Há cerca de 66 milhões de anos, um grupo de dinossauros herbívoros acabou por morrer devido a uma seca - de forma trágica, apenas algumas horas ou dias antes de começarem a cair chuvas intensas.
Sabemos isto porque estes animais deixaram para trás algumas das “múmias” de dinossauro mais extraordinariamente bem preservadas alguma vez encontradas, na forma de moldes de argila de elementos como pele, espigões e os primeiros exemplos conhecidos de cascos num réptil.
Edmontosaurus annectens: os “múmias” de dinossauro da “zona das múmias”
Estas múmias pertenciam a uma espécie chamada Edmontosaurus annectens: herbívoros de bico achatado que percorriam o que hoje é a América do Norte como búfalos antigos. Estão entre os dinossauros de que mais sabemos, porque são relativamente comuns e, muitas vezes, preservam-se bem.
Uma equipa de paleontólogos da Universidade de Chicago liderou agora um estudo que analisou detalhadamente várias múmias de dinossauro provenientes da “zona das múmias”, uma região com cerca de 10 quilómetros de largura no estado norte-americano do Wyoming, onde parecem existir condições de preservação invulgarmente favoráveis.
Dois exemplares recentes e pormenores nunca vistos
Dois espécimes descobertos recentemente revelam características até aqui desconhecidas. O primeiro é um juvenil, que se estima ter morrido com cerca de dois anos. Trata-se do primeiro dinossauro de grande porte a conservar o seu perfil carnudo completo, incluindo uma crista que se prolonga ao longo do pescoço e da coluna.
O segundo exemplar - um adulto jovem, que se pensa ter entre cinco e oito anos - mantém ainda uma fila inteira de pequenos espigões ao longo das costas, desde as ancas até à ponta da cauda. Alguns destes espigões já tinham sido encontrados noutros fósseis, mas nunca preservados na totalidade.
Cascos nas patas traseiras: uma descoberta inédita
No entanto, a descoberta mais intrigante é que os dedos das patas traseiras de Edmontosaurus terminam em cascos. Isto representa não só a primeira identificação de cascos num dinossauro, mas também em qualquer tipo de réptil. Além disso, com uma idade estimada entre 66 e 69 milhões de anos, é o exemplo mais antigo conhecido de um casco em qualquer animal.
"É provável que os cascos tenham evoluído ainda mais cedo no Jurássico entre ornitísquios blindados (estegossauros, anquilossauros), cujas mãos e pés são robustos nas proporções e… estão associados a pegadas com impressões arredondadas dos dedos", escrevem os investigadores no artigo.
Como se formaram estas múmias?
Mas de que forma estas múmias se formaram? Para o perceber, a equipa estudou as amostras com digitalizações ópticas, raios X, tomografias computorizadas (TC) e microscópios electrónicos. Infelizmente, não encontraram qualquer sinal de material orgânico remanescente, nem impressões de estruturas internas.
Em vez disso, tudo indica que as estruturas externas ficaram preservadas como uma película fina de argila, com menos de 1 milímetro de espessura, criada quando o material se agregou a um biofilme microbiano que cobria a superfície das carcaças durante a decomposição.
O que estes fósseis contam sobre a morte e o soterramento
Estas descobertas reconstroem a história da morte dos animais com um nível de detalhe surpreendente. A pele enrugada, ajustada de perto aos ossos, sugere que os corpos permaneceram expostos ao Sol intenso durante algumas horas ou dias após a morte. Pelo menos para algumas destas múmias, a seca foi identificada directamente como a causa da morte.
Isso torna o que aconteceu a seguir cruelmente irónico. Cada múmia parece ter ficado rapidamente envolvida por uma grande massa de sedimentos, com camadas onde surgem misturados lama e troncos de árvores partidos.
"Estes pormenores sustentam o soterramento das carcaças por águas de cheia no local da morte ou nas proximidades num espaço de horas ou, no máximo, de dias", escrevem os investigadores. "Concluímos que o intervalo de tempo entre a morte e o soterramento súbito das quatro múmias de E. annectens na 'zona das múmias' foi da ordem de uma semana ou de algumas semanas dentro de uma única estação."
Para além dos ossos: tecidos moles e pistas raras
A maior parte do que sabemos sobre dinossauros vem de ossos fossilizados, mas, por vezes, subsistem indícios de tecidos mais moles. Já foram encontrados pele, penas, escamas e até órgãos, ajudando a preencher lacunas que os ossos, por si só, não conseguem explicar.
Estes dinossauros mumificados oferecem algumas das imagens mais nítidas de animais antigos - a forma mais próxima de voltar atrás no tempo sem, de facto, lá viajar.
A investigação foi publicada na revista Science.
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