Uma nova análise global concluiu que quase um terço das pessoas que desenvolvem um de 17 cancros importantes pode morrer antes de receber um diagnóstico oficial de cancro.
O risco não está apenas no aumento do cancro em todo o mundo; milhões de casos poderão nem sequer entrar nos registos clínicos.
Números por detrás do silêncio
Com dados de 200 países e territórios, a nova análise acompanhou o cancro desde a sua ocorrência estimada até ao momento em que um sistema de saúde consegue identificá-lo formalmente.
Ao medir esse intervalo, Zachary J. Ward, da Escola de Saúde Pública Harvard T.H. Chan (HSPH), mostrou que o próprio acesso ao diagnóstico se tornou uma das mais duras linhas de separação a nível global.
Essa clivagem foi maior onde havia falta de especialistas, equipamentos de imagiologia, laboratórios e vias de referenciação, o que deixou muitos casos de cancro por diagnosticar - e, por isso, invisíveis - até ao óbito.
Quando um caso de cancro nunca é nomeado, não pode ser estadiado, tratado, contabilizado nem integrado no planeamento. Isto levanta uma questão central: como é que tantos casos conseguem “desaparecer”?
O que o modelo contabilizou
A equipa desenvolveu o modelo de microssimulação da Força de Trabalho Global do Cancro - um modelo informático que testa múltiplos percursos possíveis de doentes ao longo dos cuidados. O objectivo foi estimar o total de casos de cancro e os casos efectivamente diagnosticados entre 1990 e 2050.
O trabalho abrangeu 17 tipos de cancro e projectou que os cancros do pulmão, da mama e da próstata continuariam a ser os mais frequentemente diagnosticados à escala mundial.
Em vez de assumir que o diagnóstico acontece automaticamente, o modelo incorporou dez tipos de profissionais envolvidos na detecção do cancro. Entre eles estavam clínicos, técnicos de imagiologia, profissionais de laboratório e especialistas de anatomia patológica.
Esta opção é relevante porque as estatísticas oncológicas tendem a começar quando a pessoa já entrou no sistema; aqui, a tentativa foi incluir também quem permanece fora dele.
Porque é que os casos desaparecem
A falha no diagnóstico pode ocorrer muito antes de qualquer tratamento começar. Se o acesso aos cuidados de saúde primários for difícil, sintomas iniciais podem nunca resultar numa referenciação. Além disso, enquanto o doente espera, o tumor pode continuar a progredir e a disseminar-se.
A ausência de exames de imagiologia ou de análises de tecido pode bloquear o diagnóstico, já que, muitas vezes, os médicos precisam de imagens internas e de observar células ao microscópio para confirmar a presença de cancro.
A isto somam-se custos, deslocações, medo e serviços sobrelotados; assim, os casos em falta no modelo reflectem simultaneamente carências médicas e barreiras sociais.
Riscos do diagnóstico tardio
Para as pessoas doentes, o estádio em que o cancro é detectado costuma definir quais as opções terapêuticas ainda viáveis.
O Estádio III ou IV significa, em regra, que o cancro já atingiu tecidos próximos, gânglios linfáticos ou órgãos distantes. Nestas circunstâncias, torna-se mais difícil aplicar tratamentos com bons resultados.
Até 2050, espera-se que quase metade dos cancros diagnosticados só chegue aos médicos depois de a doença já se ter espalhado amplamente pelo organismo.
Crescimento sem visibilidade
Este cenário já se delineava em 2022, quando os casos globais de cancro se aproximaram de 20 milhões e as mortes atingiram 9.7 milhões.
As projecções de Ward indicam que a pressão irá aumentar substancialmente: entre os 17 cancros analisados, os casos diagnosticados deverão subir de 13.58 milhões em 2025 para 19.32 milhões em 2050.
O envelhecimento populacional explica grande parte desse aumento, a par do crescimento da população total. Contudo, os casos diagnosticados representam apenas a parcela registada; planear com base apenas nesses números pode deixar hospitais, programas de rastreio e orçamentos aquém das necessidades reais.
Desigualdades globais aumentam
As diferenças regionais tornaram impossível ignorar o peso oculto. Na Europa Ocidental, foi projectado que 0.9 percent das pessoas com novos cancros morrem sem diagnóstico.
Em contraste, a estimativa projectada para a África Ocidental foi de 67.4 percent. Esta distância aponta para desigualdades no acesso, e não para diferenças biológicas.
As médias globais podem mascarar essa realidade, porque o mesmo tipo de cancro pode entrar rapidamente no circuito de diagnóstico num local e, noutro, nunca chegar a ser registado.
Pessoas por detrás dos números
Os números podem parecer frios, mas este resultado corresponde a pessoas que nunca chegam a constar de um registo oncológico.
Os registos oncológicos ajudam os governos a identificar padrões, mas não conseguem captar todos os que morrem antes de haver diagnóstico. Em países de baixo e médio rendimento, essa subcontagem pode ser particularmente elevada.
“Estas conclusões sublinham o peso substancial e crescente dos cancros, sobretudo em países de baixo e médio rendimento, onde muitas pessoas que desenvolvem cancro morrem sem diagnóstico”, escreveram Ward e os seus colegas.
Detectar mais cancros começa por encurtar o caminho entre o sintoma e uma resposta. Os sistemas de saúde precisam de profissionais suficientes e qualificados para avaliar doentes, pedir exames, recolher amostras de tecido, interpretar resultados laboratoriais e encaminhar rapidamente para tratamento.
O modelo não demonstra que exista uma solução única para todos os contextos. Ainda assim, oferece aos decisores uma forma de testar quais as falhas de recursos humanos que mantêm os cancros ocultos.
Uma estimativa cautelosa
Um intervalo de incerteza de 95 percent - a amplitude provável em torno de uma estimativa - lembra que os valores exactos podem mudar à medida que os dados melhoram. Mesmo a estimativa mais baixa do estudo deixou ainda um número enorme de cancros por identificar antes da morte.
As estimativas por país dependem igualmente da qualidade dos registos de cancro, dos registos de óbito, das projecções demográficas e dos dados sobre a força de trabalho.
Estas limitações tornam os resultados mais úteis como ferramenta de planeamento do que como contagem definitiva de todos os cancros não detectados.
Melhorar o diagnóstico do cancro
O estudo junta três problemas que muitas vezes são tratados separadamente: aumento dos casos de cancro, diagnósticos em fase avançada e pessoas que morrem sem que alguém consiga confirmar o que as adoeceu.
Mais profissionais dedicados ao diagnóstico, registos mais rigorosos e sistemas de referenciação mais rápidos não eliminam o cancro, mas podem transformar uma doença sem nome num caso que os médicos conseguem tratar e que os governos conseguem contabilizar.
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