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Idoso de 94 anos paga quase 700 euros por um Citroën C4 até 2027

Mulher sentada a conversar com idoso em cadeira de rodas, documentos e medicamentos numa mesa entre eles.

Em Salon-de-Provence, um homem de 94 anos está há meses a pagar quase 700 euros por mês por um Citroën C4 que não pode conduzir - nem legalmente nem fisicamente. O contrato foi assinado quando tinha 92 anos, prolonga-se até 2027 e está a empurrar a família para o limite, tanto financeiro como emocional. O episódio expõe um vazio jurídico que, também na Alemanha, pode apanhar muitos idosos desprevenidos.

Leasing na velhice: carro de 34.000 euros, prestações até 2027

A existência do contrato só veio à tona quando o homem - chamemos-lhe Max - se preparava para se mudar para um lar. O neto, Philippe, reuniu e organizou a papelada para tratar do processo e, no meio dos documentos, encontrou o dossiê do automóvel.

Em casa, todos partiam do princípio de que o avô tinha comprado o carro a pronto. Em vez disso, havia um contrato de leasing extenso: um Citroën C4 novo, caixa automática, 130 cv, com um valor superior a 34.000 euros. A duração era de vários anos e a mensalidade ficava perto de 700 euros, com pagamentos calendarizados até 2027.

"Um homem de 94 anos num lar paga quase 700 euros por mês por um carro que fica permanentemente parado num estacionamento."

Ao mesmo tempo que assinou o leasing, Max subscreveu ainda seguros adicionais. No papel, estas coberturas parecem tranquilizadoras; na prática, não aliviam em nada a situação. Nenhuma das apólices se aplica ao seu caso actual: limitações de saúde graves, cadeira de rodas e sem carta de condução.

Saúde deteriorada, carta retirada - e o contrato mantém-se inflexível

Desde a assinatura, a vida do idoso mudou por completo. Hoje, com 94 anos, vive num lar, desloca-se em cadeira de rodas e perdeu a habilitação para conduzir. Para ele, conduzir já não é uma opção.

Philippe conta que o choque foi grande quando perceberam que nem um seguro de invalidez nem uma cobertura por morte, enquadrados no contrato, libertam a família de forma segura das prestações. Se o avô morrer, o acordo continua a vigorar como se nada fosse - e os herdeiros terão de pagar até à última mensalidade.

Alguns contratos extra puderam ser cancelados. Já o leasing principal, esse, mantém-se intocado. A empresa agarra-se à assinatura e ao prazo acordado. Para a família, é claro: para alguém com esta idade e neste estado, o encargo não faz sentido económico, mas parece estar montado de forma juridicamente sólida.

Tentativas de rescisão: atestados médicos não demovem a empresa

Philippe recusou aceitar a situação. Foi várias vezes ao concessionário Citroën, levando relatórios e atestados médicos que confirmam a incapacidade de condução do avô - documentos emitidos por médicos credenciados que dizem, sem ambiguidades, que aquele homem já não pode nem deve conduzir.

Segundo o seu relato, a resposta do vendedor foi fria e padronizada. Os argumentos da família - de que o estado de saúde e a acentuada diminuição das capacidades cognitivas eram conhecidos - pouco ou nada alteraram. Max era cliente habitual há anos e, diz o neto, a sua dificuldade crescente ao volante seria perceptível, por exemplo, pelos danos repetidos na carroçaria. Ainda assim, acabou com um carro de motor potente e um vínculo contratual prolongado.

"A empresa coloca a família perante duas opções: continuar a pagar até 2027 ou ficar com o carro, pagando de uma só vez mais de 20.000 euros."

Philippe entende isto como exploração de vulnerabilidade. Na sua óptica, é moralmente questionável vender a alguém com mais de 92 anos um automóvel caro e potente com um leasing difícil de desfazer. Do ponto de vista jurídico, porém, o concessionário sustenta que não pode tratar clientes idosos de forma diferente de clientes mais novos - caso contrário, isso poderia ser interpretado como discriminação por idade.

Zona cinzenta com clientes muito idosos: protecção ou discriminação?

Este caso levanta uma questão sensível: até onde vai a responsabilidade de concessionários e financeiras quando pessoas muito idosas assinam contratos?

Actualmente, em muitos países, a regra prática é a seguinte:

  • Quem é maior de idade e tem capacidade jurídica pode celebrar contratos, independentemente da idade.
  • Em princípio, os vendedores não têm de confirmar se familiares ou um representante legal estão presentes.
  • Por motivos de protecção de dados, raramente são pedidos documentos médicos.
  • Um agravamento de saúde posterior quase nunca elimina automaticamente a obrigação de pagar.

