A sol de primavera, passeios mais longos, relva fresca - e, no meio disto tudo, o cão que, vezes sem conta, passa as patas da frente pelo focinho ou esfrega a cabeça com força na erva. À primeira vista pode parecer uma mania engraçada. Na realidade, porém, pode ser um sinal de dor e de aflição. Ignorar este comportamento pode resultar em lesões graves na boca do animal - muito para lá de “apenas um pouco de tártaro”.
Porque é que os cães esfregam o focinho e a boca com tanta insistência
É comum os humanos humanizarem os seus animais. Um cão a “limpar” o focinho com as patas lembra quase alguém a massajar o rosto - querido, fotogénico, perfeito para redes sociais. Mas, na maior parte das vezes, a explicação é bem menos inocente.
O cão tenta aliviar um ponto que não consegue alcançar com a língua. A pressão das patas, o atrito no tapete ou o esfregar na relva são tentativas de atenuar o desconforto. O problema é que a causa está dentro da cavidade oral e, durante muito tempo, pode não ser evidente a olho nu.
“Em muitos casos, esfregar constantemente a boca não é um ‘tique engraçado’, mas um grito de ajuda contra fortes dores de dentes.”
O padrão típico não é um episódio isolado: o gesto repete-se várias vezes ao longo do dia. Muitas vezes agrava-se depois de comer ou quando mastiga um brinquedo - o cão fica inquieto e, quase por reflexo, leva as patas à boca.
A doença “silenciosa” mais subestimada na taça do cão: parodontite em cães
Os veterinários alertam há anos: problemas dentários em cães não são um detalhe, mas uma das causas mais frequentes de dor. Entre elas, destaca-se a doença periodontal - inflamações à volta do dente e das estruturas que o fixam.
Tudo costuma começar de forma discreta: uma camada de placa bacteriana macia que, em poucos dias, pode mineralizar e transformar-se em tártaro duro. As bactérias instalam-se, avançam para a margem gengival e desencadeiam inflamações cada vez mais intensas. A certa altura, basta observar a boca para notar sinais claros: gengivas avermelhadas, depósitos marcados e, por vezes, dentes já com mobilidade.
Em cães adultos, esta doença afecta uma fatia enorme dos animais. Muitos suportam o desconforto durante anos, em silêncio - até que a dor se torna tão forte que o comportamento muda. É aqui que entram, muitas vezes, as patas no focinho.
Cinco sinais de alerta que não deves ignorar
1. Esfregar constantemente a boca e o focinho
O cenário mais comum: o cão passa repetidamente as patas pelo focinho, esfrega a lateral da cabeça no tapete ou encosta-se com força ao canto do sofá. Por vezes parece agitado, sacode a cabeça ou mostra irritação momentânea quando tentas tocar nessa zona.
2. Mau hálito insuportável
Sim, a boca de um cão raramente cheira a menta. Ainda assim, há uma diferença nítida entre um “hálito normal de cão” e um odor que enche a divisão.
- cheiro rançoso, a podre
- nota metálica, quase a sangue
- um bafo tão intenso que se nota mesmo a alguma distância
Este tipo de cheiro costuma indicar focos bacterianos importantes e processos com pus na boca. Se, além disso, o cão esfrega frequentemente o focinho, a suspeita de inflamações dolorosas torna-se muito forte.
3. Dificuldade em comer apesar de ter fome
Muitos tutores estranham: o cão corre para a taça, cheira, hesita - e acaba por comer, mas de forma cuidadosa e “esquisita”. Alguns sinais típicos:
- a ração seca é cuspida ou fica muito tempo a ser “mastigada” sem engolir
- o cão passa a preferir apenas comida mole
- deixa cair pedaços e fica a olhar, como se não percebesse o que se passa
- come mais devagar do que antes ou interrompe a refeição
A vontade de comer está lá - o que trava é a dor. E muitos animais habituam-se tanto ao desconforto que continuam assim durante anos.
4. Gengivas vermelhas, inchadas e vestígios de sangue
Se houver suspeita, vale a pena levantar cuidadosamente os lábios para observar. Mesmo para quem não é especialista, há indicadores simples:
- gengiva claramente mais vermelha do que o rosa saudável
- inchaço entre os dentes
- marcas de sangue no brinquedo ou na taça da água
- depósitos intensos, de amarelados a acastanhados
Se o cão reage mal quando lhe olhas para a boca, se recua ou rosna de forma insegura, isso raramente é “teimosia”. Na maioria das vezes é um sinal de dor.
