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Cancro da mama no cérebro: Novo tratamento combinado dá mais tempo às doentes

Duas médicas analisam imagens de ressonância magnética cerebral num tablet num consultório iluminado.

Em Texas, uma equipa médica testou uma combinação de medicamentos que terá conseguido prolongar de forma clara a sobrevivência de mulheres com uma das formas mais temidas de cancro da mama. Embora os dados venham apenas de 17 doentes, os resultados já estão a gerar um entusiasmo palpável na comunidade científica.

Quando o cancro da mama atinge as meninges

O trabalho focou-se em mulheres com cancro da mama HER2-positivo já metastizado que alcançou as chamadas meninges (as “hirnhäute”), isto é, as membranas que envolvem o cérebro e a medula espinal. Este cenário é descrito por especialistas como metástases leptomeníngeas. Nestes casos, células tumorais circulam no líquido cefalorraquidiano e recobrem as membranas finas que protegem o sistema nervoso central.

Ao contrário de um tumor cerebral “clássico”, a apresentação é muito diferente: em vez de uma massa única e bem delimitada, a doença tende a espalhar-se de forma difusa, em “camada”, o que pode originar sintomas muito variados, incluindo:

  • dores de cabeça persistentes ou recentes, por vezes intensas
  • tonturas e instabilidade ao andar
  • sinais de paralisia nos braços ou nas pernas
  • visão dupla ou outras alterações visuais
  • crises semelhantes a epilepsia

Para muitas pessoas, as metástases leptomeníngeas representam uma rutura abrupta na vida diária: os sintomas neurológicos podem agravar-se rapidamente e, em poucas semanas ou meses, a autonomia pode ficar seriamente comprometida.

Porque é tão difícil tratar este tipo de metástases

Um dos maiores obstáculos é a barreira hematoencefálica. Esta barreira natural funciona como um filtro que impede que muitos fármacos presentes no sangue cheguem ao líquido cefalorraquidiano e aos tecidos do sistema nervoso central. Como resultado, várias quimioterapias tradicionais acabam por ter pouca penetração onde são necessárias.

Até agora, os tratamentos usados com mais frequência incluem sobretudo:

  • radioterapia do cérebro ou de áreas seleccionadas
  • injecções directas de medicamentos no líquido cefalorraquidiano (intratecal)
  • medidas de suporte para controlo de dor, náuseas e convulsões

Na prática, estes métodos muitas vezes apenas estabilizam a doença por pouco tempo. Um aumento marcado da esperança de vida - ou uma melhoria consistente dos sintomas - tem sido, na maioria das situações, uma excepção.

O racional do novo trio (Tucatinib, Trastuzumab e Capecitabina) para cancro da mama HER2-positivo

Investigadores do MD Anderson Cancer Center, em Houston, optaram agora por uma estratégia combinada que junta terapêutica dirigida e quimioterapia oral. O elemento central é o tucatinib, uma molécula pequena concebida para inibir de forma específica o receptor HER2.

Estudos anteriores já tinham apontado uma pista relevante: o tucatinib consegue, pelo menos em parte, ultrapassar a barreira hematoencefálica. Em medições, o fármaco foi detectado no líquido cefalorraquidiano em concentrações próximas da fracção livre disponível no sangue. Foi precisamente este dado que alimentou a expectativa de que pudesse também actuar contra metástases leptomeníngeas.

No estudo agora descrito, o tucatinib foi administrado em conjunto com dois parceiros bem conhecidos:

  • Trastuzumab - um anticorpo anti-HER2, familiar para muitos doentes pelo nome Herceptin
  • Capecitabina - quimioterapia oral, também prescrita sob o nome comercial Xeloda

"A combinação de Tucatinib, Trastuzumab e Capecitabin foi pensada para atacar as células cancerígenas simultaneamente por fora e por dentro - e também na zona sensível do cérebro e da medula espinal."

O que foi feito, ao certo, no estudo

A investigação corresponde ao ensaio de fase II TBCRC049 e incluiu 17 mulheres com 18 ou mais anos. Todas tinham cancro da mama HER2-positivo avançado e metástases leptomeníngeas recentemente diagnosticadas. Em 15 das 17 participantes já existiam queixas neurológicas no momento de entrada no estudo.

Cada ciclo terapêutico tinha a duração de 21 dias e seguiu o esquema abaixo:

  • Tucatinib: comprimido duas vezes por dia
  • Capecitabina: quimioterapia oral durante 14 de 21 dias
  • Trastuzumab: perfusão de três em três semanas

O tratamento foi mantido enquanto não se observasse progressão clara da doença ou enquanto os efeitos adversos não se tornassem demasiado intensos.

Um aumento inesperado da sobrevivência

O indicador mais relevante apresentado foi a sobrevivência global. Após o início da terapêutica, a sobrevivência mediana foi de dez meses. Em grupos históricos comparáveis, com características semelhantes, a sobrevivência mediana situava-se em cerca de 4,4 meses.

"A mediana de sobrevivência mais do que duplicou, e pouco mais de 40 por cento das doentes estavam vivas aos 18 meses - num diagnóstico que, até aqui, muitas vezes deixava apenas alguns meses."

