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Sonhar acordado: estudo sobre a transição entre vigília e sono

Jovem deitado no sofá a ler um livro, com ilustrações imaginativas a sair das páginas, chá na mesa.

Costumamos imaginar a vigília e o sono como dois estados bem separados. No entanto, a linha que os divide poderá ser bem mais difusa. Um estudo recente indica que é possível sonhar mesmo estando totalmente acordado, de forma comparável ao que acontece durante o sono.

Em paralelo, pensamentos banais e utilitários podem manter-se activos mesmo depois de já termos adormecido. Ou seja, o conteúdo mental parece não respeitar a fronteira arrumada que gostamos de traçar entre estar desperto e estar a dormir.

Esta é a principal conclusão de um trabalho conduzido por investigadores focados no início do sono - aquele intervalo curto e escorregadio em que a mente passa, gradualmente, da vigília para o adormecimento.

Estados de transição: vigília vs. sono

A passagem de acordado para adormecido é uma experiência familiar, embora raramente analisada com atenção: é quando os pensamentos se tornam menos rígidos, surgem imagens inesperadas e a mente começa a operar de forma mais estranha.

“Mas isto não é, de todo, evidente. Estar acordado não é sinónimo de estar atento, plenamente consciente do que nos rodeia, ou capaz de agir e pensar de forma racional”, explicou Delphine Oudiette, co-líder da DreamTeam no Paris Brain Institute.

“Hoje sabemos que existe um continuum entre a vigília e o sono, com estados intermédios como a divagação mental ou o vazio mental, durante os quais certas regiões do cérebro podem estar a dormir”, acrescentou.

“O que faltava esclarecer era se o conteúdo dos nossos pensamentos também varia de forma independente do nosso nível de vigilância”, disse ainda.

Na fronteira do sono

O início do sono ofereceu uma oportunidade pouco comum para observar, em tempo real, a transformação do que se passa na mente.

“O início do sono permite-nos captar, num intervalo muito curto, flutuações do nosso estado de vigilância, da vigília ao sono, e observar as experiências mentais associadas a essas mudanças”, afirmou o autor principal Nicolas Decat, estudante de doutoramento no Paris Brain Institute.

“À medida que derivamos para o sono, desenrolam-se sensações, visões e excertos de fala - aquilo a que habitualmente se chama experiências hipnagógicas. Acompanhar a evolução de um pensamento comum até uma narrativa com ar de sonho pode ajudar-nos a compreender como nasce um sonho.”

Nesta fase, não estamos completamente acordados, mas também ainda não estamos plenamente num estado de sonho. É um limiar, e os investigadores quiseram perceber que tipos de pensamentos vivem nesse território.

Captar o conteúdo da mente

Para responder a essa questão, a equipa trabalhou com 92 pessoas habituadas a fazer sestas e que tinham sido treinadas para descrever o que lhes passava pela cabeça imediatamente antes de serem interrompidas.

O protocolo inspirou-se em Thomas Edison, a quem é atribuída a prática de adormecer segurando um objecto pesado. Quando começava a adormecer, o objecto caía, acordava-o e permitia-lhe agarrar as ideias estranhas ou criativas que tinham acabado de atravessar a sua mente.

Neste estudo, os participantes eram acordados ou pelo facto de largarem uma garrafa que seguravam, ou por um alarme. Em cada interrupção, tinham de relatar o que se tinha passado na mente nos dez segundos anteriores.

Experiência subjectiva e dados rigorosos

Além do relato, os participantes classificaram essa experiência mental quanto ao grau de bizarria, fluidez, espontaneidade e ao quão acordados se sentiam.

Em simultâneo, os investigadores registaram a actividade cerebral através de EEG. Depois, em vez de encaixarem os resultados em categorias pré-definidas, deixaram que os próprios dados revelassem a organização subjacente.

“Esta abordagem orientada pelos dados foi essencial para nós, porque na investigação não existe consenso sobre o que são, ao certo, as experiências hipnagógicas. Era importante não enviesar esta exploração com as nossas próprias definições ou crenças”, afirmou Decat.

Quatro estados mentais distintos

O que surgiu não foi uma simples divisão entre pensamento de vigília e conteúdo de sonho. Em vez disso, os investigadores identificaram quatro estados mentais diferentes.

