Muitos de nós gostamos de acreditar que somos empáticos e compreensivos. Ainda assim, basta um comentário breve e dito sem pensar para acontecer o oposto: retiramos ao outro o direito de sentir o que sente. Uma neuropsicóloga explica como identificar estes “desligadores” emocionais - e como os evitar no dia a dia.
O que está realmente por trás da desvalorização emocional
Para muita gente, mostrar emoções já é difícil. E torna-se ainda mais complicado quando a pessoa do outro lado não leva essas emoções a sério. Especialistas falam em desvalorização emocional quando a resposta reduz, desvia ou ignora por completo aquilo que o outro está a sentir.
"Quem se abre não precisa de uma solução perfeita - precisa, antes de mais, de sentir que as suas emoções fazem sentido."
No essencial, uma comunicação saudável passa por três etapas: a emoção é reconhecida, aceite e pode expressar-se. Isto aplica-se tanto às nossas emoções como às dos outros. Quando este processo é interrompido, a pessoa sente-se rapidamente incompreendida, pouco importante ou até envergonhada.
Frases típicas de pessoas que não respeitam os teus sentimentos
A maior parte das frases que desvalorizam emocionalmente nem soa mal à primeira vista. É isso que as torna tão traiçoeiras: podem parecer consolo, bom senso ou “conselhos úteis”, mas por dentro deixam marca.
Cinco clássicos da desvalorização emocional
"Não exageres."
Mensagem implícita: o teu sentimento é “demais”, és demasiado sensível. Isto tira legitimidade à emoção - e a ti o direito de a ter."Não podemos simplesmente virar a página?"
Aqui, o foco não é resolver; é ter sossego. O problema deve desaparecer antes sequer de ser compreendido."Estás a pensar demasiado, pára com isso."
Esta frase desvaloriza processos internos que muitas vezes são uma tentativa de organizar algo doloroso. A ideia transmitida é: o teu processo interior está errado."Devias era estar grato pelo que tens."
Gratidão e tristeza não se excluem. Quando alguém reage assim, tapa emoções desconfortáveis com um dedo moralista."Tu nunca me ouves."
No momento em que alguém se está a abrir, esta frase vira a perspetiva: de repente já não se fala do sofrimento do outro, mas das próprias feridas.
Expressões deste tipo magoam em vários níveis. Põem em causa a vivência interna, desviam a atenção do sentimento principal e muitas vezes geram vergonha ou culpa: "Se calhar estou mesmo a exagerar", "Não devia fazer uma tempestade num copo de água".
Porque é que algumas pessoas desvalorizam os sentimentos dos outros
Frases emocionalmente agressivas nem sempre surgem por cálculo. Muitas vezes, o que existe é uma dificuldade real em lidar com as próprias emoções. Quem mal tolera o que sente também tem pouca capacidade para aguentar o que o outro sente.
"Pessoas que empurram as próprias emoções para baixo tendem, muitas vezes, a minimizar também as emoções dos outros - inconscientemente, como forma de autoproteção."
Angústia por trás de uma fachada rígida
Psicoterapeutas relatam que, por trás da desvalorização emocional, há frequentemente uma ferida antiga por resolver. Algumas pessoas carregam uma vergonha profunda ou uma sensação constante de “não ser suficiente”. Em vez de mostrarem essa vulnerabilidade, constroem uma imagem de controlo e força.
Para manter essa fachada, precisam de distância em relação às emoções alheias. Proximidade, lágrimas, raiva ou desespero ativam a insegurança delas. Então tentam baixar a intensidade da situação - com frases que supostamente acalmam, mas que, na prática, criam afastamento.
Proteção contra a responsabilidade
Há ainda outro motivo: evitar responsabilidade. Se um parceiro, um amigo ou uma colega fica magoado pelo nosso comportamento, isso é desconfortável. Ao dizer "Estás a exagerar", torna-se mais fácil não olhar para a própria parte no problema. A culpa deixa de estar no comportamento e passa para a reação.
Assim nascem ciclos em que uma pessoa se torna cada vez mais emocional para, finalmente, ser ouvida, enquanto a outra bloqueia cada vez mais. Ambas se sentem incompreendidas - e ninguém se sente verdadeiramente seguro.
Como a desvalorização emocional aparece no quotidiano
Muitas pessoas afetadas só notam, ao início, um mal-estar difuso depois de certas conversas. Sinais frequentes em relações e amizades:
- Vais perdendo a vontade (ou a coragem) de falar sobre problemas.
- Pedes desculpa constantemente por sentires o que sentes ("Desculpa ser tão sensível").
- No fim das conversas, ficas a sentir-te mais pequeno, baralhado ou culpado.
- A tua perceção é posta em causa ("Não foi nada de especial").
- Conflitos são cortados cedo, em vez de serem realmente esclarecidos.
Com o tempo, a autoestima pode sofrer de forma evidente. A pessoa começa a desconfiar do próprio “compasso interno” e adapta-se cada vez mais para não ser “demasiado pesada” ou “exigente”.
Como reconhecer respostas respeitadoras
O oposto da desvalorização emocional é a validação emocional. Isto não significa concordar com tudo ou aprovar todas as reações. Significa, simplesmente, reconhecer que a emoção existe e é real.
| Reação desvalorizadora | Alternativa respeitadora |
|---|---|
| "Não faças drama." | "Estou a ver que isto te está a afetar muito." |
| "Esquece isso." | "Ainda estás muito a pensar nisso, não é?" |
| "És demasiado sensível." | "Para ti, isto está a ser intenso neste momento." |
| "Há quem esteja muito pior." | "Mesmo assim, o que sentes é legítimo." |
Pequenas mudanças na linguagem fazem uma diferença enorme. A mensagem passa a ser: "Eu reparo no que se passa dentro de ti e consigo estar contigo nisso." É precisamente essa sensação que cria proximidade, mesmo quando não há acordo sobre o conteúdo.
Como tu próprio podes reagir de outra forma
Se te reconheces em algumas destas frases típicas, não é motivo para desesperar. Levar as emoções dos outros a sério é uma competência que se treina. Alguns passos concretos:
Trava por um instante por dentro
Antes de responderes, respira de forma consciente. Muitas frases desvalorizadoras saem em piloto automático, por hábito.Dá nome ao sentimento
Tenta pôr em palavras o que percebes: "Pareces muito magoado", "Soas desiludido".Não saltes logo para a solução
Primeiro mostra compreensão; só depois faz sentido falar de soluções. Caso contrário, o outro pode sentir que foi “despachado”.Admite a tua própria sobrecarga
Em vez de arrefeceres: "Isto também me assusta agora, preciso de um momento para organizar o que estou a sentir".
Porque é que as palavras têm tanto poder nas relações
Frases sem respeito emocional não são um detalhe irrelevante: influenciam diretamente a qualidade das relações, seja em casal, na família ou em equipas. A longo prazo, levam ao retraimento, ao aumento da desconfiança e a um ambiente em que a proximidade real quase deixa de ser possível.
Por outro lado, bastam poucas frases para mudar a dinâmica: "Eu percebo que te sintas assim", "Obrigado por confiares isto a mim", "Ainda não sei o que dizer, mas estou aqui". Este tipo de resposta não exige formação em psicologia - apenas a vontade de dar espaço às emoções do outro.
Quem começa a vigiar as próprias formulações percebe rapidamente: o respeito não vive só em grandes gestos, mas sobretudo nas pequenas frases que dizemos quase sem dar por isso - ou que escolhemos não dizer.
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