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Treinar em jejum: Queimar gordura abdominal é mesmo mais rápido?

Mulher em roupa de treino prepara refeição saudável na cozinha com bananas e frutos secos numa bancada.

Afinal, esta ideia aguenta-se quando passa pelo crivo da ciência?

O mito é apelativo: quem sai para correr de manhã sem pequeno-almoço ou vai levantar pesos em jejum “queima mais gordura” e emagrece mais depressa. As redes sociais estão cheias de recomendações sobre “cardio em jejum”. Mas o que acontece, de facto, no organismo quando treinamos em jejum - e isso dá mesmo vantagem na composição corporal face a treinar depois de uma pequena refeição?

O que acontece no corpo durante o treino em jejum

Depois de uma noite sem comer, as reservas de glicogénio - ou seja, hidratos de carbono armazenados no fígado e nos músculos - ficam parcialmente mais baixas. Ao mesmo tempo, a insulina mantém-se em níveis reduzidos. É daqui que nasce a teoria mais conhecida: se quase não há açúcar disponível, então o corpo “tem de” recorrer imediatamente às reservas de gordura.

E, em parte, é isso que acontece. Nestas condições, o organismo tende a usar mais gordura como fonte de energia. Mediões mostram que, para o mesmo treino, em jejum o corpo utiliza mais gordura do que após o pequeno-almoço.

Mais gordura usada como combustível não significa, por si só, ter menos gordura corporal de forma duradoura.

O que manda é o saldo global: o corpo não “contabiliza” em blocos de 30 minutos, mas sim ao longo de dias e semanas. Aquilo que de manhã é mais gordura utilizada, muitas vezes é compensado mais tarde com maior uso de hidratos de carbono ou com um apetite mais elevado.

Queima de gordura vs. perda de gordura - a diferença que muda tudo

É aqui que surge a grande confusão: “queimar mais gordura” durante uma sessão não equivale automaticamente a “perder mais gordura” ao longo de várias semanas. O corpo procura constantemente manter equilíbrio. Se numa fase recorre mais à gordura, noutra tende a puxar mais pelos hidratos de carbono - ou simplesmente “pede” mais comida.

No fim, para o físico só interessa uma coisa: como está o balanço calórico ao longo do dia e da semana?

  • Se o saldo é negativo (défice), a percentagem de gordura corporal desce.
  • Se é positivo (excedente), sobe - independentemente da hora a que se treina.
  • Se está equilibrado, o peso tende a manter-se estável.

Ou seja: se alguém usa gordura como combustível de manhã em jejum, mas ao almoço e ao jantar come em excesso, mesmo com “treino de queima de gordura” o resultado final pode ser zero.

Menor rendimento, menos calorias: o senão que passa despercebido

Para muita gente, treinar sem energia prévia é como avançar com o travão de mão puxado. As pernas parecem mais pesadas, a pulsação dispara mais depressa e o ritmo cai. O corpo poupa, porque lhe falta energia facilmente disponível.

Isso reduz a intensidade - e, com ela, o gasto total de calorias na sessão.

Um exemplo simples:

Treino Consumo total Percentagem de gordura Calorias de gordura
30–40 min. de corrida ligeira em jejum aprox. 300 kcal aprox. 60 % gordura aprox. 180 kcal
Sessão mais intensa após uma pequena refeição aprox. 500 kcal aprox. 40 % gordura aprox. 200 kcal

Mesmo com uma percentagem de gordura maior em jejum, a quantidade absoluta de calorias provenientes da gordura pode ser superior na sessão com melhor aporte. E o gasto total de calorias sobe de forma clara.

Quem treina constantemente com pouca energia disponível perde intensidade - e com isso desperdiça precisamente a alavanca que mais calorias custa.

O efeito bumerangue: fome intensa após treinar em jejum

Há ainda outro ponto que muitos desvalorizam: o corpo raramente aceita “dívidas de energia” sem resposta. Quem treina forte de estômago vazio sente frequentemente, mais tarde, um apetite enorme. Soma-se ainda o efeito psicológico: “Eu já fui tão aplicado cedo, mereço isto.”

O resultado:

  • pequeno-almoço muito reforçado logo após o treino
  • mais snacks ao longo da manhã
  • porções maiores durante o dia, porque a sensação de fome aumenta

Em muitos casos, esta compensação anula por completo aquelas poucas calorias extra de gordura - e, não raras vezes, ainda “com juros”.

Efeito afterburn: a intensidade vence o treino em jejum

Depois de uma sessão exigente, o metabolismo mantém-se elevado. Nas horas seguintes, o corpo consome mais oxigénio e continua a gastar energia - o chamado “efeito afterburn” (EPOC).

Quanto mais intenso for o treino, mais forte e mais prolongado é este “pós-combustão”.

É precisamente aqui que surge um problema do treino em jejum: a maioria das pessoas, de estômago vazio, nem sequer consegue atingir a intensidade necessária para gerar um afterburn relevante. O efeito é este: aposta-se tudo na queima de gordura durante a sessão - e abdica-se do grande bónus calórico que vem depois.

Hormonas do stress, cansaço e perda de massa muscular no treino em jejum

Treinar em jejum é um stress para o organismo. Em resposta ao stress, o corpo liberta cortisol. A curto prazo, isso pode ajudar a mobilizar energia. Mas se esta hormona se mantém elevada com regularidade, tendem a acumular-se efeitos menos favoráveis:

  • maior armazenamento de gordura, sobretudo na zona abdominal

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