A ideia de um animal devorar as próprias crias provoca-nos, por instinto, repulsa e nojo. Ainda assim, a investigação indica que, em muitas espécies, este comportamento faz parte do repertório normal - não como um “deslize”, mas como uma estratégia dura e, muitas vezes, eficaz de sobrevivência da própria linhagem.
Porque é que os pais comem as crias - e porque é que “compensa” (canibalismo parental)
Uma grande revisão biológica que reuniu cerca de 400 estudos concluiu o seguinte: o canibalismo em que os progenitores comem a própria descendência ocorre em pelo menos pouco mais de 20 grupos diferentes de animais, desde insetos a peixes e anfíbios, passando por aves e mamíferos. Na esmagadora maioria dos casos, não se trata de um comportamento patológico, mas sim de uma espécie de cálculo de custos e benefícios num contexto de sobrevivência.
O problema central é este: os pais investem enormes quantidades de energia na reprodução - e, numa situação limite, essa energia também pode ser recuperada. Sobretudo quando, à partida, as probabilidades de sucesso de toda a ninhada ou postura já são baixas.
"Em muitas espécies, comer as próprias crias funciona como um método radical, mas eficaz, de recuperar energia e aumentar as hipóteses de sobrevivência dos restantes descendentes."
Para nós, isto pode soar a loucura. Do ponto de vista evolutivo, é uma optimização implacável: nem todos os descendentes “valem” o mesmo - o que importa é quantos sobrevivem a longo prazo e conseguem, por sua vez, reproduzir-se.
Exemplos no mundo animal: de peixes a mamíferos
Peixes: quando o pai come os ovos
Em muitas espécies de peixes, são os machos que vigiam os ovos. Abanam-nos para garantir oxigénio, defendem o ninho e afastam predadores. Tudo isto exige energia. Se a comida escassear ou se a postura for demasiado grande, alguns machos recorrem a um passo drástico: consomem uma parte dos próprios ovos.
À primeira vista, isto parece uma traição à paternidade, mas pode cumprir várias funções:
- Recuperação de energia: os ovos fornecem nutrientes que o macho consegue armazenar no corpo.
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