É importante notar que este tipo de comparação histórica não substitui um ensaio randomizado com grupo de controlo. Ainda assim, para muitas oncologistas e oncologistas, os dados apontam de forma convincente para um benefício adicional real com esta abordagem tripla.

Sintomas neurológicos: em alguns casos, houve melhoria

O destaque não foi apenas a extensão da sobrevivência, mas também o percurso clínico dos sintomas. Em 13 doentes, a equipa conseguiu avaliar com maior detalhe a actividade das metástases leptomeníngeas; em cinco, observou-se uma regressão mensurável dos achados.

A evolução sintomática foi, em certos casos, ainda mais expressiva: entre doze mulheres seguidas de perto quanto a défices neurológicos, sete relataram melhorias. Essas melhorias incluíram, por exemplo, maior capacidade de marcha, mais força em braços ou pernas e redução das dores de cabeça.

Para muitas doentes, cada mês conquistado conta - sobretudo quando esse tempo é vivido com maior funcionalidade e menos sofrimento. É neste ponto que o estudo ganha especial relevância: a terapêutica parece não só acrescentar tempo, como também tornar esse tempo mais tolerável.

Tolerabilidade do esquema: que efeitos secundários surgiram?

O reverso de combinações intensivas é o risco de efeitos adversos. No ensaio, os principais problemas observados foram os já associados a estes medicamentos quando usados isoladamente:

  • diarreia
  • náuseas e vómitos
  • síndrome mão-pé (vermelhidão, dor e lesões cutâneas nas palmas das mãos e plantas dos pés)
  • aumento dos valores hepáticos nas análises

A equipa do MD Anderson considerou, no geral, que estes efeitos foram controláveis. Em muitos casos, ajustes de dose, pausas temporárias ou medicação de suporte permitiram manter o tratamento. No entanto, com apenas 17 participantes, ainda não é possível definir de forma definitiva o perfil de segurança.

Limitações importantes a ter em conta

Apesar do optimismo gerado, convém sublinhar que se trata de um estudo pequeno e de braço único. Não existiu um grupo de comparação tratado em simultâneo com terapêutica padrão. A análise com dados antigos não consegue eliminar por completo diferenças menos óbvias entre grupos de doentes.

Além disso, o estudo foi interrompido antes do planeado porque o recrutamento avançou lentamente. As metástases leptomeníngeas são devastadoras, mas continuam a ser relativamente raras quando comparadas com outros estádios do cancro da mama, o que limita a existência de grandes bases de dados com muitas subpopulações.

"O resultado parece um primeiro raio de luz num capítulo muito escuro da oncologia - não uma solução definitiva."

O que doentes e familiares podem retirar destes dados

Para mulheres com cancro da mama HER2-positivo que desenvolvam sintomas neurológicos, é útil abordar o tema de forma directa com a equipa assistente. Centros especializados acompanham estudos em curso e conseguem avaliar se um esquema com tucatinib, trastuzumab e capecitabina pode ser apropriado, ou se existem outros ensaios disponíveis.

Também é essencial não desvalorizar sinais neurológicos. Quem notar, por exemplo, dores de cabeça súbitas e invulgares, tonturas, dormência, alterações da visão ou crises convulsivas, deve contactar rapidamente a consulta ou o hospital onde é seguido. Quanto mais cedo houver resposta médica, maior tende a ser a margem de escolha terapêutica.

Termos e contexto: explicação breve

O que significa HER2-positivo?

O HER2 é uma proteína presente na superfície de algumas células e com papel no controlo do crescimento celular. Certas células de cancro da mama expressam este alvo em grande quantidade; nesses casos, o tumor é classificado como HER2-positivo. Estes tumores podem crescer mais depressa, mas também podem responder a medicamentos que bloqueiam o HER2 - como o trastuzumab ou o tucatinib.

O que são, exactamente, metástases leptomeníngeas?

O termo refere-se à disseminação de células tumorais nas leptomeninges (pia-máter e aracnoide) e no líquido cefalorraquidiano. O diagnóstico é normalmente feito combinando ressonância magnética (RM) com a análise do líquido cefalorraquidiano obtido por punção lombar.

O tratamento exige articulação estreita entre oncologia, neuro-oncologia, radioterapia e neurologia. Cada doente chega com uma história clínica própria, comorbilidades e prioridades distintas. Existem poucos “guiões” universais; as decisões individualizadas acabam por prevalecer.

Para onde poderá seguir a investigação

Os resultados actuais sustentam a necessidade de estudos maiores e controlados. As equipas de investigação pretendem confirmar se esta estratégia tripla também traz vantagens noutros contextos de cancro da mama HER2-positivo, por exemplo em metástases cerebrais sem envolvimento das meninges.

Em paralelo, decorre trabalho no desenvolvimento de novos fármacos que atravessem ainda melhor a barreira hematoencefálica - ou que permitam abri-la de forma direccionada e temporária. As técnicas de imagem também estão a ser refinadas para detectar mais cedo a resposta ao tratamento e ajustar as opções de forma mais estreita ao curso individual da doença.

Para quem vive com este diagnóstico, isto significa que uma área há muito considerada quase sem opções - as metástases leptomeníngeas - está a receber mais atenção. O esquema apresentado não é uma cura milagrosa, mas funciona como um sinal concreto de que a terapêutica pode, mesmo em situações muito graves, evoluir e oferecer novas possibilidades.

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