Babarse durante o sono tem, muitas vezes, explicações perfeitamente inofensivas.
Quem acorda de manhã e encontra uma grande mancha de saliva na fronha tende a pensar logo num problema de saúde. Na maioria das situações, trata-se apenas do encontro entre a produção normal de saliva e o relaxamento da musculatura durante o sono. Ainda assim, uma salivação muito intensa na cama pode, em alguns casos, ser um sinal de alerta - por exemplo, de perturbações respiratórias, refluxo ou efeitos secundários de medicamentos.
Porque é que o corpo produz saliva mesmo de noite
O organismo fabrica saliva continuamente - cerca de meio litro a litro e meio por dia. Este líquido humidifica a boca e a garganta, protege os dentes, ajuda na digestão e “lava” bactérias. E este processo não se desliga só porque adormecemos.
Durante o sono, porém, o reflexo de deglutição abranda. Ao mesmo tempo, a musculatura da boca e da garganta relaxa. A boca tende a abrir com mais facilidade, a mandíbula desce ligeiramente e a língua fica mais flácida. Assim, a saliva pode acumular-se e escorrer pelos lábios para fora.
"Na maioria das vezes, por trás de uma almofada molhada não está nenhuma doença grave, mas sim a combinação totalmente normal de produção de saliva, gravidade e posição de sono."
Que posição ao dormir favorece mais babar durante o sono
A forma como se deita influencia muito mais do que a maioria das pessoas imagina. Quem dorme de lado ou de barriga para baixo dá à gravidade um “caminho” directo para a saliva descer - isto é, mesmo para a almofada.
- De lado: a boca abre-se com mais facilidade, a saliva desloca-se para o lado inferior da boca e daí para a almofada.
- De barriga para baixo: com a cabeça virada e a mandíbula relaxada, a saliva também encontra rapidamente saída.
- De costas: a saliva fica mais vezes na zona da garganta e é mais provável que seja engolida.
Se o objectivo for apenas reduzir o babar, pode valer a pena tentar dormir mais de costas. Nem todos conseguem manter essa posição a longo prazo, mas experimentar durante várias noites costuma mostrar se é a postura que faz a diferença.
Respiração pela boca: quando o nariz bloqueia, a saliva escapa
Um desencadeador frequente da almofada molhada é a respiração pela boca. Quando o nariz está entupido ou as vias nasais estão estreitadas, o corpo muda automaticamente para a boca para garantir ar suficiente.
Possíveis causas de respiração pela boca durante a noite:
- febre dos fenos (rinite alérgica) ou outras alergias
- constipações e sinusites
- amígdalas aumentadas ou adenoides (amígdalas faríngeas) aumentadas
- desvio do septo nasal
- mucosas nasais cronicamente inchadas
Quem dorme habitualmente de boca aberta acorda muitas vezes com a garganta seca, voz rouca - e, ao mesmo tempo, com saliva na almofada. Parece contraditório, mas faz sentido: o fluxo de ar seca as mucosas, o corpo responde com maior produção de saliva, e parte dessa saliva acaba por sair.
Refluxo: quando o ácido do estômago faz aumentar a salivação
Nem sempre as queixas ficam “só” na garganta. Se surgir também ardor atrás do esterno, arrotos ou um sabor ácido na boca, muitas vezes a causa é o refluxo. Neste quadro, o ácido gástrico sobe do estômago de volta para o esófago.
O organismo tenta então proteger-se: produz mais saliva para diluir e neutralizar o ácido. Esta saliva não vem apenas das grandes glândulas salivares, mas também de glândulas mais pequenas na zona da garganta.
"O aumento da salivação pode ser uma reacção de defesa contra o ácido gástrico que sobe - e não o problema em si."
Sinais de refluxo associados a babar durante o sono:
- azia frequente, sobretudo quando se está deitado
- tosse ou necessidade de pigarrear durante a noite
- muco na garganta ao acordar
- voz rouca depois de levantar
Se estes sintomas se repetirem, é aconselhável falar do assunto com o médico de família ou com um otorrinolaringologista. Em muitos casos, o refluxo melhora bastante com medicação, ajustes alimentares e alterações no estilo de vida.
Quando entram em cena o ressonar e as pausas respiratórias
A salivação nocturna torna-se mais preocupante quando aparecem outros sinais de alerta: ressonar alto, pausas repetidas na respiração ou cansaço extremo durante o dia. Esta combinação aponta frequentemente para apneia obstrutiva do sono.
Nesta doença, as vias aéreas superiores estreitam durante o sono. O ar passa com dificuldade - ou deixa mesmo de passar -, o corpo “luta” por ar e o sono é interrompido inúmeras vezes, muitas vezes sem que a pessoa dê por isso. Nestas circunstâncias, a respiração pela boca é quase inevitável, e a probabilidade de uma almofada molhada aumenta.
Indícios típicos de apneia do sono:
- ressonar alto e irregular
- pausas respiratórias observadas pelo parceiro ou pela família
- sonolência diurna marcada, adormecer involuntariamente sentado ou ao volante
- dores de cabeça matinais, boca seca
Sem tratamento, a apneia do sono aumenta o risco de hipertensão, enfarte, AVC e alterações do metabolismo. Se, além de babar muito, notar estes sinais em si ou no parceiro, faz sentido considerar um estudo do sono. Normalmente, o encaminhamento é feito pelo médico de família ou por uma consulta de ORL.
Medicamentos e sistema nervoso: raro, mas importante
Se a salivação aumentar de forma súbita e não encaixar na posição de sono, alergias ou refluxo, também é preciso pensar noutras hipóteses. Há medicamentos que interferem directamente com a produção de saliva.
