Muita gente inclui no dia a dia pizza congelada, snacks de pacote, cereais de pequeno-almoço açucarados e refrigerantes sem pensar duas vezes. Um grande trabalho de investigação vem agora sugerir o seguinte: uma alimentação muito assente em alimentos ultra-processados pode, sem dar sinal, reduzir as probabilidades de engravidar - e até interferir com o desenvolvimento inicial dos embriões.
O que são, afinal, alimentos ultra-processados (classificação NOVA)
O termo parece técnico, mas refere-se, na prática, a produtos industriais que pouco ou nada fazem lembrar os ingredientes de origem. Para os distinguir, a investigação recorre frequentemente à classificação NOVA, que agrupa os alimentos de acordo com o grau de processamento.
- Pouco ou nada processados: fruta, legumes, frutos secos, carne fresca, ovos
- Processados: queijo, pão de padaria, iogurte natural, conservas e alimentos em conserva
- Ultra-processados: pizza congelada, noodles instantâneos, batatas fritas de pacote, snacks doces, refrigerantes, muitos produtos prontos dirigidos a crianças
Os ultra-processados incluem muitas vezes combinações de farinhas refinadas, açúcar, sal, gorduras baratas, aromatizantes, corantes, emulsionantes e outros aditivos. São duradouros, baratos e práticos - mas é precisamente este “cocktail” que tem vindo a preocupar cada vez mais especialistas.
"O estudo atual mostra: quanto maior a proporção de alimentos ultra-processados na alimentação, menor a probabilidade de engravidar."
O estudo: quando a alimentação cruza o desejo de engravidar
Os dados analisados provêm de várias milhares de mulheres em idade fértil, acompanhadas durante anos. O padrão alimentar foi registado com detalhe e classificado segundo a NOVA. Em paralelo, a equipa avaliou quanto tempo demoravam a engravidar e também como evoluíam tratamentos de fertilização medicamente assistida, incluindo FIV.
O resultado aponta para uma tendência consistente: as mulheres que consumiam mais alimentos ultra-processados, em média, apresentavam menores hipóteses de engravidar. A análise teve em conta fatores relevantes como idade, índice de massa corporal, escolaridade e estilo de vida. Mesmo depois destes ajustes, a associação manteve-se.
Importa sublinhar: este trabalho não prova que os produtos prontos causem infertilidade de forma direta. Ainda assim, identifica uma ligação estatística robusta que merece ser levada a sério.
Mais ultra-processados, menos probabilidades - um efeito mensurável e gradual
A abordagem não foi do tipo “tudo ou nada”. À medida que a percentagem de ultra-processados aumentava na dieta, a probabilidade de engravidar diminuía de forma mensurável. Ou seja, o efeito parece ser progressivo, não um corte brusco.
Este padrão encaixa numa segunda observação-chave obtida em ciclos de FIV, onde é possível avaliar a qualidade dos embriões de forma direta - uma janela rara para os primeiros dias do desenvolvimento humano.
O que se vê nos embriões em laboratório (FIV)
Nos tratamentos de FIV, os embriões formam-se em laboratório e podem ser acompanhados ao microscópio. Os investigadores compararam embriões de mulheres com uma alimentação mais “natural”, com menos processados, com os de mulheres que consumiam mais refeições prontas e snacks.
A diferença foi clara: no grupo com maior ingestão de alimentos ultra-processados, surgiu com mais frequência uma proporção de embriões de qualidade inferior. A avaliação considerou critérios como:
- regularidade e ritmo da divisão celular
- organização/estrutura da massa celular
- estabilidade geral e viabilidade (capacidade de sobrevivência)
"O desenvolvimento embrionário inicial reage de forma sensível às condições no corpo da mãe - e isso inclui diretamente o que se come e bebe todos os dias."
Isto reforça a suspeita de que a alimentação pode influenciar o processo antes mesmo da gravidez: a qualidade dos óvulos, a sua maturação, a disponibilidade de energia e, depois, as primeiras divisões celulares após a fecundação.
Possíveis explicações: de défices nutricionais a inflamação
Porque é que uma pizza congelada poderia mexer com a fertilidade? O estudo não apresenta uma resposta definitiva, mas aponta vários mecanismos plausíveis que podem atuar em conjunto.
Excesso calórico com poucos nutrientes
Os ultra-processados tendem a fornecer muitas calorias, mas relativamente poucas vitaminas, minerais, fibra e ácidos gordos de boa qualidade. Assim, mesmo com “o prato cheio”, podem faltar componentes essenciais para produção hormonal, proteção celular e reparação do ADN.
