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Carne processada: não existe consumo seguro, segundo estudo

Homem jovem a escolher fiambre numa cozinha, com computador e documentos espalhados na mesa.

Sabemos que a carne processada não é, em geral, uma grande aliada da saúde - já foi associada a demência, diabetes e cancro. A dúvida é: existe uma quantidade “segura” para consumir? Uma nova análise sugere que, na prática, não.

O que analisou a equipa da Universidade de Washington

Investigadores dos EUA compilaram e reavaliaram mais de 70 estudos anteriores (no total, com vários milhões de participantes), para perceber de que forma os alimentos ultraprocessados se relacionam com três problemas de saúde: diabetes tipo 2, doença cardíaca isquémica e cancro colorrectal.

Dentro desse universo, os autores focaram-se nas ligações entre três grupos específicos e os desfechos de saúde: carne processada, bebidas adoçadas com açúcar e ácidos gordos trans.

O que conta como carne processada

Neste trabalho, foi considerada carne processada a que é preservada quimicamente, salgada, curada, fermentada ou fumada - intervenções usadas para melhorar o sabor ou prolongar a conservação.

Entre os exemplos incluídos estão bacon, presunto, cachorros-quentes, salsichas, carne enlatada, carne seca e outros produtos semelhantes.

Carne processada e risco: não há um limiar “seguro”

Ao comparar os resultados, foi a carne processada que apresentou o cenário mais desfavorável - e isto manteve-se mesmo quando a quantidade ingerida era baixa.

Os autores, da Universidade de Washington, em Seattle, escrevem no artigo publicado: “Os aumentos monotónicos do risco para a saúde com o aumento do consumo de carne processada sugerem que não existe uma quantidade ‘segura’ de consumo de carne processada no que diz respeito ao risco de diabetes ou de cancro colorrectal.”

Como interpretar os resultados (e as limitações)

É importante enquadrar estas conclusões. As associações identificadas são relativamente fracas, não demonstram uma relação directa de causa-efeito e muitos dos estudos avaliados basearam-se em hábitos alimentares auto-reportados (o que pode introduzir imprecisões).

Ainda assim, a análise tem pontos fortes. Os investigadores aplicaram um método de Ónus da Prova (uma abordagem mais conservadora para estimar impactos na saúde). Por essa razão, os valores apresentados tendem a ser mínimos - o que significa que poderão subestimar o risco real.

Um aspecto que se destacou foi o facto de aumentos muito pequenos no consumo já se associarem a subidas do risco.

O biólogo de nutrição da Universidade de Washington Demewoz Haile disse à CNN: “O consumo habitual, mesmo em pequenas quantidades, de carne processada, bebidas açucaradas e ácidos gordos trans está associado a um aumento do risco de desenvolver diabetes tipo 2, doença cardíaca isquémica e cancro colorrectal.”

Por exemplo, o equivalente a um cachorro-quente por dia foi associado a, pelo menos, mais 11 por cento de risco de diabetes tipo 2 e a, pelo menos, mais 7 por cento de risco de cancro colorrectal, quando comparado com não consumir carne processada.

No caso das bebidas, acrescentar uma lata por dia de refrigerante adoçado com açúcar foi associado a um risco 8 superior de diabetes tipo 2 e a mais 2 por cento de risco de doença cardíaca isquémica, face a não beber bebidas açucaradas.

Quanto aos ácidos gordos trans, uma pequena quantidade diária foi associada a um aumento de 3 por cento no risco de doença cardíaca isquémica, em comparação com consumo zero.

Os investigadores escrevem ainda: “Esta informação fornece dados críticos para especialistas em saúde pública e decisores políticos responsáveis por orientações alimentares e por possíveis iniciativas que visem reduzir o consumo destes alimentos processados.”

Apesar das limitações, a dimensão da análise e a metodologia conservadora fazem com que os resultados mereçam atenção.

Isto é reforçado por um comentário publicado na mesma revista, que assinala também o papel dos alimentos ultraprocessados em melhorar a acessibilidade e o prazo de conservação dos alimentos - sobretudo em zonas com acesso limitado a produtos frescos.

A mensagem central da equipa é que, para a saúde, a melhor opção é reduzir ao máximo o consumo de alimentos ultraprocessados.

A investigação foi publicada na Nature Medicina.

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