Um caso que surgiu há alguns anos numa revista médica voltou recentemente a ser noticiado e chama a atenção para um risco pouco esperado das terapias hormonais: na Suécia, uma bebé desenvolveu genitais invulgarmente aumentados depois de se deitar sobre o peito nu do pai e ficar, sem intenção, exposta ao gel de testosterona que ele usava.
O episódio recorda que os tratamentos hormonais, apesar de serem seguros quando utilizados correctamente, podem representar um perigo para outras pessoas se não forem cumpridas as precauções recomendadas.
A testosterona é uma hormona sexual potente e determinante para o desenvolvimento masculino. Nos primeiros meses de vida, os bebés atravessam um período de crescimento acelerado, o que torna o organismo - e o equilíbrio hormonal - particularmente sensível.
Mesmo quantidades reduzidas de testosterona que entrem no corpo através da pele podem interferir com o desenvolvimento de um bebé, sobretudo quando a exposição se repete.
O caso na Suécia e o que mudou na bebé
Nos rapazes, existe um breve aumento natural das hormonas alguns meses após o nascimento - a chamada "mini-puberdade" - durante o qual os níveis de testosterona sobem. Esta subida ajuda a concluir etapas do desenvolvimento do sistema reprodutor e a prepará-lo para a vida adulta, além de também influenciar o desenvolvimento do cérebro.
Nas raparigas, durante o mesmo período há apenas uma pequena elevação de estrogénio, enquanto a testosterona se mantém muito baixa. Por isso, quando uma rapariga é exposta a testosterona vinda do exterior, por exemplo a partir de um gel hormonal, podem surgir alterações inesperadas, como aumento do clítoris ou fusão dos lábios. Foi exactamente este tipo de alteração que ocorreu no caso sueco.
Gel de testosterona: como ocorre a transferência e porque é arriscada
Os géis de testosterona são frequentemente receitados para tratar homens com deficiência de testosterona. Em geral, aplicam-se uma vez por dia sobre pele limpa e seca, normalmente nos ombros, na parte superior dos braços ou no abdómen. Por serem géis à base de álcool, facilitam a absorção da hormona através da pele.
Embora o gel seque em poucos minutos, pode permanecer uma película de produto na pele durante uma a duas horas após a aplicação. Se outra pessoa tocar na zona demasiado cedo - ou se apoiar directamente nessa área - pode absorver inadvertidamente parte da hormona. O risco é especialmente relevante em bebés e crianças: a pele é mais fina e absorve com maior facilidade, e o organismo está em desenvolvimento, o que aumenta a vulnerabilidade.
Estes géis estão também a ser usados, cada vez mais, fora das indicações aprovadas em algumas mulheres para aliviar sintomas da menopausa (como diminuição do desejo sexual, humor em baixo e fadiga), geralmente com cerca de um décimo da dose utilizada nos homens. Essa dose inferior consegue-se aplicando uma quantidade menor do mesmo produto destinado a homens, mas desta vez na parte inferior do abdómen, nas nádegas ou na face interna das coxas.
No total, a quantidade de hormona é muito menor, mas continua a existir a possibilidade de exposição acidental - por exemplo, ao pegar ao colo numa criança pouco tempo depois da aplicação.
Alguma perspectiva
Apesar de relatos como este gerarem preocupação - e isso ser compreensível - é importante enquadrar o risco real. No Reino Unido, cerca de 50.000 a 100.000 pessoas têm testosterona prescrita no NHS, sendo as formulações em gel populares por serem fáceis de usar. Se a exposição acidental fosse frequente, existiriam muitos mais casos do que o pequeno número descrito em revistas médicas.
As instruções fornecidas com estes géis são explícitas: aplicar apenas nas zonas indicadas, lavar as mãos de imediato, cobrir a pele depois de o gel secar e evitar contacto pele com pele durante várias horas. Quando estas orientações são seguidas, a transferência é muito improvável.
No caso da criança sueca, quando o pai deixou de apoiar a bebé no seu peito nu, as alterações genitais foram revertendo ao longo do tempo. O mesmo padrão aparece noutros casos relatados: se a exposição for interrompida cedo, muitos efeitos podem desaparecer naturalmente.
Ainda assim, em situações mais graves ou prolongadas, pode ser necessário tratamento médico. Isso pode incluir análises hormonais, acompanhamento continuado, terapêutica anti-hormonal ou até cirurgia, caso as alterações físicas não revertam. A intervenção precoce é determinante, pelo que é essencial falar com um médico se existir qualquer suspeita.
Prevenção, alternativas e uso responsável da terapia com testosterona
Para quem tem bebés, crianças pequenas ou uma companheira grávida em casa, a solução passa por planear. Aplique o gel numa altura em que não vá ter contacto directo logo a seguir, ou pondere alternativas como injecções, adesivos transdérmicos ou comprimidos (disponíveis nos EUA), que apresentam menor risco de exposição não intencional de terceiros.
Este caso é um lembrete útil de que a terapêutica com testosterona, como qualquer medicamento, implica responsabilidade. Quando utilizada correctamente, é um tratamento eficaz para homens com deficiência de testosterona diagnosticada, com melhoria da função sexual e do humor; há ainda evidência de que pode ajudar a manter a massa muscular, a saúde óssea e o metabolismo.
Não há razão para temer estes tratamentos, mas, se lhe foi prescrito este medicamento, utilize-o com responsabilidade e siga cuidadosamente as instruções.
Daniel Kelly, Professor Auxiliar de Bioquímica, Universidade Sheffield Hallam
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário