Derrotar a obesidade raramente é simples. Para muitas pessoas, mesmo quando a perda de peso resulta, segue-se um período prolongado de esforço para impedir que os quilos regressem.
A recaída na obesidade é frequente, e a investigação sugere que é mais do que uma questão de força de vontade. Estudos anteriores já tinham mostrado que as células de gordura mantêm uma “memória” da obesidade muito depois de a pessoa emagrecer, o que pode minar as tentativas de evitar o reganho de peso.
E não são apenas as células de gordura. De acordo com um novo estudo com duração de uma década, certos tipos de células do sistema imunitário também podem conservar uma memória persistente de ter vivido com obesidade.
Esse registo pode manter elevado o risco de doença associada à obesidade, indica o estudo, até 10 anos após a pessoa perder peso.
Porque a obesidade tende a voltar
A explicação passa pela metilação do ADN, um processo biológico normal em que grupos metilo se ligam a moléculas de ADN, alterando a actividade dos genes sem mexer na sequência do ADN.
Em pessoas que recuperaram recentemente de obesidade, certas adições específicas ao ADN em células T auxiliares parecem conservar a memória celular de ter sido obeso. Esse “marcador” favorece um estado desregulado e pró-inflamatório que pode persistir durante anos, apesar da redução do peso corporal.
Como foi conduzido o estudo de 10 anos
Para chegar a estas conclusões, os investigadores analisaram células imunitárias de vários grupos de participantes humanos. Entre eles, estavam doentes com obesidade que, ou fizeram exercício quatro vezes por semana durante 10 semanas, ou receberam injecções de semaglutido para perder peso, além de grupos de controlo.
Foram também avaliadas amostras de pessoas com síndrome de Alström, uma doença genética rara frequentemente associada a obesidade na infância, e de pares saudáveis emparelhados, utilizados como controlos.
Para perceber melhor como a obesidade pode deixar efeitos prolongados sobre a função imunitária, a equipa estudou ainda células imunitárias de ratinhos alimentados com dietas ricas em gordura, bem como doações de sangue de voluntários humanos.
O que a metilação do ADN faz às células T auxiliares
"Os resultados sugerem que a perda de peso a curto prazo pode não reduzir de imediato o risco de algumas condições de doença associadas à obesidade, incluindo a diabetes tipo 2 e alguns cancros", afirma o co-primeiro autor Claudio Mauro, imunologista na Universidade de Birmingham, no Reino Unido.
"Em vez disso, a gestão contínua do peso após a perda fará com que a 'memória da obesidade' se desvaneça lentamente", diz Mauro.
"Isto pode levar vários anos de manutenção sustentada da perda de peso, provavelmente cinco a 10 anos, embora sejam necessários mais estudos, para reverter totalmente os efeitos da obesidade nas células T."
Estas descobertas ajudam a esclarecer a forma como o sistema imunitário “regista” exposições anteriores, explica a autora sénior Belinda Nedjai, epidemiologista molecular na Universidade Queen Mary de Londres.
"Os nossos resultados mostram que a obesidade está associada a modificações epigenéticas duradouras que influenciam o comportamento das células imunitárias", afirma Nedjai.
"Isto sugere que o sistema imunitário retém um registo molecular de exposições metabólicas passadas, o que pode ter implicações para o risco de doença e a recuperação a longo prazo."
Investigação anterior já tinha mostrado que, em pessoas com obesidade, as células T auxiliares “memorizam” a obesidade e promovem o reganho de peso. Ainda assim, o mecanismo por trás desse efeito permanecia pouco claro.
O novo trabalho identifica duas funções celulares-chave como vias pelas quais a metilação associada à obesidade pode afectar as células T auxiliares: a autofagia, o processo natural de remoção e reciclagem de resíduos celulares, e a senescência imunitária, isto é, o envelhecimento das células do sistema imunitário.
A metilação do ADN ligada à obesidade parece interferir com ambas as funções. Para o co-autor Andy Hogan, imunologista na Universidade de Maynooth, na Irlanda, esta é uma peça importante para compreender a frequência e os fundamentos das recaídas.
"Sabemos que a obesidade é uma doença crónica, progressiva e com recaídas, e os nossos resultados fornecem uma compreensão mais aprofundada de quais são exactamente os mecanismos moleculares que podem estar a impulsionar o risco de recaída, e destacam os desafios que as pessoas que vivem com obesidade enfrentam para gerir o peso com sucesso", afirma.
Estes resultados também podem ajudar a preparar o caminho para tratamentos dirigidos que, em conjunto com outras intervenções, revertam os efeitos da obesidade nas células T.
"O nosso estudo sugere potenciais oportunidades terapêuticas para acelerar este processo, como a reutilização de fármacos como os inibidores de SGLT2, que têm mostrado potencial para reduzir a inflamação e promover a eliminação, mediada pelo sistema imunitário, de células senescentes na obesidade", diz Mauro.
O estudo foi publicado na EMBO Reports.
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