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Novo mapa do tecido mamário mostra como o envelhecimento e a menopausa favorecem o cancro da mama

Cientista a analisar imagens digitais de células cancerígenas no ecrã de um computador num laboratório.

O tecido mamário de uma mulher sofre alterações marcantes ao longo do envelhecimento, criando um contexto em que as células cancerígenas têm maior probabilidade de se instalar e prosperar, conclui um novo estudo.

Uma equipa de investigadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, construiu o mapa mais detalhado até hoje das mudanças no tecido mamário.

Com mais de 3 milhões de células, este mapa regista como o tecido mamário evolui com a idade e evidencia uma mudança particularmente acentuada em torno da menopausa.

"O nosso mapa revelou que, à medida que as mulheres envelhecem, o tecido mamário passa por grandes alterações, com as mudanças mais dramáticas a ocorrerem na menopausa", afirma Pulkit Gupta, cientista do cancro e co-primeiro autor do estudo, atualmente na Universidade Vanderbilt.

"Há alterações, também, durante os seus vinte anos, possivelmente ligadas à gravidez e ao parto, mas estas são muito menos pronunciadas."

Um mapa celular do envelhecimento do tecido mamário

À medida que as mulheres envelhecem, os investigadores observaram uma redução do número de células no tecido mamário, acompanhada por uma transformação da sua organização. Este cenário pode facilitar a sobrevivência e o crescimento de células cancerígenas - o que ajuda a explicar por que motivo o risco de cancro da mama aumenta com a idade.

De acordo com a American Cancer Society, mais de 320,000 mulheres nos EUA deverão receber um diagnóstico de cancro da mama este ano, sendo este o cancro mais frequente nas mulheres.

Embora as taxas de cancro da mama estejam a aumentar entre mulheres mais jovens, por razões que ainda não são totalmente claras, a maioria dos casos continua a ser detetada em mulheres com 50 anos ou mais.

A idade é um dos principais fatores de risco para quase todos os cancros, incluindo o cancro da mama. Em parte, isso acontece porque, com o tempo, as pessoas acumulam mutações genéticas nas células, o que pode originar células anormais capazes de se multiplicar de forma descontrolada e dar origem a tumores.

Ainda assim, continua a saber-se pouco sobre como o próprio tecido mamário envelhece e de que forma essas alterações contribuem para o risco de cancro.

"Embora o cancro da mama afete bem mais de dois milhões de mulheres em todo o mundo, compreendemos muito pouco sobre por que motivo e quando surge", diz Gupta.

Para explorar esta questão, os investigadores analisaram amostras de tecido mamário normal de 527 mulheres, com idades entre 15 e 86 anos, submetidas a cirurgia de redução mamária.

Recorrendo a técnicas avançadas de imagiologia, a equipa mapeou células individuais e criou uma imagem bidimensional detalhada de como o tecido mamário se altera ao longo do tempo.

O que muda com a idade - e o que muda na menopausa

O mapa mostrou que, com o envelhecimento, as células do tecido mamário se dividem menos vezes. Verificou-se também uma diminuição de células do sistema imunitário e de células estromais (responsáveis por formar uma espécie de "estrutura de suporte" do tecido). O número de células epiteliais - que revestem os ductos mamários e as estruturas produtoras de leite, chamadas lóbulos - também desce.

"Não é surpreendente que vejamos menos células epiteliais, uma vez que estas têm um papel na produção de leite materno, algo que se torna menos relevante com a idade", afirma o patologista do cancro Raza Ali, coautor sénior da Universidade de Cambridge.

"Mas a dimensão das alterações em toda a mama surpreendeu-nos."

A própria arquitetura do tecido mamário também se alterou: os lóbulos produtores de leite encolheram ou desapareceram, as células adiposas aumentaram e os vasos sanguíneos diminuíram.

Além disso, as células imunitárias e as células estromais passaram a estar mais afastadas das células epiteliais, o que pode tornar mais fácil a evasão e a disseminação de células cancerígenas.

Em mamas mais jovens, existiam mais linfócitos B e linfócitos T ativos, que podem ajudar a reconhecer e eliminar células cancerígenas quando estas começam a surgir.

Já nas mamas mais envelhecidas, esses elementos de defesa contra o cancro eram menos abundantes e, em contrapartida, havia uma maior presença de macrófagos M2 - um tipo de célula imunitária que outros estudos já associaram ao desenvolvimento de cancro.

Em conjunto, estas alterações promovem um ambiente mais inflamatório, no qual o sistema imunitário tende a ser menos eficaz a conter células cancerígenas e "mais permissivo para a carcinogénese", escrevem os investigadores no artigo.

"Não sabemos com certeza por que motivo os tipos de células imunitárias mudam", diz Ali.

"Podemos especular que uma razão poderá ser o facto de o leite materno conter uma elevada concentração de imunoglobulinas, provavelmente para ajudar a construir a imunidade do bebé, e estas são produzidas por células B."

"O que é claro a partir do nosso mapa", acrescenta Ali, "é que todas estas alterações criam um ambiente em que as células cancerígenas que surgem naturalmente encontram, com a idade, maior facilidade para se fixar e espalhar."

O pico de envelhecimento nos finais dos 40 e o que ainda falta perceber

Os investigadores identificaram um grande pico de envelhecimento que ocorre no final da década dos 40 anos, coincidindo com a menopausa.

Os autores salientam que a velocidade a que o tecido mamário envelhece deverá variar de mulher para mulher e que essa diferença provavelmente influencia o risco de cancro.

O estudo não avaliou etnia, genética ou outros fatores que afetam o risco de cancro da mama, embora trabalhos anteriores tenham mostrado que o tecido mamário normal de mulheres com fatores genéticos de risco apresenta sinais de envelhecimento acelerado.

A investigação foi publicada na Nature Aging.

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