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O tratamento precoce do TDAH reduz o risco de psicose na idade adulta.

Mulher jovem ajuda menino a desenhar numa mesa com materiais de arte junto a uma janela iluminada.

Uma grande investigação realizada no Norte da Europa vem agora mudar o enquadramento do debate.

Uma equipa internacional de cientistas analisou registos de saúde de centenas de milhares de pessoas e chegou a uma conclusão surpreendentemente nítida: um medicamento amplamente usado na medicação da PHDA (ADHS) na infância não aumenta o risco de psicoses graves - e pode até reduzi-lo quando o tratamento começa cedo.

O que, ao certo, a investigação avaliou

Esta nova análise foi conduzida por investigadoras e investigadores do University College Dublin e da University of Edinburgh. O trabalho foi publicado na revista científica JAMA Psychiatry, uma das referências na investigação em psiquiatria.

Para o estudo, a equipa recorreu aos registos nacionais de saúde da Finlândia. Foram incluídos dados de perto de 700.000 pessoas nascidas no país durante um período definido. Entre elas, aproximadamente 4.000 tinham recebido, em criança, um diagnóstico de perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA/ADHS).

O foco esteve no metilfenidato (Methylphenidat), um fármaco que integra as terapêuticas mais comuns na PHDA. A pergunta central era simples: crianças medicadas com este princípio ativo desenvolvem, mais tarde, perturbações psicóticas - como a esquizofrenia - com maior frequência do que crianças com PHDA que não o tomaram?

"O resultado: não há indícios de que o metilfenidato aumente o perigo de psicoses a longo prazo - pelo contrário, quando a terapêutica começa cedo, observa-se um ligeiro efeito protetor."

Metilfenidato e psicoses: não há aumento do risco de esquizofrenia

Um dos pontos-chave é este: crianças com PHDA têm, por si só, uma probabilidade superior de vir a desenvolver uma perturbação psicótica mais tarde. No estudo, essa proporção foi de cerca de seis por cento. Este aumento de risco já era conhecido há muito tempo e tem alimentado discussões na comunidade científica há anos.

A questão realmente controversa era outra: será que o medicamento contribui para essa subida - ou será que a associação se explica pela própria PHDA e pelos problemas que frequentemente a acompanham, como adversidades familiares, maior vulnerabilidade a dependências ou outras perturbações mentais?

De acordo com os dados agora analisados, a resposta é clara: quem tomou metilfenidato em criança não apresentou uma taxa mais elevada de psicoses do que crianças comparáveis com PHDA que não foram tratadas com este fármaco. Ou seja, a medicação não explica o risco basal aumentado.

Este resultado é particularmente relevante porque o metilfenidato atua sobre o mensageiro químico dopamina - e a dopamina também tem um papel importante nas psicoses. Há anos que existiam receios de que estes comprimidos pudessem, a longo prazo, alterar de forma perigosa a química cerebral. Com esta análise, essas preocupações ficam substancialmente enfraquecidas.

Tratamento antes dos 13 anos com metilfenidato pode ter efeito protetor

Um segundo achado, especialmente interessante, surgiu quando se analisou a idade de início: as crianças que receberam metilfenidato antes dos 13 anos apresentaram, mais tarde, um risco de psicose ligeiramente mais baixo do que as crianças com PHDA sem tratamento precoce. A diferença não foi enorme, mas manteve-se mesmo após ajustes estatísticos.

A partir daqui, as autoras e os autores avançam uma hipótese cautelosa: uma terapêutica de PHDA bem acompanhada na infância poderá contribuir para uma maior estabilização do cérebro a longo prazo. O mecanismo exato ainda não é conhecido, mas são discutidas várias explicações plausíveis:

  • Melhor evolução escolar e social, com menos frustração e menor exclusão
  • Menor probabilidade de consumo de drogas na adolescência, fator que pode favorecer psicoses
  • Rotinas mais estruturadas no dia a dia, através da medicação e de apoio complementar

O estudo não prova, por si, este mecanismo de proteção - mas fornece um sinal robusto que deverá ser testado em investigações futuras.

O que os pais podem retirar destes resultados

Muitas famílias receiam estar a tomar uma decisão errada quando um médico recomenda metilfenidato. As perguntas mais comuns são: "O medicamento vicia? Altera o cérebro do meu filho de forma permanente? Há risco de mais tarde surgir esquizofrenia?"

Esta análise responde, pelo menos, a uma parte desse conjunto de preocupações. Os dados sugerem que, em doses habituais, o tratamento com metilfenidato não aumenta o risco de psicose e pode até reduzi-lo ligeiramente quando se inicia cedo.

"Para os pais, isto significa: a decisão a favor ou contra uma medicação deve orientar-se mais pelos sintomas atuais e pela qualidade de vida da criança - e menos pelo medo de uma psicose futura."

