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Cogumelos eliminam medicamentos: como os pleurotus podem desintoxicar lamas de depuração

Cientista a examinar cultura de fungos brancos crescendo em recipiente num laboratório junto à janela.

As conclusões de um estudo recente indicam que, de forma inesperada, cogumelos comestíveis poderão ajudar a atenuar significativamente este problema.

Antidepressivos e outros fármacos psicoactivos são essenciais para milhões de pessoas. Porém, depois de consumidos, não desaparecem sem deixar rasto: seguem pelo organismo e acabam por chegar às ETAR através da urina, das fezes ou simplesmente pela descarga do autoclismo. Nestas unidades, a degradação é apenas parcial, e uma parte dos compostos termina concentrada nas chamadas lamas de depuração, usadas como fertilizante agrícola. Investigadores da Johns Hopkins University descrevem agora que certos fungos decompositores de madeira conseguem atacar estes resíduos de forma dirigida, convertendo-os em substâncias potencialmente menos perigosas.

Cocktail de medicamentos no fertilizante: um risco silencioso

As lamas de depuração - conhecidas tecnicamente como biosolids - são muitas vezes valorizadas como um recurso útil. São ricas em azoto, fósforo e matéria orgânica, podendo recuperar solos empobrecidos. Ao mesmo tempo, transportam uma dimensão menos visível: o que vem de casas, hospitais e lares entra no circuito, incluindo uma combinação variada de medicamentos.

Entre os compostos que mais preocupam especialistas estão os psicoactivos, como antidepressivos, ansiolíticos e outros fármacos destinados ao sistema nervoso. Estes princípios activos são concebidos para serem estáveis no corpo humano e actuarem de forma específica no cérebro - e essa mesma robustez faz com que, no ambiente, se decomponham com dificuldade.

"Mesmo vestígios mínimos de medicamentos psicoactivos podem ser biologicamente activos - é precisamente isso que os torna microcontaminantes problemáticos."

Trabalhos anteriores sugerem que plantas cultivadas em solos adubados com estas lamas podem absorver pequenas quantidades destes compostos. Até ao momento, não existem provas sólidas de que estas substâncias cheguem à alimentação em doses relevantes para a saúde. Ainda assim, o desconforto cresce: ninguém quer uma salada com um “toque” de antidepressivos ou soníferos.

Porque é que as ETAR chegam ao limite

A depuração convencional de águas residuais está optimizada sobretudo para eliminar agentes patogénicos, reduzir azoto e fósforo e imobilizar metais pesados. Já perante moléculas orgânicas complexas - como muitos medicamentos actuais - a eficácia de várias instalações é limitada.

  • Germes e bactérias: a redução é, em geral, fiável.
  • Metais: é possível precipitar e separar com relativa eficácia.
  • Moléculas orgânicas “de alto desempenho”: como antidepressivos, podem permanecer em parte.

É verdade que existem alternativas tecnológicas - ozono, carvão activado ou membranas avançadas - mas tendem a ser caras e exigentes em energia. Em zonas rurais, ou em países com orçamentos restritos, torna-se difícil aplicá-las de forma generalizada. É precisamente aqui que os autores do estudo propõem uma opção biológica.

Fungos de podridão branca: decompositores de madeira com enzimas especializadas

A investigação centra-se nos chamados fungos de podridão branca. Estes organismos são comuns em ambientes florestais e são conhecidos por transformarem madeira dura em material macio e quebradiço. A explicação está na capacidade de degradarem lignina - um componente estrutural extremamente resistente que dá rigidez às árvores.

Para o conseguirem, libertam enzimas altamente reactivas, capazes de actuar sobre muitos compostos orgânicos complexos, e não apenas sobre um alvo único. Essa falta de especificidade, que na natureza lhes permite “atacar” diferentes componentes da madeira, é exactamente o que os torna interessantes para a engenharia ambiental: enzimas que partem lignina também conseguem, muitas vezes, quebrar outras moléculas persistentes - incluindo resíduos farmacêuticos.

Teste com Pleurotus ostreatus e Trametes versicolor (fungos de podridão branca)

A equipa seleccionou duas espécies familiares para muitas pessoas, seja pela banca do mercado seja por caminhadas na natureza:

  • Pleurotus ostreatus - mais conhecido como cogumelo ostra
  • Trametes versicolor - na Europa Central é frequentemente designado “trameta-borboleta”

Ambos são bem estudados, fáceis de cultivar e amplamente distribuídos. Para o ensaio, foram usadas lamas reais provenientes de uma ETAR municipal, às quais se adicionaram nove substâncias psicoactivas diferentes, incluindo antidepressivos comuns como citalopram e trazodona. Depois, os fungos foram deixados a crescer directamente sobre este material por um período máximo de 60 dias.

Taxas de degradação muito elevadas - em alguns casos quase total

Os dados obtidos foram claros. As duas espécies reduziram de forma expressiva oito das nove substâncias avaliadas. Dependendo do composto e do fungo, ao fim de dois meses as taxas de degradação variaram entre cerca de 50% e uma remoção quase completa.

"O cogumelo ostra mostrou-se particularmente eficiente e removeu, em vários antidepressivos, mais de 90% da quantidade inicial."

