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Dores nos joelhos ao pedalar: treinadores de desporto revelam o ajuste de selim frequentemente ignorado.

Ciclista corrige ou ajusta bicicleta de estrada numa zona urbana com árvores e banco ao lado.

Pedalas, uma volta após outra, a sentir-te forte. E depois, ao fim de alguns quilómetros, surge aquele puxão no joelho. Primeiro à esquerda; depois, uma pressão surda à direita. Baixas uma mudança, atribuis a culpa ao treino, à idade, a “esta semana foi demais”. Mas a picada não passa. E não te incomoda apenas a articulação: rouba-te também o prazer de pedalar.

Mais tarde, a tomar café com outras ciclistas e outros ciclistas, aparecem as explicações do costume: sobrecarga, sapatos errados, falta de alongamentos. Toda a gente acena com ar entendido. Ainda assim, quase ninguém diz a palavra que, muitas vezes, faz a diferença: inclinação do selim. Aquele ajuste mínimo para a frente ou para trás que passa despercebido - tão discreto como uma anilha esquecida. É precisamente nesse ângulo quase invisível que, para muita gente, está escondida a verdadeira origem das dores no joelho. E, muitas vezes, a solução.

Porque o teu joelho não é o verdadeiro problema

Quem anda de bicicleta confia no corpo de uma forma silenciosa: aplicas força no pedal, o joelho acompanha, e a musculatura faz o resto. Quando a dor aparece do nada, a sensação é de pequena traição. É comum reagir por instinto com joelheiras, gel frio ou rotinas de alongamento mais agressivas. O olhar fica preso no joelho, como se fosse o culpado principal. Só que, na prática, o joelho costuma ser mais mensageiro do que autor do problema.

Um treinador desportivo disse-me uma vez: “Quando alguém me procura por dores no joelho, a última coisa que eu olho é o joelho.” Parece contraintuitivo, mas é aí que está o ponto. As forças que atravessam o joelho já foram “moldadas” antes - na anca, na bacia e, sobretudo, na forma como estás sentado. Se o selim estiver apenas um pouco demasiado inclinado para a frente, a bacia escorrega a cada pedalada, a musculatura tenta compensar, e os tendões deixam de trabalhar no seu trajecto natural. O que sentes no joelho é o fim de uma cadeia longa, não o início.

Vê este caso: a Ana, 34 anos, vai de bicicleta para o trabalho há dois anos. São 14 quilómetros para cada lado, percurso plano, sempre a mesma rota. Até que chega o momento em que ela diz: “Que estranho, ao quilómetro oito começa-me a doer o joelho direito.” Segue-se o guião clássico: ortopedista, ressonância magnética, suspeita de sobrecarga. Pausa no treino, analgésicos, fisioterapia. Mal volta a pedalar, a dor regressa.

A viragem não acontece no consultório, mas numa oficina banal. Um treinador experiente observa a bicicleta, coloca um pequeno nível de bolha em cima do selim e franze a testa.

O selim estava inclinado para baixo na ponta - apenas alguns milímetros. Nada de dramático, quase ridículo. A Ana garante que nunca mexeu em nada. Pode ser verdade. Talvez um parafuso de aperto menos bem apertado tenha cedido lentamente com o tempo. O treinador endireita o selim para ficar praticamente horizontal e, no fim, dá-lhe um toque mínimo para trás. “Experimenta assim durante uma semana”, diz ele. Sem fitas, sem cremes, sem grandes discursos.

A Ana sai para pedalar. Nos primeiros quilómetros, tudo parece estranho, como se estivesse noutra bicicleta. Dez dias depois, ela volta a dar notícias: dor no joelho? Desapareceu. Não aliviou um pouco - desapareceu.

O que é que mudou? A inclinação do selim define onde a tua bacia assenta e, por consequência, como os joelhos são guiados para a frente durante a pedalada. Se inclinares demasiado a ponta do selim para baixo, escorregas subtilmente para a frente, colocas mais peso nas mãos e obrigas o joelho a trabalhar num ângulo mais fechado sobre o pedal. A rótula passa a “correr” ligeiramente desalinhada na sua ranhura a cada rotação. Se, pelo contrário, inclinares demasiado para trás, ficas mais “atrás” do pedaleiro: a parte posterior da coxa fica tensa, a parte anterior empurra sob maior esforço, e o joelho trabalha com mais tensão no momento de extensão. Em ambos os casos, o joelho torna-se o ecrã onde se projecta uma inclinação do selim que não combina com o teu corpo.

A pequena afinação da inclinação do selim que pode mudar tudo

A estratégia de que muitos treinadores falam - quase em segredo - é embaraçosamente simples: antes de mexer na altura do selim ou na posição para a frente/para trás, começam por verificar o ângulo. O ponto de partida é uma superfície praticamente horizontal.

