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Saliva artificial de cana-de-açúcar protege os dentes da cárie.

Paciente sorridente a receber tratamento dentário com profissional de saúde usando luvas brancas.

Investigadores descobriram que uma saliva artificial feita a partir de uma proteína da cana-de-açúcar consegue proteger dentes danificados pela radiação contra os ácidos e atrasar o aparecimento de cáries.

A descoberta aponta para uma nova linha de defesa para pessoas que ficam com pouca ou nenhuma saliva após tratamentos oncológicos e passam a enfrentar uma das formas de deterioração dentária mais rápidas e destrutivas.

Criar barreiras quando a saliva já não protege

Em esmalte irradiado, o enxaguamento experimental formou uma camada protetora que funcionou como “escudo” entre a superfície do dente e os ácidos nocivos.

A partir dessas amostras de esmalte, Natara Dias Gomes da Silva, da Universidade de São Paulo (USP), demonstrou que uma proteína derivada da cana-de-açúcar, chamada CaneCPI-5, se liga diretamente ao dente.

Essa adesão deu ao revestimento uma persistência invulgar, permitindo-lhe proteger o esmalte precisamente onde a defesa natural da saliva se perdeu.

Riscos menos óbvios da radiação

A radiação aplicada perto da boca danifica frequentemente as glândulas salivares, provocando xerostomia: secura persistente devido à perda de saliva.

Essa perda é relevante porque, em condições normais, a saliva dilui os ácidos e devolve cálcio e fosfato ao esmalte.

Em pessoas tratadas a cancro da cabeça e pescoço, esta agressão pode transformar uma cárie “habitual” em cárie por radiação, um tipo de cavidade que surge após a radioterapia.

Para travar esse processo, é necessário algo que altere tanto a superfície do dente como as bactérias que a colonizam.

Reproduzir a película protetora da saliva

A saliva natural deixa nos dentes uma película adquirida: um filme fino de proteínas que se forma em poucos minutos após a limpeza.

Em vez de se limitar a acrescentar humidade, o novo enxaguante procurou reconstruir essa película com uma proteína concebida para se manter aderida ao dente.

Trabalhos anteriores com CaneCPI-5 já tinham associado esta estratégia a menor crescimento de placa e a menos perda mineral.

Isso torna o produto pouco comum, uma vez que muitos substitutos de saliva são pensados sobretudo para aliviar sintomas, mais do que para proteger efetivamente os dentes.

Simular condições orais após radioterapia

Para reproduzir um cenário clínico exigente, a equipa construiu um biofilme - uma comunidade bacteriana em camadas - usando saliva doada por cinco doentes após radioterapia.

Antes da fixação dos microrganismos, os investigadores trataram pequenos blocos de esmalte e repetiram o enxaguamento uma vez por dia durante cinco dias.

Algumas amostras receberam apenas a proteína da cana-de-açúcar; noutras, no mesmo veículo, foram também incluídos fluoreto e xilitol.

O desenho experimental criou um desafio realista, embora uma bancada não consiga reproduzir totalmente aquilo que acontece numa boca, como alimentação, dor e hábitos de escovagem.

CaneCPI-5 com fluoreto e xilitol reforça a proteção

Quando CaneCPI-5 foi combinado com fluoreto e xilitol, a atividade bacteriana desceu até 38.3 por cento na fórmula com melhor desempenho.

O número de bactérias sobreviventes também diminuiu, e o esmalte perdeu muito menos minerais do que nas amostras não tratadas.

Face a um substituto comercial e a um colutório antibacteriano padrão, a versão combinada igualou ou superou ambos os grupos de comparação.

A proteína, por si só, ainda trouxe benefícios, mas o efeito mais expressivo surgiu quando fluoreto e xilitol entraram na composição.

Proteger o equilíbrio e a comunidade microbiana

Ao contrário de colutórios mais agressivos, a fórmula combinada não “simplificou” o conjunto da comunidade oral.

Em vez disso, manteve a diversidade global, ao mesmo tempo que reforçou as vantagens das bactérias colonizadoras precoces da boca.

Isto é importante porque uma estratégia antibacteriana demasiado ampla pode deixar uma boca já fragilizada mais exposta a patógenos resistentes.

Os resultados sugerem que o enxaguante pode orientar o ecossistema para um estado de maior equilíbrio, em vez de eliminar indiscriminadamente as bactérias.

De proteína vegetal a ferramenta dentária: CaneCPI-5

CaneCPI-5 não nasceu no campo da Medicina Dentária: foi inicialmente identificada durante investigação em genética da cana-de-açúcar.

Mais tarde, num relatório de 2017, a proteína mostrou que consegue ligar-se com força ao esmalte e reduzir a erosão precoce.

Esse achado anterior ajuda a compreender porque é que, no novo estudo, o enxaguante permaneceu tempo suficiente na superfície do dente para fazer diferença.

Quando começou o trabalho com saliva artificial, a molécula já se apresentava mais como ferramenta aplicável do que como mera curiosidade científica.

Ajustar o tratamento para uso quotidiano

Como os doentes precisam de mais do que um modo de aplicação, a equipa não limitou a proteína a um único formato.

“Testámos o elixir oral desenvolvido com CANECPI-5 aplicando esta solução em pequenos pedaços de dentes de animais uma vez por dia durante um minuto”, afirmou Natara.

Ensaios separados também indicaram potencial em géis e em películas dissolventes - tiras finas que se desfazem na língua.

Ter vários formatos é relevante porque alguns doentes precisam de alívio por pouco tempo, enquanto outros podem viver com boca seca durante anos.

Rumo a aplicações no mundo real

Os próximos testes vão combinar CaneCPI-5 com fragmentos de estaterina, outra proteína salivar associada aos minerais dos dentes.

Na USP, os investigadores também pretendem usar vitamina E para ajudar a espalhar a proteína pela superfície dentária e tornar o uso em casa mais simples.

“Com base nestes resultados, vamos realizar mais investigação para podermos pensar em aplicações deste produto”, disse Silva.

Se esses complementos reforçarem a película, o tratamento poderá aproximar-se de um produto utilizável pelos doentes sem necessidade de ida à clínica.

Uma defesa prática para dentes vulneráveis

Ao substituir uma das funções protetoras da saliva, o enxaguante ajudou a proteger os dentes antes que ácidos e bactérias tirassem partido da boca seca.

Ainda são necessários ensaios em humanos para confirmar conforto, segurança e durabilidade, mas a proposta passa agora a parecer exequível, e não apenas teórica.

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