Em paralelo, os investigadores realizaram testes numa solução nutritiva simples, sem lamas. Curiosamente, nesse cenário surgiram padrões de degradação parcialmente diferentes: certos compostos diminuíram muito mais nas lamas reais do que no líquido estéril. Isto sugere que a matriz complexa do lodo - matéria orgânica, metais e microrganismos - influencia de forma relevante o desempenho dos fungos.

“Desaparecem” mesmo? Nem sempre é só transferência

Uma questão central era perceber se os medicamentos estavam apenas a migrar para a biomassa fúngica ou se eram efectivamente transformados. A espectrometria de massa de alta resolução permitiu responder com nitidez: foram identificados mais de 40 produtos de degradação formados durante o crescimento.

Entre as reacções observadas destacaram-se a fragmentação das moléculas em partes menores e a introdução de grupos com oxigénio. Estes mecanismos são compatíveis com o que se conhece das enzimas associadas à podridão branca. Ou seja, os compostos não deixam apenas de ser detectados: são activamente modificados.

Com o apoio de uma ferramenta de avaliação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), a equipa estimou o risco dos novos compostos. Na maioria dos casos, os modelos apontaram para um potencial de toxicidade inferior ao do medicamento original. Isso é consistente com uma verdadeira redução de perigosidade, e não apenas com a “mudança de forma” do problema.

Mycoaugmentation: usar fungos como aliados no tratamento de lamas

O uso intencional de fungos para descontaminar materiais poluídos é conhecido como mycoaugmentation. Em termos práticos, trata-se de introduzir estirpes particularmente eficazes num meio contaminado, disponibilizar um substrato adequado e deixar o sistema biológico actuar.

No caso das lamas de depuração, a proposta é apelativa: os fungos desenvolvem-se bem em materiais sólidos e ricos em matéria orgânica, requerem relativamente pouca energia e dispensam soluções de alta tecnologia. Um cenário possível seria, após o tratamento convencional, inocular as lamas numa etapa adicional e mantê-las durante semanas ou meses antes da aplicação agrícola.

Requisito Tecnologia clássica Tratamento com fungos
Necessidades energéticas elevadas (p. ex., ozono, membranas) baixas a moderadas
Infra-estrutura complexa, dispendiosa reactores simples ou armazéns de armazenamento
Flexibilidade perante químicos frequentemente específica por substância espectro amplo graças a enzimas pouco específicas

O que esta abordagem pode oferecer - e o que ainda falta esclarecer

Apesar do potencial, esta estratégia ainda está longe de uma implementação generalizada. Os ensaios foram feitos em escala laboratorial, com condições controladas e volumes reduzidos. Numa ETAR real, o contexto é diferente: composição das lamas variável, mudanças sazonais, limitações de espaço e pressão de tempo.

Entre as questões por resolver incluem-se:

  • Até que ponto os fungos mantêm desempenho com lamas de composição muito distinta?
  • É possível direccionar o processo para colocar determinados princípios activos no centro do tratamento?
  • Que dimensão teriam de ter reactores ou áreas de armazenamento para tratar quantidades relevantes?
  • Que custos adicionais surgem e como se comparam com opções tecnológicas dispendiosas?

Há ainda a considerar efeitos secundários possíveis. Os fungos podem libertar esporos ou alergénios, o que exige medidas de manuseamento. Além disso, permanece a dúvida sobre o destino da biomassa com fungos no fim do processo: compostagem, incineração, ou utilização adicional como melhorador do solo? Sem uma solução coerente para esta cadeia, o método dificilmente se tornará operacional.

O que o público em geral pode retirar disto

Para consumidoras e consumidores, a mensagem prática do estudo é simples: eliminar medicamentos pela sanita ou pelo lava-loiça é uma má opção. Quanto menos substâncias activas entrarem no esgoto, mais fácil será qualquer modelo de remoção - seja tecnológico, seja com fungos.

Os medicamentos fora de prazo devem seguir para o lixo indiferenciado ou ser entregues na farmácia, consoante as regras locais. Muitas autarquias explicam nos seus sites como funciona a entrega. Também ajudam pequenos hábitos: não abrir blisters sem necessidade, não acumular embalagens iniciadas “por via das dúvidas” e pedir ao médico quantidades realistas.

Porque é que os fungos estão a ganhar importância na engenharia ambiental

Este trabalho integra-se numa linha crescente de investigação que explora fungos como agentes biológicos de depuração. Noutros projectos, já estão a ser testados contra pesticidas, químicos industriais e corantes provenientes da indústria têxtil. Quando métodos convencionais esbarram em limitações técnicas ou financeiras, os fungos podem representar uma alternativa resistente e natural.

Ao mesmo tempo, o caminho abre perguntas relevantes: que espécies funcionam melhor para diferentes misturas de contaminantes? Como seleccionar enzimas - ou ajustá-las por via genética - sem introduzir riscos ecológicos? E como tornar estes sistemas biológicos suficientemente previsíveis para serem aceites em áreas rigorosamente reguladas, como o tratamento de água?

É certo que, quando se fala em depuração “de ponta”, muita gente pensa apenas em filtros, ozono e membranas. No entanto, um actor inesperado pode ter um papel crescente: no futuro, os fungos que, na floresta, consomem madeira em decomposição poderão ajudar a reduzir as marcas invisíveis da medicina moderna no ciclo da água, do solo e dos alimentos.

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