Daqui resulta uma zona cinzenta: quanto mais idade tiver o cliente, maior é a probabilidade de surgirem problemas de saúde ou dependência antes do fim do contrato. Em modelos de leasing com vários anos de duração, isto torna-se especialmente delicado em pessoas com mais de 80 ou 90 anos.

Quando a família só descobre contratos em situação de urgência

A história de Max evidencia também um segundo problema: muitos familiares nem sequer sabem que contratos foram assinados por pais ou avós. Muitas vezes, a realidade só aparece quando é necessário um lugar num lar ou quando a conta bancária entra em saldo negativo.

As armadilhas mais comuns em idades muito avançadas não se limitam ao leasing automóvel:

  • contratos de telemóvel ou internet caros e de longa duração
  • cartões de crédito com limites elevados
  • subscrições de serviços de streaming ou de segurança
  • seguros com pouco valor acrescentado

Quando não existe procuração preventiva ou tutela, os idosos actuam legalmente por conta própria - mesmo que já não consigam avaliar todas as consequências. Vendedores ou intermediários nem sempre o fazem de forma consciente, mas acabam por beneficiar da falta de transparência.

O que as famílias podem fazer para evitar casos semelhantes

O caso do sul de França pode ser facilmente transposto para a Alemanha. Leasing, crédito automóvel e modelos de subscrição funcionam de forma semelhante no país. Quem tem familiares mais velhos pode preparar-se antes de a situação escalar:

  • Falar de dinheiro com antecedência: conversas regulares sobre contas, contratos e compras importantes ajudam a evitar surpresas.
  • Tratar de uma procuração preventiva e de uma procuração bancária: assim, filhos ou netos podem consultar contratos e, se necessário, intervir quando o idoso já não conseguir.
  • Analisar com espírito crítico contratos grandes a partir de certa idade: duração, valor da prestação e valor residual - especialmente relevante em leasing e créditos.
  • Estar atento a seguros escondidos: muitas coberturas adicionais parecem dar segurança, mas no momento crítico oferecem pouco.
  • Recorrer a aconselhamento de associações de defesa do consumidor: é possível rever contratos e discutir alternativas.

Se houver suspeita de aproveitamento de vulnerabilidade num contrato já existente, na Alemanha é possível procurar apoio jurídico. Em determinadas circunstâncias, contratos podem ser contestados por falta de capacidade para contratar ou por aconselhamento enganoso. É um processo complexo e moroso, mas em alguns casos evita obrigações de pagamento prolongadas.

O que este caso implica para legisladores e para o sector

A pressão sobre a política e sobre o sector financeiro está a aumentar. Defensores dos consumidores pedem há muito regras claras para negócios com pessoas muito idosas ou com limitações de saúde. Entre as soluções possíveis, apontam-se, por exemplo:

  • limites máximos para a duração dos contratos a partir de determinada idade
  • prazos obrigatórios de reflexão antes da assinatura
  • deveres de informação quando não existe uma protecção efectiva em caso de doença ou morte
  • registo/documentação de que o cliente compreendeu as consequências

Ao mesmo tempo, o debate corre o risco de descambar rapidamente para a ideia de “paternalismo” em relação aos idosos. Muitos querem manter autonomia para decidir, incluindo sobre finanças. O equilíbrio passa por preservar a autodeterminação e, ainda assim, evitar situações de sobrecarga evidente ou de abuso.

O que é, afinal, o leasing - e porque pode ser arriscado na velhice

À primeira vista, o leasing pode parecer atractivo: conduzir um carro novo, pagar apenas a utilização e devolver a viatura no fim. Por detrás dessa aparência está, contudo, um contrato financeiro rígido. As prestações reflectem desvalorização, juros e a margem de lucro do fornecedor. Quem tenta sair antes do prazo, muitas vezes, paga caro.

Para pessoas mais velhas, somam-se riscos adicionais:

  • a saúde pode alterar-se de forma abrupta;
  • a dependência de cuidados implica comparticipações elevadas;
  • o rendimento tende a reduzir-se à pensão e, eventualmente, a pequenas prestações adicionais;
  • a mobilidade perde importância de um momento para o outro e o carro fica parado.

Nestas fases da vida, comprar um automóvel a um preço moderado ou partilhar um carro na família pode ser muito mais sensato do que assumir um leasing de vários anos com uma prestação mensal elevada.

O caso de Max mostra de forma clara como um contrato que, no papel, parece comum pode transformar-se num peso permanente para pessoas com pouca capacidade de se defender. Famílias, concessionários e decisores políticos têm aqui uma responsabilidade partilhada, para que a mobilidade na velhice não se converta num risco financeiro que se prolonga até ao lar.

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