Saltar para o conteúdo

Cancro colorrectal em jovens adultos: a colibactina de E. coli pode começar na infância

Criança e mulher sentados à mesa de cozinha a observar ilustração do intestino num tablet digital.

Médicas e médicos estão a soar o alarme: o cancro colorrectal está a atingir cada vez mais pessoas com menos de 40 anos, muitas delas sem os factores de risco clássicos. Um grande estudo internacional sugere agora que uma toxina produzida por certas bactérias intestinais pode, já na infância, danificar o material genético das células do intestino - preparando o terreno para o cancro na idade adulta jovem.

Cancro colorrectal em jovens adultos está a aumentar a grande velocidade

Durante muito tempo, o cancro colorrectal foi visto sobretudo como uma doença do envelhecimento, em que o doente “típico” tinha mais de 60 anos. Esse retrato já não corresponde à realidade. Em países com um estilo de vida ocidental, o número de casos em pessoas com menos de 40 anos está a disparar.

Nos EUA, a incidência de diagnósticos neste grupo etário, ao longo das duas últimas décadas, tem aproximadamente duplicado a cada dez anos. E o dado mais inquietante é que muitos dos afectados não têm obesidade marcada, nem história familiar relevante, nem doenças prévias conhecidas.

Evoluções semelhantes são referidas no Reino Unido e na Austrália. Em contrapartida, em partes da Ásia e da América Latina, a taxa de cancro colorrectal precoce mantém-se claramente mais baixa. Esta discrepância indica que a genética, por si só, não explica a vaga em jovens adultos.

Por isso, a atenção de especialistas tem-se virado com mais intensidade para factores ambientais e de estilo de vida:

  • Alimentação industrializada com muito açúcar, gordura e aditivos
  • Rotinas com pouca actividade física
  • Uso frequente de antibióticos durante a infância
  • Alterações no microbioma intestinal, isto é, no conjunto de bactérias do intestino

Há ainda outro ponto importante: os tumores em pessoas jovens comportam-se, muitas vezes, de forma distinta dos tumores em doentes mais velhos. Tendem a crescer com maior agressividade e surgem com mais frequência no segmento final do cólon (cólon distal) e no recto. Há muito que este padrão sugere a existência de um desencadeador específico.

Quase 1000 tumores decifrados: um sinal genético claro

Uma equipa internacional, coordenada pela Universidade da Califórnia em San Diego, analisou agora a informação genética de 981 tumores colorrectais provenientes de 11 países. Os genomas destes tumores foram totalmente sequenciados e avaliados.

O objectivo foi identificar “assinaturas” típicas no ADN - ou seja, padrões de mutações que permitem inferir o que causou os danos. Existem exemplos bem estabelecidos: a radiação UV deixa uma assinatura característica no cancro da pele, tal como o fumo do tabaco no cancro do pulmão.

Ao comparar tumores de pessoas mais jovens com os de doentes mais velhos, destacou-se um padrão em particular: um rasto genético compatível com uma toxina bacteriana específica.

"Die Tumoren junger Patientinnen und Patienten tragen 3,3-mal häufiger die typische Mutationssignatur eines Giftstoffs aus Darmbakterien als Tumoren Älterer."

Essa toxina chama-se colibactina e é produzida por determinadas estirpes das comuns bactérias intestinais Escherichia coli. Em geral, E. coli faz parte da flora normal do intestino; no entanto, algumas variantes possuem um segmento genético adicional, conhecido como a “ilha pks” (genoma da ilha pks). É esse bloco de genes que permite a produção de colibactina.

A colibactina actua directamente sobre o ADN. A molécula cria ligações entre as duas cadeias do material hereditário, provoca quebras difíceis de reparar e, assim, favorece alterações permanentes no genoma. É precisamente este tipo de padrão que os investigadores observam nos casos de cancro colorrectal precoce.

Infância como fase crítica: colonização precoce por bactérias

O aspecto particularmente sensível é o seguinte: estirpes de E. coli produtoras de colibactina instalam-se com frequência no intestino logo nos primeiros anos de vida. Segundo estimativas da equipa, cerca de 40 por cento das crianças nos EUA e no Reino Unido transportam estas bactérias.

Na maioria das vezes, os pais não se apercebem de nada. As crianças estão saudáveis e, frequentemente, nem sequer existem queixas digestivas. Entretanto, a toxina pode ir causando danos discretos no epitélio intestinal.

"Die Theorie: Ein Teil der Darmzellen erhält in der Kindheit immer wieder kleine DNA-Treffer – die Spuren bleiben ein Leben lang im Erbgut dieser Zellen erhalten."

