Cada pangolim traficado intercetado num posto fronteiriço chega acompanhado de um conjunto de dados: a espécie, o peso e, por vezes, um país de origem indicado na etiqueta de expedição. O problema é que essa etiqueta é muitas vezes pura invenção - mas, até agora, quase ninguém conseguia demonstrá-lo.
Investigadores criaram entretanto um mapa de ADN suficientemente detalhado para substituir esse papel. A ferramenta consegue localizar um pangolim traficado até à floresta de onde saiu - e os padrões que revelou ligam um comércio à escala global a algo bem mais próximo do dia a dia.
Leitura de ADN danificado
Os pangolins representam quase um terço das apreensões internacionais de animais registadas. As suas escamas são moídas até virarem pó para uso na medicina tradicional; a carne circula em mercados de carne de caça por toda a África Central e pelo Sudeste Asiático.
Há muito que o rastreio genético parece uma solução promissora. O obstáculo tem sido a amostragem: a maior parte do material que chega aos laboratórios vem de apreensões ou de gavetas de museus, onde o ADN aparece degradado e contaminado.
Sean Heighton, autor principal do estudo, trabalhou com colegas da Universidade de Toulouse e do Institut de Recherche pour le Développement (IRD), em França.
A equipa desenvolveu um conjunto de sondas de RNA que se liga a fragmentos específicos de ADN e os isola, afastando a contaminação. Funciona para as oito espécies de pangolim. E até com tecido museológico do século XIX.
Um atlas geográfico
Para devolver um pangolim traficado ao “seu” lugar no mapa, é preciso saber como é o ADN característico de cada região. A equipa sequenciou mais de 700 amostras provenientes de museus, locais de campo, centros do comércio de carne de caça e apreensões. As amostras de origem conhecida serviram para construir o mapa de referência.
Depois, cada amostra proveniente de tráfico foi comparada com esse mapa através de um modelo de aprendizagem automática, concebido para prever um ponto específico - e não apenas encaixar os animais em grandes categorias regionais.
No caso do pangolim-de-ventre-branco, as previsões ficaram a cerca de 8 km do local real de recolha. Uma precisão notavelmente elevada. Para o pangolim-da-Sunda e o pangolim-chinês, as áreas previstas foram mais amplas, devido à menor densidade de dados de referência, mas ainda assim superaram qualquer método anterior.
Três principais hotspots
Três regiões voltaram a aparecer de forma recorrente. Para o pangolim-de-ventre-branco, o sudoeste dos Camarões dominou os envios internacionais - o sinal apontou repetidamente para florestas em redor do Parque Nacional de Campo Ma’an e do Maciço Florestal de Ebo.
A principal origem do pangolim-da-Sunda foi o sudoeste do Bornéu, associada a apreensões em portos perto de Jacarta e Surabaia. Já a Região de Sagaing, em Myanmar, surgiu como o corredor-chave para pangolins-chineses com destino à província de Yunnan.
Nos Camarões, pangolins apreendidos na China e na Europa foram rastreados até às mesmas florestas que abastecem os maiores mercados de carne de caça do país, em Yaoundé e Douala.
Mercados com os mesmos fornecedores
É aqui que surge a novidade que ainda ninguém tinha conseguido estabelecer. Suspeitava-se que a caça local e o comércio internacional à escala industrial estivessem ligados, mas a evidência era sobretudo circunstancial.
O ADN conta outra história. As florestas do sudoeste dos Camarões abasteceram tanto os mercados de carne de caça de Yaoundé como os intermediários internacionais que enviam escamas para medicina tradicional para a Ásia - com abastecimento doméstico a uma média de 137 km, e apreensões internacionais com origem nessas mesmas florestas.
“Uma das descobertas mais marcantes foi que o comércio doméstico de pangolins é em grande medida local, mas sobrepõe-se às mesmas regiões de abastecimento que alimentam o tráfico internacional”, afirmou Philippe Gaubert, co-líder do estudo na Universidade de Toulouse e no IRD.
A implicação é desconfortável. Vários países africanos têm ponderado um uso local regulado do pangolim - uma estratégia que arrisca reforçar as mesmas redes que estão a empurrar a espécie para o declínio.
Rotas através de fronteiras
A análise de ADN revelou circulação transfronteiriça que os estudos baseados em entrevistas apenas sugeriam. Pangolins vendidos no Gana foram rastreados até à Costa do Marfim; os que apareceram no sudoeste da Nigéria tinham origem no Benim. O tráfico marítimo a partir dos Camarões chegou mesmo à Ilha de Bioko, na Guiné Equatorial.
Na Ásia, o padrão é diferente. Em Sumatra e Java, os mercados obtiveram pangolins sobretudo da própria ilha. As apreensões internacionais com destino à China apresentaram uma média de 769 km entre a origem e o porto - cerca de seis vezes mais do que o típico comércio doméstico africano.
O desenho geral faz eco de trabalhos anteriores sobre marfim, onde um estudo semelhante concluiu que um pequeno número de nós de tráfico canaliza uma fatia desproporcionada do comércio global.
Onde falha
O comércio de pangolim-chinês continua a ser o mais difícil de seguir. As amostras de referência são escassas, e as previsões para esta espécie podem falhar por centenas de quilómetros.
Alguns animais apreendidos em Yunnan surgiram como geneticamente “não atribuídos” - a equipa aponta o sul de Myanmar como hipótese, mas não existem amostras de referência dessa zona.
Além disso, os hotspots são apenas um retrato de um momento. Os traficantes mudam de rota. E grandes mercados finais chineses em cidades como Hong Kong e Fuzhou não apareceram nos dados de apreensões, criando verdadeiros pontos cegos.
Ferramentas para a fiscalização
Apesar dessas lacunas, a técnica muda aquilo que a fiscalização pode fazer quando há uma apreensão. Um laboratório aduaneiro pode usar o kit de captura genética para atribuir animais traficados a um país, a uma província e, nalguns casos, a uma única área protegida.
“Mostrámos que é possível rastrear pangolins traficados até à sua origem geográfica com uma precisão notável”, disse Heighton.
Para uma espécie que passou duas décadas a desaparecer em contentores de carga impossíveis de rastrear, poder identificar a floresta exata de onde cada animal foi retirado altera o que a fiscalização consegue, de facto, atingir.
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