Dizer a alguém com TDAH para “se concentrar mais” é uma reacção frequente. A atenção dispersa-se, escapam pormenores, e isso costuma notar-se no desempenho quando as tarefas exigem esforço mental. Parte-se muitas vezes do princípio de que uma mente desfocada é, por definição, uma mente que rende menos.
Um novo teste com puzzles veio baralhar essa lógica. Num grupo de quase 300 participantes, as pessoas cuja atenção se desviava com mais facilidade resolveram problemas criativos com uma taxa superior à da maioria dos colegas - e, além disso, sem passar por um raciocínio consciente passo a passo.
TDAH e pensamento criativo
Investigadores da Universidade Drexel decidiram pôr à prova uma suspeita antiga entre cientistas cognitivos. Pessoas com sintomas marcados de TDAH parecem, muitas vezes, particularmente inventivas, mas estudos anteriores sobre esta ligação tinham produzido resultados fracos e pouco consistentes.
Hannah Maisano, doutoranda na Faculdade de Artes e Ciências da Drexel, conduziu a experiência com o autor sénior John Kounios, doutorado, neurocientista cognitivo na Drexel que estuda a neurociência do insight há duas décadas.
O pensamento criativo pode surgir de duas formas. Há um modo lento e deliberado, em que se explora hipótese após hipótese até que algo faça sentido. E existe um modo súbito, em que a solução aparece de uma vez, acompanhada por uma pequena sensação de certeza.
Na psicologia, essas respostas-relâmpago são conhecidas como momentos de “Aha”. A via deliberada costuma ser chamada de análise. As duas estratégias podem levar à solução do mesmo problema - mas o cérebro percorre caminhos distintos para lá chegar.
Por dentro dos puzzles de palavras
A equipa de Maisano recrutou 299 estudantes universitários, com idades entre os 18 e os 33 anos. Cada participante realizou uma tarefa muito usada em investigação sobre criatividade há mais de duas décadas, conhecida como o teste de Associações Remotas Compostas.
No ecrã surgem três palavras aparentemente aleatórias. O objectivo é encontrar uma quarta que se relacione com todas. Por exemplo: pinho, caranguejo e molho. A palavra-chave partilhada é maçã: ananás (maçã do pinho), maçã-brava (crabapple) e molho de maçã.
Depois de cada resposta correcta, os participantes indicavam como a solução tinha surgido. Chegaram lá de forma metódica, seguindo pistas passo a passo? Ou a palavra “apareceu” de repente, como se viesse do nada, já completa?
Ao longo do espectro
Todos os participantes tinham preenchido a Escala de Autorrelato de TDAH em Adultos, um questionário padrão que mede a frequência com que alguém sente desatenção, inquietação e impulsividade. A partir da pontuação, os investigadores dividiram-nos em grupos: pontuações mais altas versus mais baixas.
Em número total, ambos os grupos resolveram aproximadamente a mesma quantidade de puzzles. A diferença esteve no caminho. Os participantes com sintomas mais fortes apoiaram-se sobretudo no insight criativo: as respostas tendiam a surgir na consciência de forma súbita, em vez de serem construídas gradualmente.
Já os participantes com sintomas mais fracos dividiram os acertos entre insight e análise passo a passo. Consoante o puzzle, chegavam à palavra certa por uma via ou por outra.
“Descobrimos que os indivíduos que relatavam os sintomas de TDAH mais fortes recorriam significativamente mais ao insight para resolver problemas”, afirmou Maisano.
“Parecem favorecer um processamento inconsciente e associativo, capaz de gerar avanços criativos repentinos.”
Uma curva inesperada
Depois surgiu o inesperado. Quando a equipa analisou o total de puzzles resolvidos, verificou que as pessoas a meio da escala de sintomas tiveram o pior desempenho. Tanto o grupo com pontuações altas como o grupo com pontuações baixas ficou acima - com uma margem clara.
O padrão desenhou uma curva em U. Uma função executiva forte ajudava um dos grupos a vencer através da análise. Um controlo executivo mais solto permitia ao outro grupo vencer pela intuição. Quem ficava no meio não beneficiava plenamente de nenhuma das duas vantagens.
“Ter um controlo executivo muito alto ou muito baixo pode ser benéfico para a resolução criativa de problemas, mas chega-se à resposta certa por caminhos diferentes”, disse Chesebrough, co-autor que iniciou o projecto quando era doutorando na Drexel.
Vantagens criativas associadas à TDAH
Cientistas cognitivos apontam um possível mecanismo. O cérebro dispõe de uma espécie de filtro de atenção, um sistema que, em teoria, elimina o “ruído” de fundo e ajuda a manter o foco no que interessa. Quando funciona de forma eficiente, pensamentos irrelevantes ficam bloqueados.
Um filtro mais permeável, acreditam os investigadores, deixa entrar ideias estranhas e ligações mais frouxas. Na maior parte do tempo, isso é uma desvantagem. Mas em puzzles criativos, essas associações improváveis podem ser precisamente o que permite ligar os pontos.
Trabalhos anteriores já tinham sugerido vantagens criativas ligadas à TDAH, mas usavam tarefas abertas, nas quais várias respostas poderiam ser consideradas correctas. Este estudo é o primeiro a mostrar o mesmo padrão num puzzle com uma única resposta certa.
O que isto muda
Durante décadas, a TDAH foi descrita sobretudo a partir das suas repercussões negativas. Este resultado acrescenta algo ao outro lado da balança. Um caminho rápido e intuitivo para encontrar respostas associa sintomas fortes de TDAH a uma vantagem mensurável em tarefas criativas.
Para educadores e empregadores presos a uma lógica “análise primeiro”, há agora um motivo mais claro para abrir espaço a abordagens intuitivas, sobretudo entre pessoas que as regras habituais tendem a penalizar.
A implicação prática, argumentou Kounios, vai na mesma direcção. “Compreender estas forças pode ajudar as pessoas a aproveitar o seu estilo natural de resolução de problemas na escola, no trabalho e na vida quotidiana”, afirmou.
A TDAH não se transformou numa superpotência de um dia para o outro. Os custos da desatenção e da impulsividade são reais. Mas este perfil cognitivo deixa de ser apenas uma lista de défices.
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