A cada divisão celular, esses erros podem ser transmitidos. Ao longo de anos e décadas, acumula-se assim um conjunto de mutações. Só quando genes-chave são atingidos - por exemplo, genes que travam o crescimento celular ou controlam processos de reparação - é que o sistema pode desequilibrar-se para o lado do cancro.

Os investigadores descrevem este processo como uma “longa fase de latência”: o contacto com a toxina acontece na infância, mas o diagnóstico surge muitas vezes apenas por volta dos 35 anos ou no início da casa dos 40.

Padrões geográficos reforçam a suspeita

A distribuição das mutações típicas associadas à colibactina no mundo também é reveladora. Países com muitos casos de cancro colorrectal precoce - como EUA, Reino Unido e Austrália - apresentam, ao mesmo tempo, uma elevada proporção desta assinatura mutacional nos tumores.

Já regiões onde as taxas em jovens adultos continuam mais baixas mostram muito menos destes sinais de colibactina. Este paralelismo apoia a hipótese de que as bactérias produtoras de colibactina não são um achado casual - podem ser uma peça central na origem da “nova” vaga de cancro colorrectal.

Novas ideias de prevenção: testes de fezes e intervenções dirigidas no microbioma

A partir destes resultados, surgem pontos de partida concretos para aplicação prática. Vários grupos estão a desenvolver testes de fezes para detectar, já em crianças e jovens adultos, se o intestino está colonizado por estirpes de E. coli produtoras de colibactina.

Quem tiver um resultado positivo poderá ser considerado pessoa de risco - muito antes de existirem pólipos ou tumores. A médio prazo, estão em cima da mesa várias estratégias:

  • antibioterapia dirigida, para deslocar estirpes bacterianas nocivas
  • probióticos, para favorecer bactérias “inofensivas” e reduzir variantes perigosas
  • alimentação ajustada, que apoie um microbioma diverso e robusto
  • rastreio mais precoce do cancro colorrectal em grupos de alto risco identificados

Ainda não existe uma resposta padrão, porque qualquer intervenção no microbioma exige ponderação. Antibióticos de largo espectro podem causar mais danos do que benefícios. No futuro, poderá tornar-se viável recorrer a terapias muito precisas, direccionadas apenas para bactérias com a ilha genética pks.

O que pais e jovens adultos podem fazer já

O estudo não altera o facto de que as recomendações actuais para prevenir o cancro colorrectal continuam válidas. Aliás, ganham ainda mais relevância - sobretudo se se considerar o possível impacto do que acontece na infância.

Alguns passos práticos para o dia-a-dia incluem:

  • uso de antibióticos em crianças com a maior prudência possível, apenas quando clinicamente necessário
  • muitos legumes frescos, cereais integrais e fibra na alimentação familiar
  • poucos produtos ultraprocessados, bebidas açucaradas e enchidos
  • actividade física regular, idealmente desde cedo
  • não fumar e consumir álcool com moderação

Para jovens adultos, a mensagem é clara: levar a sério sinais de alerta, mesmo quando parece “cedo demais para cancro colorrectal”. Exemplos incluem alterações persistentes do trânsito intestinal, sangue nas fezes, perda de peso sem explicação ou dores abdominais que não passam. Perante estes sintomas, deve procurar-se o médico de família ou uma consulta de especialidade e pedir investigação.

Termos que convém conhecer

O que é o microbioma intestinal?

Refere-se ao conjunto de microrganismos no intestino: bactérias, vírus e fungos. Ajudam na digestão, produzem vitaminas, treinam o sistema imunitário e protegem contra agentes patogénicos. Se este equilíbrio se altera, pode haver consequências negativas para a saúde a longo prazo.

O que significa assinatura mutacional?

Cada causa de dano no ADN deixa um padrão característico de alterações no material genético. A estes padrões dá-se o nome de assinaturas mutacionais. Através dessa “impressão digital”, especialistas conseguem muitas vezes recuar e identificar que influência - como radiação, químicos ou uma toxina - esteve envolvida.

Rastreio precoce do cancro colorrectal - para quem faz sentido?

Em muitos países europeus, o rastreio regular com teste de fezes ou colonoscopia começa actualmente, regra geral, aos 50 anos, e mais cedo em pessoas com antecedentes familiares. Se o papel das bactérias produtoras de colibactina se confirmar, este limite etário poderá vir a descer no futuro, pelo menos para grupos de risco bem definidos.

Os dados disponíveis mostram de forma evidente até que ponto microrganismos no intestino podem influenciar a saúde a longo prazo. O que acontece no microbioma nos primeiros anos de vida parece ter um papel importante no cancro colorrectal em jovens adultos - e, ao mesmo tempo, abre uma possibilidade: identificar riscos cedo pode permitir intervenções mais direccionadas.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário