Precisa de mais um motivo para gostar de abelhas? Para além de estas pequenas e peludas amigas das flores já conseguirem realizar aritmética muito simples, cientistas descobriram agora que também são capazes de reconhecer símbolos associados a números.
Tal como nós associamos o símbolo 7 (ou mesmo VII) a uma quantidade de sete, tudo indica que as abelhas conseguem estabelecer a mesma ligação.
Ou seja, não se limitam a perceber quantidades, adição e subtracção - também conseguem interpretar uma linguagem simbólica para essas ideias. Para um animal com um cérebro do tamanho de uma abelha, é um feito notável.
"Quando aprendemos os números em crianças, tomamos isso como garantido, mas reconhecer aquilo que '4' representa exige, na verdade, um nível sofisticado de capacidade cognitiva", explicou o cientista da visão Adrian Dyer, da Universidade RMIT, na Austrália.
"Estudos mostraram que primatas e aves também conseguem aprender a ligar símbolos a números, mas é a primeira vez que observamos isto em insectos."
Os investigadores já suspeitavam que tal pudesse acontecer. Em experiências anteriores e cuidadosas, tinham visto que as abelhas pareciam compreender símbolos de adição e subtracção, usando-os para efectuar aritmética muito básica.
Também já se sabe, com base em estudos anteriores, que as abelhas comunicam entre si através de uma complexa "dança do abanão", com a qual transmitem informação sobre onde procurar alimento.
Esta nova investigação vai mais longe: pela primeira vez, mostra que - tal como já foi demonstrado em humanos, chimpanzés e até pombos - também os invertebrados conseguem compreender e usar uma linguagem para a matemática.
(Howard e col., Proceedings of the Royal Society B, 2019)
Abelhas e símbolos numéricos: a ideia por trás do estudo
Para testar a capacidade de reconhecer símbolos numéricos, a equipa recorreu a uma versão modificada de um método anteriormente usado para mostrar que pombos conseguiam identificar símbolos de quantidade. Foram criados símbolos inventados, ou "sinais", e a cada um foi atribuída uma numerossidade; estes sinais foram então usados num labirinto em forma de Y.
O labirinto em Y e o treino com recompensas
As abelhas foram treinadas para voar dentro desse labirinto. Em cada ensaio, começavam por observar um estímulo - que podia ser um sinal ou uma imagem com duas ou três formas - e depois seguiam para a câmara de decisão, onde lhes eram apresentadas duas opções.
Quando o estímulo inicial era um sinal, as duas opções na câmara de decisão eram uma imagem com duas formas e outra com três formas; a abelha tinha de escolher o número de formas que correspondia ao sinal. Quando, pelo contrário, o estímulo inicial era um certo número de formas, as duas opções eram dois sinais diferentes, e a tarefa era seleccionar o sinal que correspondia à quantidade de itens observada.
Se a escolha fosse correcta - associando um sinal em forma de N a dois itens e um T invertido a três itens - a abelha recebia uma saborosa solução de açúcar. Uma resposta errada, por sua vez, resultava numa dose de quinino, inofensivo mas de sabor desagradável.
No final de 50 ensaios, as abelhas estavam a corresponder sinais a numerossidades com uma precisão de cerca de 75 por cento. Depois, os investigadores alteraram as condições, introduzindo novas cores, padrões e formas, para perceber se as abelhas estavam realmente a fazer a associação entre numerossidade e símbolo - e não apenas a memorizar a imagem como um todo.
Mesmo com essas mudanças, as abelhas continuaram a corresponder os símbolos com base no número de formas presentes na imagem.
O que os resultados sugerem sobre o cérebro das abelhas
Apesar do desempenho, as abelhas não conseguiram aprender a tarefa no sentido inverso. Quando o estímulo de treino tinha sido um sinal, não voltavam a aprender partindo de um estímulo de numerossidade - e o mesmo acontecia ao contrário.
"Isto sugere que o processamento numérico e a compreensão de símbolos acontecem em regiões diferentes do cérebro das abelhas, de forma semelhante ao que ocorre no cérebro humano, onde há processamento separado", afirmou a zoóloga Scarlett Howard, da Université Toulouse III - Paul Sabatier.
"Os nossos resultados mostram que as abelhas-melíferas não estão ao mesmo nível dos animais que conseguiram aprender símbolos como números e realizar tarefas complexas."
Além disso, o trabalho não demonstra que as abelhas compreendam a quantidade em si - apenas que conseguem fazer corresponder uma quantidade a um símbolo e que não conseguem aprender essa correspondência de forma inversa.
Ainda assim, esta investigação ajuda a esclarecer como se dá a aprendizagem e como o cérebro constrói ligações entre conceitos, podendo também lançar as bases para uma ponte de comunicação, até aqui desconhecida, entre humanos e abelhas.
"Os humanos têm mais de 86 mil milhões de neurónios no cérebro, as abelhas têm menos de um milhão, e estamos separados por mais de 600 milhões de anos de evolução", disse Dyer.
"Mas, se as abelhas têm capacidade para aprender algo tão complexo como uma linguagem simbólica criada por humanos, isto abre caminhos novos e entusiasmantes para futuras formas de comunicação entre espécies."
O estudo foi publicado na revista Proceedings of the Royal Society B.
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