Como os óvulos se desenvolvem durante meses no ovário, a estabilidade do meio e um bom aporte nutricional são determinantes. Se houver falta de, por exemplo, ácido fólico, ómega-3, vitamina D ou antioxidantes, a qualidade dos óvulos pode ressentir-se.
Inflamação crónica e stress oxidativo
Muitos produtos processados concentram quantidades elevadas de açúcar e gorduras saturadas. A longo prazo, isso pode favorecer um estado inflamatório de baixo grau. Em simultâneo, aumenta o chamado stress oxidativo: produzem-se mais moléculas reativas de oxigénio do que o organismo consegue neutralizar com os seus sistemas de defesa.
Células particularmente sensíveis - como óvulos e espermatozoides - podem reagir pior. Podem surgir danos no ADN, disfunções das mitocôndrias (os “motores” energéticos da célula) e erros nas divisões celulares.
Substâncias que interferem com o sistema hormonal
Outro ponto em foco são compostos com atividade hormonal. Podem ter origem em embalagens, revestimentos ou certos aditivos e, no organismo, interferir com o equilíbrio hormonal. Como o ciclo menstrual e a ovulação dependem de um ajuste muito fino, pequenas alterações podem ser suficientes para reduzir a fertilidade.
"Os investigadores falam de um 'longo período de preparação' da fertilidade: o que se come anos antes pode ter impacto mais tarde, quando surge o desejo de ter filhos."
Porque isto é também um tema de saúde pública
Em muitos países ocidentais, os alimentos ultra-processados já representam mais de metade da ingestão calórica diária. Ao mesmo tempo, cresce a percentagem de casais com dificuldades de fertilidade. Estimativas indicam que cerca de uma em cada seis mulheres, ao longo da vida, tem problemas para engravidar.
Este novo estudo sugere que os hábitos alimentares podem estar a contribuir para essa tendência. Soma-se ainda o que já é conhecido sobre os efeitos dos ultra-processados no aumento de peso, glicemia, tensão arterial e doenças cardiovasculares. Ou seja, a carga pode ser dupla: saúde geral e capacidade reprodutiva.
Como a alimentação é um fator modificável, especialistas veem aqui uma via concreta para prevenção. Educação alimentar, rotulagem clara e alternativas práticas no quotidiano podem ser particularmente relevantes para mulheres e homens que planeiam ter filhos nos próximos anos.
O que os casais com desejo de engravidar podem fazer, na prática
Ninguém precisa de mudar tudo de um dia para o outro para comer “perfeito”. Pequenos passos, repetidos com consistência, conseguem reduzir bastante a presença de ultra-processados. Exemplos simples:
- trocar refrigerantes por água, água com gás aromatizada com fruta (sem açúcar) ou chá sem açúcar
- substituir pizza congelada por uma sandes de pão integral com queijo, legumes e azeite
- limitar snacks como batatas fritas de pacote ou bolachas; optar por frutos secos, fruta ou iogurte
- cozinhar mais vezes em casa - pratos básicos com poucos ingredientes frescos já fazem diferença
- nas compras, preferir listas de ingredientes curtas: quanto menos aditivos/códigos, melhor
Para quem tem um desejo de engravidar concreto, pode ser útil rever hábitos 6 a 12 meses antes de uma gravidez planeada. Isso dá tempo ao organismo para criar reservas e para que óvulos potencialmente afetados sejam, gradualmente, substituídos por novos ciclos de maturação.
Termos importantes (explicação rápida)
Classificação NOVA: sistema que organiza os alimentos não pelos nutrientes (gordura, proteína, açúcar), mas pelo nível de processamento. Os ultra-processados constituem o nível mais alto.
Fase periconcecional: período em torno da conceção - semanas antes e depois da fecundação do óvulo. Nesta fase, o embrião é especialmente sensível a perturbações.
Stress oxidativo: desequilíbrio entre moléculas reativas de oxigénio e as defesas antioxidantes do corpo, com potencial para danificar ADN, proteínas e gorduras celulares.
Mais do que uma “moda” de alimentação
Os novos dados trazem para o centro um ponto frequentemente subestimado: a fertilidade não é um evento isolado no mês da ovulação. Constrói-se ao longo de anos, através da interação entre alimentação, peso, atividade física, nível de stress, exposições ambientais e predisposição genética.
Manter uma dieta baseada em produtos muito processados poupa tempo - mas pode ter um custo biológico que só se torna evidente mais tarde. Para casais com desejo de engravidar, pode valer a pena olhar para a alimentação não apenas como “engordar ou não engordar”, mas como um investimento na possibilidade de, de facto, virem a ser pais.
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