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Peste no Arizona: o que é e há motivo de preocupação na Austrália?

Cientista numa sala a escrever num mapa pendurado, com computador e material de laboratório na mesa.

Uma pessoa no Arizona morreu devido à peste, segundo comunicaram na sexta‑feira as autoridades de saúde locais.

Trata‑se da primeira morte deste tipo nesta região em 18 anos. Ainda assim, é um lembrete duro de que esta doença histórica - apesar de hoje ser rara - não pertence apenas ao passado.

Então, afinal, o que é a “peste”? E existe algum motivo de preocupação na Austrália?

Há 3 tipos de ‘peste’

A palavra “peste” é muitas vezes usada para falar de qualquer grande surto epidémico ou pandémico, ou até para descrever outros acontecimentos indesejáveis, como uma praga de ratos. É natural que o termo desperte receio.

Do ponto de vista científico, porém, a peste é uma doença provocada pela bactéria Yersinia pestis.

Existem três formas principais de peste: bubónica, septicaémica e pneumónica.

A forma bubónica é a mais frequente e recebe esse nome por causa dos “bubões”, isto é, gânglios linfáticos dolorosos e inchados que a infeção provoca. Entre os outros sintomas contam‑se febre, dor de cabeça, arrepios e sensação de fraqueza.

Em geral, a peste bubónica transmite‑se através de pulgas que vivem em animais como ratos, cães‑da‑pradaria e marmotas. Quando uma pulga infetada passa do animal hospedeiro para morder um ser humano, pode desencadear a infeção.

A infeção também pode ocorrer ao manusear um animal que esteja infetado com a doença.

A peste septicaémica surge quando a peste bubónica não é tratada, embora também possa aparecer diretamente se a doença entrar na corrente sanguínea. A peste septicaémica provoca hemorragias nos órgãos. O nome vem de septicemia, termo que descreve uma infeção grave do sangue.

A morte recente nos Estados Unidos deveu‑se a um caso de peste pneumónica, que é a forma mais grave. Em alguns casos, a peste bubónica pode disseminar‑se para os pulmões e transformar‑se em peste pneumónica. No entanto, a peste pneumónica também pode passar de pessoa para pessoa através de minúsculas gotículas respiratórias, de forma semelhante ao que acontece com a COVID. Os sintomas são parecidos com os das outras formas, mas incluem igualmente pneumonia grave.

Cerca de 30–60% das pessoas que contraem peste bubónica acabam por morrer, enquanto a taxa de mortalidade pode chegar a 100% na peste pneumónica se não houver tratamento.

Peste: um breve enquadramento histórico

Esta é uma das doenças mais marcantes da história. A Peste de Justiniano (541–750 d.C.) matou dezenas de milhões de pessoas no Mediterrâneo ocidental, afetando fortemente a expansão do Império Bizantino.

A Peste Negra medieval (1346–53) foi igualmente devastadora, causando a morte de dezenas de milhões e de até metade da população europeia.

Impulsionada pelas redes comerciais em expansão do Império Britânico, a terceira e mais recente pandemia de peste decorreu de 1855 até cerca de 1960, com o pico no início do século XX. Foi responsável por 12 milhões de mortes, sobretudo na Índia, e chegou inclusivamente à Austrália.

Pensa‑se que a peste bubónica esteve, em grande medida, por detrás destas pandemias.

Peste na atualidade

A peste foi introduzida nos Estados Unidos durante a terceira pandemia. Atualmente, infeta em média sete pessoas por ano no oeste do país, porque é endémica em populações de marmotas e de cães‑da‑pradaria nessa região. O último grande surto ocorreu há 100 anos.

As mortes são muito pouco comuns: registaram‑se 14 mortes nos últimos 25 anos nos Estados Unidos.

À escala global, ao longo da última década, foram reportados alguns milhares de casos de peste.

Os países com mais casos neste momento incluem a República Democrática do Congo, Madagáscar e o Peru, existindo também casos na Índia, na Ásia Central e nos Estados Unidos. Em regra, os casos surgem em zonas rurais e agrícolas.

A peste pode ser tratada

A peste trata‑se facilmente com antibióticos comuns, geralmente num ciclo de 10–14 dias, que pode incluir antibióticos orais e intravenosos. Ainda assim, é essencial iniciar o tratamento rapidamente.

A morte recente é motivo de inquietação por envolver a forma pneumónica, transmitida pelo ar, a única que se espalha com facilidade de pessoa para pessoa. No entanto, até ao momento, não há indícios de que a doença esteja a disseminar‑se mais nos Estados Unidos.

Como a Y. pestis não existe em animais australianos, o risco na Austrália é reduzido. Não há registos de peste na Austrália há mais de um século.

Ainda assim, tal como muitas doenças, a peste é influenciada por condições ambientais. O risco de as alterações climáticas permitirem a expansão do habitat dos animais hospedeiros significa que especialistas de saúde pública em todo o mundo devem continuar a monitorizá‑la de perto.

A peste, embora seja frequentemente encarada como uma doença do passado, continua entre nós e pode representar uma grande ameaça para a saúde se não for tratada precocemente.

Thomas Jeffries, Professor Auxiliar de Microbiologia, Western Sydney University

Este artigo foi republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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