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Biodiversidade, tamanho corporal e energia: produtividade e pressão humana desafiam a equivalência energética

Jovem a estudar animais numa floresta com veado, raposas e várias aves ao redor numa paisagem campestre.

Em qualquer ecossistema, quando se contam espécies suficientes, repete-se o mesmo padrão: os animais pequenos são esmagadoramente mais comuns. Há mais ratos do que lobos e mais tentilhões do que condores.

Corpos maiores exigem mais combustível, por isso os ecossistemas conseguem sustentar um número menor de animais grandes.

Dessa lógica nasceu outra ideia antiga: independentemente do tamanho, cada espécie usaria, em média, uma fatia semelhante da energia disponível no ecossistema.

Quando essa hipótese foi finalmente posta à prova à escala global, os cálculos não bateram certo - sobretudo nos locais mais produtivos do planeta.

Repensar uma regra antiga

À medida que o tamanho corporal aumenta, as populações tendem a encolher. Esse ponto é consensual.

O desacordo estava em quão acentuada é essa descida e se, no fim, o padrão levaria a que todas as espécies consumissem aproximadamente a mesma quantidade de energia do ecossistema.

A investigação anterior deu a esse equilíbrio o nome de equivalência energética, e durante décadas ele funcionou como a “expectativa nula” da área.

O obstáculo sempre foi testá-lo globalmente: os dados de abundância são irregulares e enviesados para regiões bem estudadas. Uma nova análise reduz essa lacuna - e conclui que a regra não se verifica.

O que a equipa modelou

O trabalho foi liderado por Luis F. Camacho, ecólogo do Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN), em Madrid.

O estudo reuniu dados de censos globais com medições das espécies. A equipa estimou o número de indivíduos de cada uma das 12,057 espécies de aves e mamíferos numa grelha global de alta resolução.

Depois, acrescentaram-se duas camadas globais ao modelo. Uma representava a produtividade primária líquida, isto é, o crescimento das plantas; a outra incorporava o índice de pegada humana, para quantificar o nível de pressão humana sobre as paisagens.

A produtividade inclina o equilíbrio

O padrão que muitos ecólogos esperavam encontrar - uma descida forte e previsível da abundância à medida que os animais ficam maiores - não apareceu.

Em vez disso, a redução foi muito mais suave do que o previsto e mudou consoante a região analisada.

Em zonas frias ou secas, o resultado aproximou-se do que os manuais descrevem.

Já nos sistemas mais produtivos - florestas tropicais exuberantes e florestas temperadas - as espécies de maior porte retiveram muito mais energia por espécie do que era esperado.

As espécies pequenas acabam com menos energia

O que explica essa inclinação não parece ser o cenário mais intuitivo. À medida que a produtividade sobe, as espécies pequenas não estão a perder indivíduos; o que aumenta é o número de espécies.

Com mais energia de origem vegetal disponível, a contagem de espécies de pequeno porte cresce mais depressa do que a sua população total.

Uma floresta tropical húmida alberga mais tipos de roedores e de aves pequenas do que um deserto, mas os indivíduos ficam distribuídos por esse conjunto adicional de espécies.

Assim, por espécie, os animais menores acabam por aparentar ter menos energia do que a regra previa. As espécies de grande porte, sendo menos diversas, provavelmente ficam com uma parcela maior.

Paisagens sob pressão humana

O índice de pegada humana desenhou um padrão semelhante nos gráficos, embora por uma razão completamente diferente.

Em paisagens com maior pressão humana, as espécies de grande porte desapareceram de forma mais marcada do que as pequenas.

A abundância dessas espécies caiu e o número de espécies grandes diminuiu ainda mais.

Um estudo separado associou esse viés a estradas, caça e perda de habitat - fatores que tendem a afetar primeiro os animais de maior porte.

A marca deixa rasto. Quando ursos, grandes felinos ou grandes ungulados rareiam num ecossistema, o equilíbrio de tamanhos corporais reorganiza-se de uma forma que pode não recuperar rapidamente.

Riqueza e energia divergem

Ao analisar em conjunto tamanho corporal, abundância e riqueza de espécies, surgiu um resultado quase paradoxal.

A distribuição das espécies por tamanhos corporais manteve-se relativamente estável entre regiões - há sempre mais espécies pequenas do que grandes, em proporções semelhantes.

No entanto, a distribuição da energia variou muito mais. A riqueza e a energia não caminham necessariamente juntas.

Uma região pode parecer muito diversa nas contagens tradicionais e, ainda assim, canalizar a maior parte da sua energia através dos seus maiores animais.

Implicações mais amplas do estudo

Grande parte das avaliações de biodiversidade gira em torno do número de espécies. Se desaparecerem 100 espécies pequenas, a contagem baixa 100; se se perderem dez espécies grandes, baixa dez.

A conta é simples - mas o impacto ecológico não.

Se, em ecossistemas produtivos, as espécies grandes suportam uma fração desproporcionada do fluxo de energia, a sua perda reconfigura o sistema de formas que as contagens básicas não conseguem captar.

Os investigadores sugerem que acompanhar estas relações com a massa corporal pode ser uma ferramenta prática de conservação.

Os programas de compensação de biodiversidade, que muitas vezes trocam a presença de animais grandes por muitos animais pequenos, são um contexto em que essa mudança de abordagem pode ser adotada rapidamente.

Uma nova forma de olhar para a biodiversidade

Pela primeira vez, existe uma visão global de como a produtividade e a pressão humana reescrevem a relação entre o tamanho corporal e a energia.

Com isto, passa a ser possível perguntar se uma determinada comunidade está dentro do intervalo natural esperado para a sua produtividade, ou se a ação humana a empurrou para outro estado.

“Os animais de pequeno porte continuam a dominar em número, mas em ecossistemas produtivos estão repartidos por muito mais espécies. Essa diluição altera, por espécie, a quota de indivíduos e, por extensão, de energia”, afirmou Camacho.

Os autores defendem que biodiversidade não é apenas contar espécies - é perceber o que cada espécie reclama do “reservatório” de energia, algo que os indicadores habituais falham por completo.

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