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Tuberculose na Europa: novos dados da OMS e do ECDC mostram que a ameaça persiste

Médico a analisar um raio-X ao lado de uma janela com máscara, estetoscópio e tubos de sangue numa mesa.

Dados recentes da OMS/WHO e do ECDC mostram que a tuberculose está longe de estar erradicada na Europa. Apesar de se observar uma descida dos números, continuam a escapar aos sistemas de saúde milhares de infeções - e os agentes resistentes tornam o tratamento cada vez mais complexo.

Menos casos, mas lacunas perigosas

A Organização Mundial da Saúde e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças alertam para um problema persistente: na região europeia da OMS, apenas cerca de quatro quintos dos casos de tuberculose são realmente identificados. Uma em cada cinco infeções não é detetada ou não chega a ser notificada.

De forma oficial, os países da região comunicaram, em 2024, pouco mais de 160.000 novos casos diagnosticados. No entanto, os especialistas estimam que o total real ronde os 204.000. Esta diferença representa centenas de milhares de pessoas que continuam potencialmente contagiosas, sem acesso a um tratamento dirigido.

"Os casos de tuberculose não detetados são um perigo duplo: as pessoas doentes sofrem durante mais tempo - e infetam outras pessoas."

No conjunto, a tendência é de queda: desde 2015, a incidência de tuberculose na região europeia da OMS diminuiu 39% e o número de mortes baixou 49%. Ainda assim, estes progressos não chegam para cumprir as metas intermédias definidas.

Metas falhadas apesar da descida das mortes

A estratégia End TB estabeleceu objetivos claros para 2025: reduzir para metade os casos de doença e cortar as mortes em três quartos, comparando com 2015. À luz dos dados atuais, nenhum dos dois objetivos será atingido.

Na União Europeia, o cenário pode parecer mais favorável à primeira vista, mas os países também não estão a acompanhar o plano. Os casos notificados diminuíram 33%, enquanto as mortes recuaram apenas 17%. Isto traduz-se em infeções e óbitos evitáveis - mesmo com medicina moderna, antibióticos e um sistema de saúde, em geral, robusto.

Diagnóstico tardio - consequência cara e arriscada

Os peritos em saúde pública apontam, sobretudo, para a falha na deteção precoce. Quem recebe o diagnóstico tarde tende a ter quadros mais graves e pode transportar as bactérias há mais tempo. O tratamento torna-se mais difícil e, durante esse período, aumenta a probabilidade de transmitir a doença a outras pessoas.

O diretor regional da OMS sublinha que cada infeção não identificada é uma oportunidade perdida: oportunidade de iniciar terapia rapidamente, reduzir sofrimento e limitar contágios em contextos próximos - por exemplo, em famílias, alojamentos coletivos ou prisões.

Agentes resistentes como ameaça crescente

A situação é particularmente preocupante quando entram em jogo microrganismos resistentes. Na Europa, circulam variantes de tuberculose que já não respondem a vários dos principais fármacos de primeira linha. Estas estirpes multirresistentes surgem tanto em pessoas diagnosticadas pela primeira vez como em doentes com tratamento anterior.

De acordo com o relatório, a proporção de tuberculose multirresistente é:

  • cerca de 23% entre os casos novos registados
  • aproximadamente 51% entre pessoas previamente tratadas

Estes valores ficam muito acima das médias globais, que se situam em apenas alguns pontos percentuais. Para os especialistas, isto é um sinal claro de que a transmissão de bactérias resistentes continua ativa na população.

"A tuberculose multirresistente já não é um fenómeno marginal - reflete cadeias de transmissão reais em países europeus."

Terapia padrão vs. tratamento prolongado e complexo

Quando não existe resistência, a tuberculose costuma ser tratada com um esquema de seis meses, combinando quatro medicamentos bem estabelecidos. Nestas situações, a taxa de sucesso é frequentemente superior a 85%. Com adesão rigorosa, muitos doentes ficam totalmente curados.

Nas formas resistentes aos medicamentos, o panorama muda por completo. São necessárias combinações mais exigentes com vários antibióticos. O tratamento prolonga-se, tende a provocar efeitos secundários mais intensos e atinge menos vezes a cura completa. Além disso, o abandono terapêutico é mais frequente, o que agrava ainda mais o problema das resistências.

Onde a tuberculose hoje atinge com mais força

Muitos países europeus são atualmente classificados como de baixa incidência de tuberculose. Nesses locais, registam-se menos de 10 casos notificados por 100.000 habitantes. Ainda assim, o risco não se distribui de forma uniforme.

