A perda de memória na velhice é muitas vezes vista como inevitável.
Dados recentes indicam o contrário: o estilo de vida, a escolaridade e o ambiente também pesam - e influenciam o risco ao longo de décadas.
Uma comissão internacional de especialistas deixa um aviso claro: se levarmos a sério certos riscos do dia a dia, seria possível evitar ou adiar, de forma significativa, milhões de casos de demência em todo o mundo. O ponto-chave é começar cedo - e manter o esforço de forma consistente, da infância até às idades mais avançadas.
A demência cresce a grande velocidade - mas o risco pode ser reduzido
Hoje, vivem no mundo mais de 55 milhões de pessoas com algum tipo de demência, e surgem cerca de 10 milhões de novos casos por ano. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, até 2050, o número possa atingir 139 milhões de pessoas afetadas. Por detrás destas estatísticas há famílias, cuidadores, custos muito elevados - e sofrimento.
Investigadoras e investigadores do University College London analisaram o tema no âmbito de uma grande comissão para uma revista científica de referência e clarificaram o impacto real da prevenção. A conclusão central é inequívoca: aproximadamente 40% a quase 50% dos casos de demência estão associados a fatores que, em princípio, podemos modificar.
“Quem mexe em várias alavancas ao mesmo tempo - saúde auditiva, educação, tensão arterial, atividade física, contactos sociais - consegue reduzir de forma percetível o risco de demência.”
A mensagem dos cientistas não promete milagres: não existe uma solução única nem proteção perfeita. Ainda assim, pequenas medidas - muitas delas simples - acumulam-se ao longo dos anos e acabam por formar um “escudo” relevante para o cérebro.
Da pré-escola à reforma: a demência e a demência prevenção como tarefa para a vida
A comissão enquadra a prevenção da demência ao longo de toda a vida e divide, de forma geral, três etapas:
- Infância e adolescência: boa escolaridade, estímulo da linguagem e do pensamento, prevenção de lesões na cabeça
- Idade adulta: controlar tensão arterial, peso, glicemia e saúde mental; evitar nicotina e consumo elevado de álcool
- Idades mais avançadas: tratar problemas de audição; manter-se ativo - fisicamente, mentalmente e socialmente -; prevenir isolamento e solidão
Ao atuar em várias destas fases, a pessoa constrói reservas cognitivas. Com isso, o cérebro consegue compensar durante mais tempo danos provocados, por exemplo, por aterosclerose dos vasos ou por pequenos AVC silenciosos.
Os doze fatores de risco conhecidos - e o que significam na prática
Desde 2020, há doze influências bem sustentadas pela evidência que aumentam o risco de demência. Muitas correspondem a problemas de saúde muito frequentes na população.
1. Baixa escolaridade e menor nível de educação geral
Quem passa menos anos na escola e, mais tarde, tem pouca exigência intelectual tende a desenvolver demência com maior frequência. Exercitar o pensamento em idades jovens cria “margem” para o futuro. E não é só cedo que conta: mudar de profissão, fazer formações ou aprender uma nova língua também pode trazer benefícios.
2. Perda auditiva sem tratamento
Problemas de audição prolongados sobrecarregam o cérebro. Muitas pessoas acabam por se afastar socialmente, porque acompanhar conversas se torna extenuante. Aparelhos auditivos modernos ou implantes cocleares podem reduzir o risco ao manter o cérebro mais estimulado.
3. Tensão arterial elevada
Valores persistentemente altos danificam os pequenos vasos cerebrais e favorecem enfartes “silenciosos”. Medições regulares, alimentação que apoie o controlo da tensão e, quando necessário, medicação, protegem não só o coração como também a memória.
4. Tabagismo
O tabaco estreita os vasos, aumenta processos inflamatórios e reduz a oxigenação do cérebro. Quem deixa de fumar diminui o risco ao longo dos anos - e, mesmo na meia-idade, parar continua a compensar.
5. Excesso de peso marcado
Quilos a mais, sobretudo na zona abdominal, estão muitas vezes associados a hipertensão, fígado gordo e diabetes. Este conjunto aumenta a inflamação no organismo e, com o tempo, prejudica também as células nervosas.
6. Depressão
Tristeza persistente, falta de energia e ruminação associam-se a maior risco de demência. Continua em debate se a depressão é causa, sinal precoce ou ambas. O que é claro: uma boa abordagem terapêutica - de psicoterapia a medicamentos - alivia a carga sobre o cérebro.
7. Sedentarismo
Passar a maior parte do tempo sentado retira ao cérebro um dos fatores protetores mais fortes: a boa circulação regular. Caminhar a passo rápido, andar de bicicleta ou nadar várias vezes por semana já é suficiente para produzir efeitos mensuráveis na perfusão e no crescimento de conexões nervosas.
8. Diabetes
Uma glicemia mal controlada lesa vasos e neurónios. Tratar bem com alimentação, exercício e fármacos reduz o risco de enfarte, AVC - e também de demência.
9. Consumo excessivo de álcool
Beber muito durante longos períodos tem efeito tóxico direto no cérebro, fragiliza o fígado e piora o sono e o humor. Quem consome vários copos todos os dias aumenta de forma clara o risco de demência.
