A perda de polinizadores de insetos não é apenas um problema ambiental. Trata-se também de uma crise de saúde, de nutrição e de economia.
Um novo estudo mostrou, com detalhe, de que forma estas ligações funcionam, seguindo toda a cadeia - dos insetos selvagens no campo até às vitaminas que chegam ao prato de uma família. Os resultados são tão marcantes que é difícil ignorá-los.
A investigação foi liderada pela Universidade de Bristol, com uma equipa que reuniu universidades e ONG do Nepal, do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Finlândia.
O autor principal é Thomas Timberlake, que desenvolveu este trabalho na Universidade de Bristol e atualmente está na Universidade de Iorque. A autora sénior é a professora Jane Memmott, da Escola de Ciências Biológicas de Bristol.
O que os cientistas mediram, na prática
Há muito que se sabe que os polinizadores de insetos - abelhas, moscas-das-flores (sirfídeos), besouros, entre outros - são indispensáveis para produzir muitas das frutas e hortícolas de que as pessoas dependem.
O que tem sido mais difícil de demonstrar é o impacto concreto, em pessoas reais, quando esses insetos entram em declínio. Foi precisamente esse tipo de evidência que este estudo procurou.
A equipa trabalhou em 10 aldeias de pequenos agricultores no Nepal e nas paisagens à sua volta, acompanhando as dietas, os nutrientes das culturas e os insetos que visitavam essas culturas ao longo de um ano completo.
Ao seguir toda a sequência - do polinizador para a cultura, da cultura para o prato e daí para os resultados em saúde - os investigadores conseguiram quantificar a relação entre biodiversidade de insetos e bem-estar humano.
Dietas que dependem das culturas
As conclusões são preocupantes. Os polinizadores de insetos estavam associados a 44% do rendimento das famílias agricultoras.
Além disso, os polinizadores contribuíam com mais de 20% da ingestão de vitamina A, folato e vitamina E - nutrientes que, para muitas das famílias analisadas, já eram escassos.
Mais de metade das crianças tinha uma estatura inferior ao esperado para a idade, um sinal de subnutrição crónica, em grande parte ligada a dietas fracas que dependem fortemente de culturas polinizadas por insetos.
“À medida que a biodiversidade de polinizadores diminui, a perda de vitamina A, folato e proteína na dieta pode prejudicar ainda mais a saúde e o desenvolvimento destas crianças, pelo que os esforços para restaurar os polinizadores são cruciais”, afirmou Naomi Saville, do Instituto de Saúde Global do Colégio Universitário de Londres, que coordenou o trabalho de nutrição no Nepal.
A biodiversidade não é um luxo
Existe um termo para o tipo de subnutrição que não aparece como fome evidente, mas que corrói silenciosamente a saúde, o crescimento e a capacidade de resistência: fome oculta.
A sua origem não está na falta de calorias, mas sim na ausência de vitaminas e minerais específicos. Atualmente, cerca de um quarto da população mundial sofre deste problema.
O que este estudo evidencia é que o declínio de polinizadores é um dos mecanismos que alimenta a subnutrição.
Quando desaparecem os insetos que sustentam culturas nutritivas, também se deteriora a qualidade nutricional do que as famílias agricultoras conseguem produzir e consumir. O resultado é uma maior vulnerabilidade à doença, à infeção e à pobreza - com efeitos que podem ser difíceis de reverter.
“O nosso estudo mostra que a biodiversidade não é um luxo - é fundamental para a nossa saúde, nutrição e meios de subsistência”, disse Timberlake.
“Ao revelar como espécies como os polinizadores sustentam os alimentos que comemos, destacamos não só os riscos que a perda de biodiversidade representa para a saúde humana, mas também as oportunidades poderosas de melhorar vidas humanas ao trabalharmos com a natureza.”
Melhorar as condições para a biodiversidade
O estudo não funciona apenas como alerta. Também indica, com bastante clareza, que há margem para resolver o problema - e sem custos elevados.
Quando as comunidades adotam medidas que apoiam as populações de polinizadores, o rendimento e a nutrição melhoram. E as intervenções necessárias não são grandiosas nem tecnicamente complicadas: plantar flores silvestres junto aos campos, reduzir o uso de pesticidas, manter abelhas nativas.
São medidas pequenas, práticas e locais, com custos relativamente baixos, mas que trazem ganhos mensuráveis tanto para as pessoas como para os ecossistemas.
“Existe um cenário ‘ganha-ganha’ em que podemos melhorar simultaneamente as condições para a biodiversidade e para as pessoas - requer compreensão ecológica, mas custa surpreendentemente pouco e há ganhos significativos para ambas as partes”, afirmou Memmott.
Implicações para lá do Nepal
A investigação decorreu no Nepal, mas as ligações de base não são exclusivas do país.
No mundo, cerca de dois mil milhões de pessoas dependem da agricultura de pequena escala, e as dietas em todo o lado, incluindo nos países industrializados, continuam a depender dos polinizadores e dos ecossistemas que sustentam a agricultura global.
O enquadramento proposto pelo estudo para compreender e medir essas dependências pode ser aplicado praticamente em qualquer região.
Os resultados já estão a influenciar políticas reais. A equipa está a trabalhar com agricultores, organizações locais e parceiros governamentais em todo o Nepal para disseminar práticas agrícolas favoráveis aos polinizadores - e este trabalho está a apoiar a criação de uma nova Estratégia Nacional para os Polinizadores no país.
É um caso pouco comum em que um estudo científico passa, relativamente depressa, da medição à ação.
A evidência é clara, as soluções são simples e o que está em jogo - para as famílias envolvidas e para aproximadamente dois mil milhões de pessoas em condições semelhantes no mundo - é tão concreto quanto possível.
Ecossistemas mais saudáveis, afinal, significam pessoas mais saudáveis. Na verdade, nunca foram coisas separadas.
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