5. Dentes a abanar ou já em falta
Quando a doença está avançada, os cães começam a perder dentes gradualmente. Às vezes aparece um dente na taça; outras vezes só se repara mais tarde, ao notar uma falha. Nessa fase, é um sinal evidente de que a inflamação já está a avançar em profundidade, envolvendo o osso da mandíbula.
“Quem conhece estes sinais e os leva a sério poupa ao cão, muitas vezes, anos de sofrimento - e a si próprio despesas elevadas no futuro.”
Porque é que os “remédios caseiros” já não resolvem nesta fase
Quando o tártaro e a parodontite já se instalaram, ossos para roer, snacks “dentários” ou pós comprados na internet quase não fazem diferença. Podem reduzir ligeiramente depósitos mais superficiais, mas não chegam onde está o problema real: abaixo da linha da gengiva, junto das estruturas sensíveis que sustentam os dentes.
Muitos tutores adiam por receio do custo ou da anestesia - e é precisamente aqui que está o grande erro. Quanto mais se espera, maior tende a ser o risco e maior o custo do tratamento.
Como funciona uma limpeza dentária profissional no veterinário
Saneamento dentário: só faz sentido com anestesia
Uma remoção eficaz de tártaro e de tecido inflamado, em cães, só é possível com anestesia geral. Assim, o veterinário consegue:
- remover tártaro acima e abaixo da margem gengival
- limpar bolsas gengivais
- extrair dentes muito danificados
- avaliar a cavidade oral de forma completa
O preço varia conforme o trabalho necessário, o número de dentes afectados e a região. Em muitas clínicas, um procedimento “normal” fica na faixa intermédia das centenas de euros. Pode parecer muito - mas, face a anos de dor e a potenciais complicações como problemas cardíacos, renais ou hepáticos, o benefício é evidente.
O que fazer depois do tratamento
Após o saneamento, muitos cães parecem diferentes: vários tutores dizem que o animal fica “de repente mais jovem” ou “finalmente alegre outra vez”. Para manter esse resultado, é essencial ter cuidados regulares em casa.
| Medida | Benefício | Frequência |
|---|---|---|
| Escovagem com pasta dentífrica para cães | reduz nova placa bacteriana | idealmente diária, no mínimo várias vezes por semana |
| Artigos de mastigação adequados | limpeza mecânica, ocupação | conforme o cão, algumas vezes por semana |
| Verificação regular da boca | detecção precoce de novos problemas | pelo menos mensalmente |
| Consulta de controlo no veterinário | avaliação profissional, possível reintervenção | uma vez por ano; em cães de risco, mais vezes |
Como perceber a tempo que o teu cão precisa de ajuda
Muitos problemas dentários instalam-se devagar. O cão adapta-se: muda a forma de comer, brinca menos com brinquedos duros, dorme mais. Por isso, compensa observar com atenção e com regularidade:
- mudou a forma como come?
- o hálito está mais intenso do que antes?
- esfrega com mais frequência a boca ou coça essa zona?
- fica sensível quando lhe fazes festas na cabeça?
Se te revês em dois ou mais pontos, o melhor é não adiar e marcar uma consulta. Quanto mais cedo se actua, mais dentes se conseguem preservar - e menor é o stress para o animal.
Dicas práticas para uma rotina de higiene oral amiga do cão
Muitos tutores evitam a escovagem porque o cão não colabora de bom grado. O segredo é avançar devagar e com consistência:
- começar por levantar os lábios por instantes e elogiar
- depois, passar o dedo pelos dentes, podendo usar uma pasta específica
- mais tarde, introduzir uma escova macia própria para cães
- trabalhar sempre com calma e recompensas; nunca com força
O ideal é habituar os cachorros cedo. Ainda assim, com paciência, até cães mais velhos aprendem surpreendentemente bem. Se não for possível escovar, pelo menos faz controlos regulares e oferece artigos de mastigação adequados - com a noção de que não substituem um procedimento profissional.
No fundo, aplica-se uma regra simples: se o teu cão esfrega a boca de forma repetida e evidente, é mais prudente assumir dor do que “fofura”. Uma avaliação rápida no veterinário pode poupar-lhe muito sofrimento - e evitar que só percebas a gravidade quando já houver dentes a cair.
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