Coloca um nível de bolha pequeno ou uma aresta recta (uma régua, a lombada de um livro) sobre o selim. A bolha deve ficar o mais centrada possível. A partir daí, treinadores experientes ajustam, regra geral, no máximo um a dois graus para a frente ou para trás - não mais. Essa micro-rotação decide se ficas estável sobre a bacia ou se passas o tempo todo a escorregar para a frente.

Uma regra prática: quem tem rótulas sensíveis ou tende a dor na parte da frente do joelho beneficia muitas vezes de um selim ligeiramente inclinado para trás, para distribuir melhor a carga pela bacia. Já quem desenvolve dor forte na parte de trás do joelho (na zona da dobra) costuma ter o conjunto demasiado alto ou demasiado recuado. E há uma verdade simples que vale a pena guardar: sejamos honestos - quase ninguém verifica este ângulo com regularidade, apesar de ele poder mudar com o tempo por causa de materiais, apertos e quedas. O resultado aparece meses depois na articulação, não na braçadeira do selim.

Alguns treinadores comentam, discretamente, que muitos ajustes profissionais de bicicleta (bike fit) falham porque toda a gente se fixa em milímetros na altura do selim e trata o ângulo como um detalhe menor. Um coach experiente resumiu assim:

“A maioria dos ciclistas amadores anda numa boa bicicleta, mas com um selim instável. E um selim instável faz joelhos instáveis.”

  • Começa com o selim neutro - põe primeiro o selim praticamente horizontal e só depois ajusta, no máximo, um a dois graus.
  • Uma alteração por semana - caso contrário, mais tarde não consegues perceber o que realmente ajudou.
  • Regista as voltas - anota, de forma breve, quando e onde aparece a dor no joelho, para encontrares padrões.

O que muda quando a dor abrandar

Quando começas a experimentar conscientemente a inclinação do selim, a tua forma de olhar para o ciclismo altera-se. Passas a escutar o corpo com mais precisão: onde é que estou, de facto, sentado? Estou a “puxar” o corpo para a frente com os braços ou estou apoiado na bacia? O joelho deixa de ser apenas a vítima que protesta a cada pedalada e passa a funcionar como um sensor - um sensor que te dá feedback bastante honesto.

Em voltas longas, detectas mais cedo pequenas mudanças; no trajecto para o trabalho, já não segues em piloto automático por cima da dor - perguntas antes: “O que é que a articulação me está a tentar dizer?”

Muita gente que consegue reduzir assim as dores no joelho descreve um efeito secundário inesperado: pedala mais relaxada. Não é apenas por estar numa posição mecanicamente mais correcta; é também pela sensação de controlo. Já não és “o joelho condenado” que tem de ser calado com alongamentos e pomadas. És alguém que aprende a ler a bicicleta, passo a passo. E mesmo que nem todas as queixas se resolvam com uma chave Allen, esta pequena regulação do selim - tantas vezes ignorada - é um convite silencioso: olhar com atenção antes de desistir. Talvez, por trás de muitos “joelhos estragados”, exista apenas um selim que nunca esteve realmente bem afinado.

Ponto-chave Detalhe Mais-valia para o leitor
Inclinação do selim como factor decisivo Alterações mínimas de ângulo (1–2 graus) podem influenciar muito as dores no joelho Permite optimização rápida e barata sem equipamento especializado
Ponto de partida neutro Ajustar primeiro o selim para ficar praticamente horizontal e depois testar para a frente ou para trás Diminui o risco de afinações erradas e torna os efeitos mais fáceis de perceber
Entender o joelho como “sensor” Observar conscientemente o local e o momento da dor, em vez de apenas a tratar Ajuda a treinar de forma mais inteligente e a detectar sobrecargas mais cedo

FAQ:

  • Como percebo se o meu selim está demasiado inclinado para a frente? Normalmente, estás sempre a escorregar para a frente, sentes muita pressão nas mãos e as dores aparecem mais na parte da frente do joelho, sobretudo a subir.
  • Consigo ajustar a inclinação do selim sem um profissional? Sim, com um nível de bolha pequeno ou uma aresta recta e alguma paciência. Avança em passos pequenos, testa em algumas voltas e toma notas.
  • Em quanto tempo desaparecem as dores no joelho depois do ajuste? Muitas pessoas sentem alívio evidente após poucas voltas; por vezes, são necessárias duas a três semanas para músculos e tendões se adaptarem à nova posição.
  • Mesmo assim, tenho de mexer na altura do selim e na posição para a frente/para trás? Muitas vezes, sim. A inclinação é apenas uma peça, mas funciona como um “multiplicador” das restantes regulações. Só o ajuste do conjunto traz verdadeira estabilidade ao sistema.
  • Quando devo ir ao médico por causa de dores no joelho? Se a dor surgir de forma súbita, for muito intensa, aparecer também no dia-a-dia sem bicicleta, ou se - apesar de ajustes e descanso - persistir por mais de duas a três semanas, faz sentido uma avaliação médica.

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