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Novo estudo usa eDNA para contar baleias na costa da Califórnia com mais 53% de precisão

Homem em barco a recolher amostra perto de duas baleias jubarte na superfície do mar ao pôr do sol.

Um novo estudo identificou uma forma de contar baleias sem depender de ver os animais: em vez disso, analisa os vestígios microscópicos que deixam na água à sua volta.

Segundo os autores, este método é 53% mais preciso do que as abordagens convencionais - um avanço importante numa área em que as estimativas populacionais influenciam diretamente as decisões de conservação.

A investigação foi conduzida por biólogos marinhos da Scripps Institution of Oceanography da UC San Diego, em colaboração com estatísticos da California Polytechnic State University (Cal Poly).

O trabalho centrou-se nas populações de baleias ao longo da costa da Califórnia entre 2014 e 2020, cobrindo o troço de oceano entre San Diego e Morro Bay.

Porque é tão difícil contar baleias

As baleias percorrem distâncias enormes, passam a maior parte do tempo abaixo da superfície e emergem quando lhes convém.

Os métodos habituais - levantamentos visuais a partir de barcos ou aviões, identificação fotográfica, monitorização acústica, imagiologia por satélite - acabam por esbarrar no mesmo obstáculo de base.

Na prática, os animais não permitem uma observação regular e consistente.

O que os investigadores colocaram como hipótese foi que a própria água poderia guardar um sinal mais fiável: não as baleias em si, mas a marca ecológica que deixam.

A pegada da alimentação

As baleias de barbas alimentam-se por filtração. Engolem volumes muito grandes de água do mar, forçam a passagem dessa água pelas placas de barbas e aí retêm krill, zooplâncton e peixes pequenos.

Quando este comportamento se repete muitas vezes, em grande escala e ao longo de semanas e meses, acaba por alterar as comunidades microbianas e de plâncton nas águas circundantes.

A ideia da equipa foi detetar essa alteração e, a partir dela, inferir quantas baleias terão estado presentes.

Para isso, recorreram ao ADN ambiental, ou eDNA. Filtra-se uma amostra de água do mar, extrai-se o ADN dos organismos que ali estavam e amplificam-se marcadores genéticos específicos.

O resultado é um retrato detalhado da comunidade microbiana e de pequenos organismos planctónicos naquele local.

Rastrear baleias através do ADN

A equipa aproveitou dados do California Cooperative Oceanic Fisheries Investigations (CalCOFI), o programa de monitorização de ecossistemas marinhos mais antigo do mundo, atualmente no seu 77.º ano.

Os investigadores compararam perfis das comunidades microbianas com estimativas de densidade de baleias obtidas por levantamentos visuais diretos.

Em seguida, construíram modelos estatísticos para avaliar até que ponto era possível prever uma variável a partir da outra.

"Muitas abordagens apoiam-se em proxies ambientais indiretos que estão a vários passos da biologia real das baleias", afirmou a autora principal do estudo, Erin Satterthwaite.

"O nosso trabalho usa eDNA para caracterizar a estrutura da comunidade microbiana e do pequeno plâncton, o que complementa a informação oceanográfica existente ao incorporar informação ecológica do habitat das baleias, melhorando a nossa capacidade de prever densidades de baleias."

Colaboradores de diferentes áreas

Os resultados chamaram a atenção: os modelos baseados em micróbios superaram os métodos tradicionais de previsão em 53%.

"O conceito deste projeto foi tentar encontrar um sinal indireto baseado em relações ecológicas nas comunidades microbianas que estão na água e na forma como respondem a macro-organismos, como as baleias", explicou o coautor Trevor Ruiz.

Este projeto juntou investigadores de áreas que nem sempre trabalham lado a lado.

"Teve muitos colaboradores de diferentes áreas, desde estatística a ecologia marinha e genómica, e ver todas estas disciplinas a juntarem-se para formar o produto final foi um dos aspetos mais interessantes", disse o coautor Nick Patrick.

A equipa também disponibilizou os seus métodos estatísticos como software para descarregar, tornando esta abordagem acessível a outros investigadores que estejam a trabalhar noutros problemas.

Rumos para investigação futura

Para gestores de conservação, melhorar a monitorização das populações é essencial para proteger as baleias de colisões com navios, emalhamento em artes de pesca e perturbação por ruído.

Tudo isto depende de saber onde as baleias estão, em que números, e em que altura do ano.

O estudo também abre uma janela para uma relação que há muito intriga os ecólogos: de que modo os maiores animais do oceano moldam as comunidades dos seus habitantes mais pequenos.

À medida que a tecnologia de eDNA continua a baixar de custo e a tornar-se mais acessível, o mesmo método poderá vir a ser aplicado a outras espécies marinhas de grande porte, como tubarões ou peixes de oceano aberto.

Por agora, o estudo deixa um argumento discretamente convincente: se quer encontrar uma baleia, por vezes o melhor sítio para procurar é a água que ela deixou para trás.

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