérias ou as tornem mais vulneráveis.
Plantas com raízes no conhecimento tradicional
A reputação popular da tormentila vem de longe. Com flores amarelas semelhantes às dos ranúnculos, surge em tradições irlandesas e noutras tradições europeias, e o seu nome está associado ao “tormento” da dor que se acreditava que aliviava.
“Este estudo sublinha o valor de revisitar plantas há muito enraizadas no conhecimento tradicional e no folclore e mostra-nos que a natureza ainda tem muito para nos ensinar”, disse o co-líder do projeto John J. Walsh, professor no Trinity College Dublin.
Historicamente, a tormentila foi usada de várias formas. O artigo menciona receitas registadas já na década de 1850, incluindo raízes fervidas em leite para cólicas em crianças, e raízes usadas para dores de dentes, feridas e problemas de estômago.
McCarthy defende que a utilização histórica da planta não foi ao acaso.
“Descobrimos historicamente por que razão a tormentila era usada – e não era usada por acidente. É certo que a tormentila não era tão eficaz como a medicação moderna, mas na década de 1850, por exemplo, as opções eram bastante limitadas.”
“Há evidências de que foi usada para problemas orais, como doença das gengivas, e para problemas gastrointestinais. O seu uso por médicos teria diminuído com o advento da medicina moderna e, em particular, dos antibióticos.”
Ou seja, a tormentila provavelmente funcionava o suficiente para conquistar um lugar na medicina antiga, mas foi sendo substituída à medida que os fármacos ofereceram soluções mais fortes e fiáveis.
Como é que os compostos atuam?
Um dos aspetos mais valiosos deste estudo é que não se ficou por “a planta parece fazer alguma coisa”. A equipa avançou para identificar quais os compostos responsáveis e qual poderia ser o mecanismo.
Foram apontados dois compostos - agrimoniína e ácido elágico - como ativos contra o agente patogénico. A forma como atuam é particularmente interessante: aparentemente, privam a bactéria de ferro. O ferro é essencial para muitos microrganismos; se uma bactéria não o conseguir obter, tem dificuldade em crescer e em desempenhar funções vitais.
“Este estudo é particularmente entusiasmante porque estabelecemos não só que a tormentila funciona, mas como funciona e por que funciona”, disse McCarthy.
“Foi um grande obstáculo ultrapassar para estabelecer exatamente o que é responsável pela atividade antimicrobiana.”
“Depois, estabelecemos que a planta retira ferro do ambiente e priva a bactéria. Quando voltámos a adicionar ferro, revertámos a atividade, confirmando que o ferro era o responsável.”
A equipa verificou ainda que raízes, flores e folhas contêm quantidades suficientes destes compostos para serem eficazes, sugerindo que a ação antimicrobiana não está limitada a uma parte muito específica da planta.
Consistência entre turfeiras
Outro pormenor que reforça a robustez do achado é que a tormentila recolhida em três zonas de turfeira diferentes na Irlanda - Wicklow, Kerry e Tipperary - apresentou a mesma atividade antimicrobiana.
Esse tipo de consistência é importante caso alguém pretenda transformar uma descoberta baseada numa planta num produto reproduzível.
“Quando iniciámos o projeto de biodescoberta em turfeiras, esperávamos encontrar algumas atividades significativas nas espécies que investigámos”, disse a coautora principal Helen Sheridan, do Trinity College Dublin.
“Pistas etnomédicas como ‘Bochechar com tormentila em pó infusionada em água faz com que dentes soltos voltem a fixar-se, por Johann Kúnzle (1857–1945),’ inspiraram-nos a procurar efeitos antibacterianos e, assim, contactámos o grupo de McCarthy como líderes na área, no que tem sido uma colaboração maravilhosamente bem-sucedida.”
Linhas futuras de investigação
Ninguém está a defender que as pessoas comecem a automedicar-se com flores silvestres. Transformar um composto vegetal num tratamento seguro e eficaz é um processo longo, e as bactérias não se comportam no corpo humano da mesma forma que numa placa de laboratório.
Ainda assim, o resultado é significativo: uma planta conhecida há séculos como remédio revela atividade antibacteriana real contra um “supermicróbio” moderno, e o mecanismo está suficientemente esclarecido para orientar os próximos passos.
“A promessa da tormentila é realmente entusiasmante. Há agora muito trabalho empolgante a fazer para traduzir estas descobertas em medicamentos que possam potencialmente beneficiar doentes”, disse McCarthy.
Num mundo em que a resistência aos antibióticos continua a apertar o cerco, há uma ironia difícil de ignorar: uma pista para o futuro pode ter estado, este tempo todo, nas turfeiras.
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