O conflito no Médio Oriente voltou a agitar os mercados, puxou o petróleo para cima e recolocou a geopolítica no centro das decisões financeiras. Ainda assim, no meio da instabilidade, começa a desenhar-se uma tendência: desta crise, o euro parece estar a sair em melhor posição do que o dólar.
Geopolítica e petróleo: o choque inicial
O fecho do Estreito de Ormuz fez o crude disparar, chegando a negociar cerca de 60% acima dos níveis pré-guerra, e trouxe à superfície vulnerabilidades que muitos preferiam não enfrentar. Agora que aparecem os primeiros sinais de desescalada - embora o bloqueio dos Estados Unidos continue firmemente em vigor - a pergunta já não é se os mercados recuperam, mas sim que moedas ficam a ganhar quando o ruído diminuir.
Euro vs dólar: o diferencial de política monetária
Os sinais apontam para que o euro seja uma dessas moedas “vencedoras”. Durante o cessar-fogo de dez dias, a moeda europeia chegou a tocar nos 1,185 face ao dólar. Mais tarde recuou para a zona dos 1,17-1,18, mas o movimento de fundo continua a ser favorável - e há motivos consistentes para acreditar que assim permanecerá ao longo do ano.
O argumento central não é político, é monetário. O BCE poderá ainda subir as taxas uma vez este ano, antes de passar para uma postura mais prudente. Do outro lado do Atlântico, é provável que a Fed (a Reserva Federal) retome o ciclo de cortes nas taxas de juro, já que o efeito da inflação na economia dos EUA deverá ser mais contido, tendo em conta o estatuto norte-americano de exportador líquido de petróleo.
Riscos: “Trump Chaos Premium” e novos focos de tensão
Há, porém, um risco que não deve ser desvalorizado. A imprevisibilidade da política externa dos Estados Unidos tornou-se um fator estrutural - aquilo a que chamamos “Trump Chaos Premium” - e episódios de volatilidade serão difíceis de evitar. Um revés nas conversações com Teerão ou um novo agravamento no Líbano poderiam, por algum tempo, travar a apreciação do euro.
Ainda assim, se os EUA conseguirem uma saída bem-sucedida e for assinado um acordo de paz duradouro, os mercados podem, mesmo nesse cenário, penalizar a aposta falhada de Trump no Irão, aplicando um prémio de risco ao dólar - tal como aconteceu no ano passado, na sequência da turbulência provocada pelas tarifas.
Mercados emergentes e moedas a vigiar
Nos mercados emergentes, o sentimento construtivo é palpável. À medida que o apetite pelo risco regressa, espera-se uma valorização generalizada face ao dólar. Entre os que mais beneficiam estão os exportadores de petróleo, como o Brasil e a Colômbia, que já lideram os ganhos.
Na Ásia, a recuperação deverá ser mais lenta, dado que a dependência do Estreito de Ormuz é estrutural. Já na Europa Central, o florim húngaro merece atenção: o fim de 16 anos de Orbán abre uma oportunidade de reaproximação à União Europeia que o mercado ainda não terá incorporado por completo.
O dólar pode aguentar-se no curto prazo, mas o enquadramento para o euro continua favorável, sobretudo por razões de política monetária. E acredito que esta tendência se irá consolidar ao longo do ano.
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