No âmbito do grande julgamento que decorre desde 9 de fevereiro na Califórnia (o caso Kaley G.M.), Mark Zuckerberg estava chamado a depor esta quarta‑feira, no banco das testemunhas, num tribunal de Los Angeles. Acompanhado pela segurança interna, o “grande Zuck” entrou na sala hirto como um pau, para dar explicações sobre aquilo que pode vir a ser o caso do século para a Meta.
O processo Kaley G.M. é, no direito norte‑americano, um bellwether trial: um julgamento‑teste, escolhido entre 1 600 queixas, destinado a orientar a justiça nos restantes casos. Para a Meta, é o derradeiro teste de resistência: se as práticas de manipulação que tornam o Instagram viciante forem condenadas, a decisão terá um efeito dominó sobre todos os outros queixosos. Se a Meta se afundar, Zuckerberg arrisca levar com o maior tsunami financeiro da sua vida em cheio. E tentou, como pôde, minimizar danos - com um distanciamento robótico e uma hipocrisia difícil de engolir.
A estratégia de defesa de Mark Zuckerberg: amnésia e negação
Perante o advogado Mark Lanier, Zuckerberg limitou‑se a rejeitar qualquer responsabilidade da Meta na dependência dos jovens do Instagram. Na sua versão, se os adolescentes não largam o telemóvel, não é porque os engenheiros da Meta encheram o Instagram de mecanismos de recompensa psicológica; é, isso sim, porque se trata de uma rede social “de qualidade”. “As pessoas dedicam naturalmente o seu tempo ao que realmente lhes importa”, garantiu, sustentando que o design da aplicação do Instagram não teria influência comportamental nos mais novos - o que soa a insulto, sobretudo sabendo‑se que a Meta tem ao seu serviço um batalhão de psicólogos focado em aumentar o potencial viciante dos seus produtos.
O momento mais surreal surgiu quando Lanier o pressionou a reconhecer que um produto viciante empurra o utilizador para consumir cada vez mais. Zuckerberg quase não reagiu, incapaz de validar uma definição aceite por qualquer dicionário, até acabar por balbuciar: “Talvez a curto prazo”. Uma confissão de má‑fé absoluta, vinda de quem se recusa a admitir que o Instagram é um doce envenenado, atirado a crianças cujo cérebro ainda não está suficientemente desenvolvido para resistir.
A hipocrisia roçou o perjúrio quando o advogado trouxe à tona estimativas internas de 2015: ao mesmo tempo que o CEO jurava que as crianças não tinham lugar na aplicação, os seus próprios serviços já contabilizavam 4 milhões de utilizadores com menos de 13 anos - ou seja, um pré‑adolescente americano em cada três (30 % dos 10-12 anos). Encurralado pelos seus próprios indicadores, Zuckerberg refugiou‑se numa frase com a frieza de um androide: “É o que o documento diz”. Uma forma de admitir que mentiu ao Congresso durante anos, sem ter a coragem de o reconhecer.
Ainda assim, fez questão de lembrar que, dentro do seu império, consegue agir com total impunidade: “Porque controlo a nossa empresa, tenho a vantagem de não ter de convencer o conselho de administração a não me despedir”. A máscara caiu: Zuck é um déspota de hoodie, grande demais para ser afastado do trono - e consegue até gabar‑se disso.
A “lona” da vergonha no julgamento da Meta
Para responder às acusações da família de Kaley G.M., a defesa da Meta apostou tudo numa estratégia: patologizar o contexto da vítima. Os advogados de Zuckerberg decidiram invadir a intimidade familiar, transformando a sala de audiências num consultório improvisado de psicanálise agressiva. Vasculharam registos clínicos, pautas escolares e diários da adolescente, para tentar quebrar a relação de causalidade entre o uso do Instagram e o seu estado psicológico.
Chegaram ao ponto de alegar que os problemas de Kaley (depressão, automutilação, anorexia, etc.) seriam o resultado de traumas familiares e fragilidades psicológicas pré‑existentes. Em suma: a jovem já estaria mal, e o Instagram não teria nada a ver com isso.
Sem qualquer pudor, avançaram também com um ataque duro aos pais. Em tribunal, os representantes da Meta apontaram o dedo ao pai e à mãe de Kaley, forçando‑os a justificar a sua própria negligência: por que motivo permitiram que uma criança de 9 anos se registasse numa aplicação proibida a menores de 13 anos? Porque não recorreram às ferramentas de controlo parental? Uma lógica jurídica querida à indústria do tabaco ou do álcool: o culpado é quem consome o veneno, não quem o fabrica.
O próprio Zuckerberg alinhou com o argumento, defendendo que certas funcionalidades da aplicação (por coincidência, as mais tóxicas, como os filtros de beleza) seriam essenciais para a criatividade dos utilizadores. Eis a outra face da sua defesa: o Instagram não passaria de um espelho neutro da sociedade. Se a imagem reflectida é monstruosa, então a culpa nunca seria da Meta. A empresa envia assim um recado aterrador aos outros 1 600 queixosos: se nos processarem, reviramos o vosso lixo até se arrependerem de ter pedido justiça.
Lanier não se deixou intimidar e respondeu com um gesto teatral: colocou na sala uma lona gigantesca, estendida no chão, coberta com centenas de publicações e selfies de Kaley. Era uma forma de a reumanizar perante as acusações ignóbeis de que foi alvo. “Em certo sentido, vocês são donos destas fotos”, atirou Lanier, apontando directamente para a extracção de valor bruto feita a partir da intimidade de uma menor. Fiel a si mesmo, Zuckerberg quase não reagiu e esquivou‑se: “Contesto a sua versão dos factos”, respondeu apenas, recusando admitir que foi, em parte, graças a esses registos que acumulou a sua fortuna.
Se a justiça californiana decidir a favor de Kaley, o júri pode optar por “sangrar” a Meta como exemplo. A empresa arrisca‑se a ter de pagar indemnizações punitivas gigantescas (“punitive damages”): montantes astronómicos pensados para punir o culpado e impedir a reincidência. Só neste dossiê, a conta pode chegar a várias centenas de milhões de dólares. Multiplique‑se esse valor pelos 1 600 restantes queixosos e, no pior cenário, a Meta poderia ficar com uma factura superior a 320 mil milhões de dólares. Uma condenação desta dimensão obrigaria o grupo a liquidar a totalidade dos seus activos para pagar, pondo fim ao seu reinado e deixando‑o forçado a declarar falência para congelar os pagamentos. A decisão é esperada, em princípio, para o próximo mês, abrindo de imediato uma fase de recursos que pode arrastar‑se durante anos nos tribunais federais de recurso.
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