Entre os exemplos contam-se certos fármacos usados em neurologia ou psiquiatria, incluindo alguns antipsicóticos. Podem estimular a salivação, sobretudo à noite. Ajustar a dose ou trocar de medicamento pode atenuar claramente o problema - mas isso deve ser sempre decidido com um médico.
Com menos frequência, a origem está em doenças do sistema nervoso, por exemplo quando nervos na face ou no cérebro deixam de controlar bem os músculos da região da boca. Nesses casos, costumam surgir outros sinais:
- fala mais arrastada ou mais lenta
- dificuldade em engolir (disfagia)
- tremores ou movimentos pouco seguros
- canto da boca descaído, alterações na expressão facial
Se notar alterações deste tipo, não deve esperar: procure avaliação neurológica com brevidade.
Quando deve ir ao médico por causa de uma almofada molhada
Uma mancha ocasional de saliva, regra geral, não é motivo para alarme. Ainda assim, vale a pena pedir avaliação se se verificar um ou mais destes pontos:
- A salivação começa de repente e sem um desencadeador óbvio.
- A almofada fica claramente encharcada quase todas as noites.
- Ressoa muito ou existem pausas respiratórias.
- Acorda completamente exausto, apesar de ter dormido horas suficientes.
- Tem azia, tosse nocturna ou sabor ácido na boca.
- Existem dificuldades em engolir, alterações da fala ou outros sinais neurológicos.
"Uma almofada constantemente molhada é um sinal: ou é inofensivo - ou indica que algo no corpo saiu do ritmo."
O que pode fazer por si para reduzir o babar durante o sono
Quando não existe uma doença relevante por trás, pequenas mudanças no dia a dia e no quarto costumam ajudar.
Testar a posição de dormir
Quem dorme sobretudo de barriga para baixo ou de lado pode tentar habituar-se a dormir de costas. Pode ajudar:
- uma almofada um pouco mais alta e com bom suporte
- uma almofada nas costas para dificultar a posição de lado
- um colchão um pouco mais firme, onde a posição de costas seja mais confortável
Melhorar a respiração nasal
Manter as vias nasais livres é uma das medidas com maior impacto. Podem ser úteis, por exemplo:
- arejar o quarto e evitar que o ar fique demasiado seco
- no caso de alergias: reduzir o contacto com desencadeadores e discutir terapêutica antialérgica
- pedir avaliação de uma obstrução nasal persistente em consulta de ORL
- usar, a curto prazo, pensos nasais ou sprays de soro fisiológico para facilitar a respiração
Ao respirar menos pela boca durante a noite, a maioria das pessoas baba automaticamente menos.
Ter o refluxo e a alimentação sob controlo
Muita gente subestima o efeito do jantar na noite. Comida muito gordurosa, muito picante ou muito rica em açúcar sobrecarrega o estômago - ainda mais quando se junta álcool ou porções grandes perto da hora de dormir.
Ajudam frequentemente ajustes simples:
- fazer a última refeição grande duas a três horas antes de se deitar
- elevar ligeiramente a cabeceira da cama
- limitar o álcool ao fim do dia
- em caso de azia, identificar alimentos desencadeadores e evitá-los
Como os médicos delimitam a causa
Quem vai à consulta por babar muito não tem, necessariamente, de contar com exames complexos logo de início. Muitas vezes, um bom questionário, aliado a um exame físico da boca, garganta, nariz e pescoço, é suficiente.
Consoante a suspeita, podem seguir-se passos adicionais:
| Suspeita | Exame possível |
|---|---|
| Refluxo | endoscopia digestiva alta, medição de pH, terapêutica de teste com bloqueadores de ácido |
| Apneia do sono | rastreio ambulatório com aparelho ou estudo em laboratório do sono |
| Problemas nasais | endoscopia nasal e da nasofaringe em consulta de ORL |
| Causa neurológica | exame neurológico, imagiologia, outros testes especializados |
Sobretudo quando há dúvidas sobre se o babar ainda é “normal”, uma conversa com um médico esclarece muitas vezes rapidamente - e reduz o receio de causas graves.
O que significam os termos médicos
Alguns conceitos usados neste tema parecem técnicos, mas são fáceis de entender. “Refluxo” é simplesmente o retorno do conteúdo do estômago para o esófago. “Apneia obstrutiva do sono” descreve pausas respiratórias causadas por estreitamento das vias aéreas superiores - e não por um problema no centro respiratório do cérebro.
Também o “reflexo de deglutição” garante no dia a dia que saliva, bebidas e alimentos seguem o caminho certo - em direcção ao estômago, e não à traqueia. Quando esse reflexo abranda, como acontece durante o sono, a saliva escapa com maior facilidade.
Porque olhar para a almofada pode, por vezes, salvar vidas
Por mais simples que pareça, observar a almofada com atenção pode revelar mais sobre a saúde do que se imagina. Uma pequena mancha ocasional é, normalmente, apenas um pormenor. Já uma almofada encharcada todas as noites, acompanhada de ressonar alto e sonolência diurna muito marcada, pode apontar para um problema sério do sono.
Quando conhece o seu padrão, reage mais depressa a mudanças - desde uma nova alergia a um refluxo que começa, até uma apneia do sono que ainda não foi detectada. E, se no fim se concluir que a causa é “apenas” uma posição desfavorável ao dormir, por vezes basta trocar a almofada para acordar bem mais seco - e mais descansado.
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