Ainda assim, continua a ser essencial um plano terapêutico individualizado. Nem todas as crianças precisam de comprimidos. Algumas conseguem gerir bem com terapia comportamental, coaching, apoio escolar e estruturas claras no quotidiano. Outras, sem medicação, sofrem de forma marcada com inquietação, dificuldades de concentração e conflitos constantes.

Limitações do estudo: nem todos os medicamentos foram analisados

As próprias autoras e autores sublinham que as conclusões se aplicam apenas ao metilfenidato. Um outro grupo farmacológico relevante - as preparações de anfetamina (Amphetaminpräparate) - não pôde ser avaliado de forma fiável com os dados disponíveis na Finlândia.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os medicamentos à base de anfetaminas são usados com frequência na PHDA. Se alteram, ou não, o risco de psicose permanece, portanto, em aberto. Para clarificar esta questão, serão necessários conjuntos de dados grandes e estudos de seguimento a longo prazo.

Também os adultos não foram o foco principal desta análise. A equipa concentrou-se sobretudo em crianças e adolescentes tratados precocemente e acompanhados até à idade adulta. Não está esclarecido se efeitos semelhantes se verificam em pessoas que iniciam um medicamento para PHDA apenas aos 25, 35 ou 45 anos.

Porque é que PHDA (ADHS) e psicoses podem estar associadas

Independentemente da medicação, permanece um enigma: por que motivo pessoas com PHDA apresentam, em geral, maior risco de psicoses? Vários fatores são considerados possíveis:

  • Sobreposições genéticas entre PHDA e esquizofrenia
  • Maior exposição a bullying, abandono escolar e stress familiar
  • Risco mais elevado de consumo de substâncias, sobretudo canábis
  • Padrões de sono desfavoráveis e sobre-estimulação crónica

O que este estudo mostra é apenas que o metilfenidato não é o causador desse risco basal aumentado. A origem dessa vulnerabilidade continua a exigir investigação adicional.

O que a PHDA significa no dia a dia

A PHDA está entre as perturbações mentais mais frequentes na infância e adolescência. Estima-se que cerca de oito por cento das crianças e adolescentes em todo o mundo sejam afetados. Entre os sintomas mais típicos incluem-se:

  • Desatenção marcada: esquecimento, distração constante, desorganização no quotidiano
  • Hiperatividade: inquietação interna e externa, agitação, dificuldade em permanecer sentado
  • Impulsividade: agir precipitadamente, explosões de raiva, dificuldade em esperar

Sem apoio, muitas crianças com PHDA entram rapidamente num ciclo de insucessos e conflitos. Podem ser vistas como "preguiçosas" ou "mal-educadas", quando, na realidade, o seu cérebro funciona de forma diferente. Medicamentos como o metilfenidato podem ajustar a transmissão de sinais no cérebro, facilitando a concentração e o controlo de impulsos.

Ao mesmo tempo, a PHDA manifesta-se de formas muito distintas. Algumas pessoas compensam as dificuldades; outras desenvolvem depressão, problemas de dependência ou comportamentos agressivos. É precisamente aqui que surge a esperança de que uma intervenção precoce, bem calibrada, possa também reduzir a probabilidade de complicações graves ao longo da vida.

O que considerar quando se pondera medicação para PHDA

Os novos dados não substituem aconselhamento médico. Ainda assim, oferecem uma base mais sólida para conversas em consulta e em contexto hospitalar. Alguns pontos práticos que as famílias devem ter em atenção:

  • Diagnóstico rigoroso: antes de iniciar medicação, deve existir uma avaliação completa por pedopsiquiatria ou por consultas especializadas.
  • Terapia como pacote integrado: a medicação tende a ser mais eficaz quando combinada com terapia comportamental, treino parental e apoio escolar.
  • Acompanhamento regular: é importante monitorizar de perto eficácia, efeitos indesejáveis e ajuste de dose.
  • Comunicação aberta: a criança deve compreender, de forma adequada à idade, por que toma comprimidos e de que maneira podem ajudar.
  • Cautela com drogas: adolescentes com PHDA podem ser particularmente sensíveis à canábis e a outras substâncias - e o risco de psicose aumenta de forma clara.

Questões em aberto e próximos passos

Este estudo evidencia o valor de registos de saúde de grande escala para a psiquiatria. Ao mesmo tempo, persistem várias incertezas. Por exemplo, não se sabe se determinados subgrupos de crianças - como as que viveram traumas graves, consomem substâncias ou têm perturbações do desenvolvimento adicionais - reagem de forma diferente aos medicamentos.

Além do risco de psicose, futuras investigações deverão também olhar para efeitos a longo prazo noutros domínios: como evoluem a motivação, a carreira profissional, as relações e a saúde física em pessoas com PHDA tratadas precocemente, quando comparadas com pessoas sem terapêutica?

O que fica claro é que a ideia, tantas vezes repetida, de que o metilfenidato "empurra crianças para a esquizofrenia" dificilmente se sustenta com estes novos dados. A decisão de medicar, ou não, continua a ser individual - mas pode ser tomada com menos receio e com mais factos.

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