Um deles correspondia a recordações breves, semelhantes a uma memória fugaz. Outro estava fortemente ancorado no mundo exterior, como reparar em sons da rua.

O terceiro era o mais estranho, caracterizado por conteúdo bizarro e com qualidade onírica. O quarto envolvia pensamento deliberado e controlado, por exemplo organizar o dia seguinte.

Importa notar que estes quatro estados apareceram em todos os três níveis de vigilância avaliados pela equipa: vigília, início do sono e sono leve.

“Esta é a principal descoberta do nosso estudo. Os estados mentais tradicionalmente associados ao sonhar podem emergir tanto quando estamos a dormir como quando estamos acordados”, explicou Decat.

“Uma das nossas participantes, estando acordada, relatou ver formigas a rastejar-lhe pelo corpo contra um fundo de palavras cruzadas. Em contrapartida, outro participante percorreu mentalmente a agenda do dia seguinte quando estava completamente a dormir.”

Uma assinatura da estranheza

A equipa encontrou também uma assinatura cerebral específica associada ao estado mental bizarro, semelhante ao sonho.

Ao analisarem a complexidade dos sinais de EEG, a sua potência espectral e a forma como diferentes regiões cerebrais comunicavam, os investigadores identificaram um padrão particular para este tipo de conteúdo mental.

Esse padrão incluía uma redução da conectividade de longo alcance entre as regiões frontal e occipital do cérebro.

“Esta assinatura poderá muito bem ser o correlato daquilo que sentimos nesse estado: o raciocínio lúcido é ultrapassado por um turbilhão de sensações vívidas típicas dos sonhos”, sugeriu Decat.

Porque interpretamos mal os sonhos

Se o pensamento com qualidade de sonho pode ocorrer quando estamos acordados, porque é que tendemos a considerar os sonhos como algo exclusivo do sono?

Os investigadores suspeitam que a memória desempenha um papel importante.

“Esta ideia pré-concebida provavelmente resulta de um enviesamento da memória. Lembramo-nos sobretudo dos sonhos com emoções fortes ou daqueles a que atribuímos um significado especial. No entanto, é igualmente comum sonhar que estamos a trabalhar!”, observou Nicolas Decat.

“Por outro lado, algumas pessoas relatam que pensamentos fantasiosos diurnos - esquivos, como fragmentos de um sonho - por vezes surgem durante as suas actividades quotidianas. Como são percebidos como incongruentes, é possível que ocorram com mais frequência do que imaginamos, mas tendemos a descartá-los.”

Muitas vezes, fica-nos na memória o sonho estranho que nos acordou sobressaltados. Já os inúmeros pensamentos esquisitos e flutuantes que atravessam o dia a dia tendem a desaparecer depressa, sem deixar rasto.

Um novo olhar sobre a insónia

O estudo pode também ter utilidade clínica.

Muitas pessoas com insónia insistem que quase não dormem, mesmo quando os registos de um laboratório do sono indicam o contrário. Esta discrepância é frequentemente designada por insónia paradoxal.

Os novos resultados sugerem que a classificação convencional dos estágios do sono pode estar a falhar um aspecto relevante: alguém pode estar, tecnicamente, a dormir, mas passar longos períodos num estado mental vivido como alerta. Em sentido inverso, pode acontecer que essa pessoa quase não entre no estado mais onírico.

Novo critério para definir o estado mental

“Estes critérios são provavelmente inadequados. O nosso estudo propõe um novo - o conteúdo mental - que pode estar mais alinhado com aquilo que estes doentes realmente experienciam”, afirmou Oudiette.

“Visto por esta lente, alguns poderão passar um tempo invulgarmente prolongado num estado de alerta, hiperconectados ao mundo exterior, ou, pelo contrário, muito pouco tempo num estado semelhante ao sonho, esbatendo a linha entre a sua vida acordada e a vida durante o sono.”

“Para lá de dar aos relatos dos doentes o peso que merecem, esta abordagem abre caminho à identificação de marcadores objectivos de insónia”, concluiu.

O estudo completo foi publicado na revista Cell Reports.

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