Os grupos mais afetados incluem:

  • migrantes e refugiados provenientes de regiões com elevada taxa de TB
  • pessoas em estabelecimentos prisionais, com espaços apertados e pouca renovação de ar
  • pessoas com o sistema imunitário fragilizado, por exemplo com infeção por HIV
  • pessoas em situação de sem-abrigo e outras em condições habitacionais precárias

Em vários países da Europa Ocidental, a redução do número total de casos trouxe uma consequência paradoxal: a tuberculose sai do radar político e mediático. Os especialistas alertam que esta perda de atenção enfraquece a resposta às variantes resistentes. Consultas especializadas são reduzidas, a capacidade laboratorial diminui e os rastreios de rotina em grupos de risco ficam para segundo plano.

Porque é que os casos não detetados são tão perigosos

Uma pessoa com tuberculose ativa liberta os agentes ao tossir, em minúsculas gotículas. Em espaços mal ventilados, estas bactérias podem permanecer no ar durante horas. Se a doença não for reconhecida, a transmissão pode ocorrer facilmente em casa, no local de trabalho ou em alojamentos coletivos - muitas vezes muito antes de alguém suspeitar de tuberculose.

Os sinais mais típicos são:

  • tosse persistente por mais de duas semanas
  • febre sem explicação e cansaço constante
  • suores noturnos, muitas vezes com roupa de cama encharcada
  • perda de peso não intencional

Perante estes sintomas - sobretudo após estadias em países com elevada taxa de TB ou após contacto próximo com pessoas doentes - deve procurar-se avaliação médica. Um exame de raios X e análises laboratoriais ao escarro esclarecem muitas vezes a situação com rapidez.

O que a OMS e o ECDC exigem aos Estados

As autoridades de saúde europeias apontam um caminho claro para inverter a situação. Três prioridades concentram a resposta:

  • Diagnóstico mais rápido: utilização de testes rápidos modernos, capazes de detetar os agentes em poucas horas e identificar resistências de forma precoce.
  • Esquemas terapêuticos orais mais curtos: novas combinações de medicamentos, sem necessidade de perfusões e mais fáceis de cumprir no dia a dia.
  • Melhor acompanhamento: seguimento próximo para garantir que as pessoas tomam a medicação até ao fim.

Especialistas de saúde da Alemanha defendem, além disso, uma cooperação transfronteiriça reforçada. Pessoas com tuberculose mudam frequentemente de residência, por exemplo entre países vizinhos. Sem sistemas de dados compatíveis e planos terapêuticos articulados, perde-se informação e os tratamentos ficam interrompidos.

"Quem quer reduzir a tuberculose na Europa a sério tem de pensar tratamento, prevenção e migração em conjunto."

O que é afinal a tuberculose - e porque é tão traiçoeira

A tuberculose é causada por bactérias específicas que se instalam sobretudo nos pulmões. Ao contrário de muitas infeções agudas, podem passar meses ou até anos até surgirem sintomas. Assim, é possível estar infetado sem o saber. Nesta fase “latente”, as pessoas geralmente não são contagiosas, mas um enfraquecimento do sistema imunitário pode desencadear, a qualquer momento, a doença ativa.

Uma característica típica do agente é a capacidade de se ocultar em células do próprio sistema de defesa, persistindo durante muito tempo. Quando os tratamentos não são concluídos de forma rigorosa ou quando são usados antibióticos inadequados, favorece-se o aparecimento de variantes resistentes - um problema central em algumas áreas da Europa de Leste e da Ásia Central.

O que cada pessoa pode fazer

A responsabilidade não recai apenas sobre as autoridades. Há também medidas individuais que ajudam a reduzir o risco:

  • levar a sério os sinais de alerta e procurar apoio médico em caso de tosse prolongada
  • cumprir as terapias prescritas até ao fim e sem interrupções
  • em agregados familiares com casos de TB, garantir que os contactos são testados
  • em contextos de risco profissional (saúde, prisões, apoio a refugiados), respeitar rigorosamente as medidas de proteção

Para pessoas com o sistema imunitário comprometido - por exemplo por HIV, certos tipos de cancro ou novas imunoterapias - é útil uma avaliação detalhada sobre a pertinência de testar tuberculose latente. Em alguns destes grupos, tratamentos preventivos específicos podem reduzir de forma significativa o risco de uma doença grave mais tarde.

Mesmo que, estatisticamente, a tuberculose seja hoje menos frequente na Europa, os dados atuais sobre casos não detetados e agentes resistentes deixam claro que o microrganismo não pertence ao passado. Quanto mais cedo a sociedade e a política reagirem, maior será a probabilidade de evitar uma inversão da tendência - e de impedir que uma doença aparentemente antiga se transforme num problema contemporâneo.


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