10. Traumatismos crânio-encefálicos
Quedas graves, acidentes de viação ou impactos repetidos na cabeça - por exemplo, em desportos de contacto - deixam consequências no cérebro. Capacetes de proteção, condução responsável e regras claras no desporto ajudam a reduzir este perigo.
11. Poluição do ar
Partículas finas podem entrar pela respiração, passar para a circulação e chegar ao cérebro, desencadeando inflamação. Aqui, as soluções dependem sobretudo de políticas públicas e planeamento urbano: menos tráfego, mais espaços verdes e indústria mais limpa.
12. Isolamento social
Quando uma pessoa convive pouco, o cérebro é menos desafiado. Conversas, divergências, humor e atividades em conjunto são treino exigente. Solidão prolongada aumenta o risco de vir a receber um diagnóstico de demência.
Dois fatores adicionais entram agora no radar
A análise mais recente junta a estes doze pontos mais dois riscos, que se tornaram mais evidentes nos últimos anos. Os detalhes continuam a ser muito debatidos na comunidade científica, mas a direção é consistente: o modo de vida moderno pressiona o cérebro de mais formas do que durante muito tempo se supôs.
Entre estes aspetos contam-se determinadas alterações metabólicas e componentes do sono, em que perturbações crónicas também surgem associadas a um risco mais elevado de demência. Muitos especialistas veem grande potencial em abordagens combinadas - por exemplo, tratar em conjunto apneia do sono, excesso de peso e hipertensão.
“Quanto mais fatores de risco se acumulam na mesma vida, maior é a probabilidade. E, ao contrário, cada comportamento que se altera conta.”
Afinal, a prevenção tem mesmo impacto?
A comissão estima que, à escala global, até 40% dos casos de demência poderiam ser evitados ou adiados de forma substancial se todos os riscos conhecidos fossem enfrentados com consistência. Na prática, isso não se concretiza totalmente - ninguém vive num padrão perfeito, e os genes continuam a ter influência.
Mesmo assim, mudanças pequenas já fazem diferença. Um exemplo realista: uma pessoa que, por volta dos 50 e poucos anos, deixa de fumar, mantém a tensão arterial bem controlada, passa a caminhar mais e retoma encontros regulares com amigos, reduz de forma notória o seu risco individual. E quanto mais cedo se começa - e quanto mais se insiste - maior tende a ser o efeito.
O que qualquer pessoa pode começar a fazer já
Muitas medidas parecem simples, mas tornam-se surpreendentemente eficazes quando viram rotina durante anos. Alguns exemplos:
- pelo menos 150 minutos por semana de atividade moderada, como caminhar a bom ritmo
- controlar regularmente tensão arterial, glicemia e colesterol
- perante dificuldades auditivas, consultar cedo um otorrinolaringologista e ajustar os apoios necessários
- deixar de fumar - com apoio médico, aplicações ou programas, o processo torna-se mais viável
- avaliar criticamente o consumo de álcool e criar períodos sem beber
- manter contactos sociais: associações, voluntariado, cursos, projetos de vizinhança
- procurar desafios mentais: instrumento musical, línguas, jogos, formação contínua
Ao combinar vários destes pontos, protege-se em simultâneo o coração, os vasos, o metabolismo e o cérebro. Os médicos de família podem ter um papel decisivo como orientadores, identificando cedo riscos como hipertensão aos 40 e poucos anos ou depressão em fases de crise.
O que significa “reserva cognitiva” - e porque é tão importante
Um conceito surge repetidamente em muitos estudos: “reserva cognitiva”. A ideia baseia-se na observação de que algumas pessoas, apesar de alterações cerebrais marcadas, passam muito tempo sem apresentar sintomas de demência. O seu sistema nervoso parece ser mais flexível, mais bem interligado e com maior capacidade de compensação.
Esta reserva não aparece de um dia para o outro. Constrói-se com curiosidade na infância, boa escolaridade, profissões exigentes do ponto de vista mental, hobbies, música e vida social. Mesmo em idade avançada, é possível fortalecer redes cerebrais - apenas a um ritmo mais lento. Por isso, alguém que aos 70 anos começa um novo desporto ou entra num projeto coral continua a treinar o cérebro.
Porque a prevenção também depende de decisões políticas
Nem toda a gente consegue influenciar os riscos da mesma forma. Pobreza, habitação sobrelotada, trabalho desgastante ou ar poluído nos centros urbanos impõem limites. Por isso, muitos peritos defendem que a prevenção da demência deve ser encarada como uma responsabilidade coletiva.
Isto inclui escolas bem equipadas, rastreios de saúde gratuitos ou acessíveis, proibição de fumar em espaços interiores, ciclovias seguras, redução do ruído, programas contra a solidão na velhice e reforço de consultas de audição e de memória. Quanto mais cedo governos e autarquias investirem, menores tendem a ser, mais tarde, os custos de cuidados e de tratamento.
Para cada pessoa, mantém-se uma boa notícia: a demência não é apenas destino. Fumar durante décadas, viver com sedentarismo, ignorar a medicação para baixar a tensão - ou, pelo contrário, mudar hábitos aos poucos e com intenção - faz uma diferença enorme nos dados. Cada escolha diária acaba por ser também uma escolha a favor - ou contra - o futuro da saúde mental.
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