Num 1.º de Maio marcado por protestos nas ruas e num país em que o mês parece esticar mais do que o salário, o presidente da República saiu em defesa de quem todos os dias faz sacrifícios e vê a inflação reduzir-lhe o rendimento. António José Seguro deixou o aviso de que "o trabalho tem de compensar" e recordou que a resposta dos trabalhadores "nunca foi a resignação". A prova esteve ontem nas milhares de pessoas que assinalaram o Dia do Trabalhador com palavras de ordem contra o pacote laboral, cuja contestação se intensifica. Luís Montenegro optou por não reagir às palavras do chefe de Estado e voltou a colocar pressão sobre a UGT.
Numa nota divulgada no site da Presidência da República, António José Seguro sublinhou que "Este ano, o Dia do Trabalhador encontra-nos num tempo de muitas inquietações", num cenário condicionado por guerras, desaceleração económica e subida do custo de vida. Nesse contexto, alertou para uma inflação que "corrói o salário antes de ele chegar ao fim do mês".
"A precariedade não é uma lei da natureza. E o trabalho tem de compensar - tem de pagar a renda, a alimentação e o futuro dos filhos". António José Seguro, presidente da República.
O presidente assinalou ainda que o país já atravessou outras fases difíceis e que "a resposta nunca foi a resignação". Daí a referência à "luta por direitos" perante uma precariedade que, segundo descreveu, "instalou-se em demasiados contratos, em demasiadas vidas, como se fosse uma inevitabilidade". E fechou com uma promessa em tom de recado: "Nunca aceitarei em silêncio que quem trabalha não consiga viver com dignidade".
A intervenção, invulgarmente política vinda do mais alto cargo da República, encontrou eco nas ruas, com milhares a saírem em várias cidades em defesa dos trabalhadores e com o pacote laboral como alvo central.
Montenegro não quis responder
À margem de uma visita a Melgaço, Luís Montenegro falou durante quase dez minutos sobre o pacote laboral, mas manteve-se em silêncio e retirou-se quando, já no final, foi questionado sobre o presidente.
"Este é um Governo que valoriza o trabalho", assegurou antes, dando conta que já deu "muitas mostras de disponibilidade e de cedência". Embora manifeste "liberdade total para negociar", voltou a pressionar a UGT a aceitar o acordo: "O parceiro social que tem menos cedência neste momento é claramente a UGT. Não há ninguém à volta da mesa da Concertação que não tenha tirado esta conclusão. Nem a UGT vai desmentir isto, é assim, é factual. A UGT tem toda a liberdade de dizer que não quer ceder, mas não tem é o direito de dizer que a teimosia é nossa".
PS: "Deve deixar cair este pacote"
Para além do anúncio da greve geral (ler ao lado) pela CGTP, também o líder do PS endureceu o tom e, pela primeira vez, pediu o recuo total do Governo. "Faço-lhe um apelo: deve deixar cair esta teimosia e deixar cair este pacote laboral, porque ele ofende", afirmou José Luís Carneiro, na festa da UGT.
Pouco depois, André Ventura sustentou que "dificilmente se vê em que é que esta reforma laboral melhora a produtividade e a economia". À esquerda da AD, a oposição ao pacote é transversal.
UGT não cederá a "traves mestras" e CGTP apela à greve geral
As duas maiores centrais sindicais voltaram ontem a reiterar a oposição às alterações às leis laborais. A CGTP apelou à participação na greve geral de 3 de junho e a UGT garantiu que não recuará perante as "traves mestras" do Governo.
"Vamos afirmar a nossa indignação e protesto, a exigência de uma vida melhor, da derrota do pacote laboral, vamos afirmar a poderosa força dos trabalhadores. Todos juntos vamos realizar uma grande greve geral no próximo dia 03 de junho", disse Tiago Oliveira, no comício final da manifestação que assinalou as comemorações do Dia do Trabalhador da CGTP, em Lisboa.
O secretário-geral da CGTP chamou todos os trabalhadores "para a luta" e à "convergência de todas as estruturas" sindicais, insistindo na rejeição do pacote laboral e acrescentando que aquilo que o Governo "está a fazer é um dos maiores ataques de sempre". Representa "um autêntico retrocesso para quem trabalha", reforçou. No fecho de uma manifestação com cerca de duas horas, Tiago Oliveira defendeu também um aumento salarial de 15%, num montante não inferior a 150 euros, em resposta à subida do custo de vida.
Unidos e sem cedências
Do lado da UGT, Mário Mourão afirmou, sem identificar protagonistas, que houve tentativas de dividir a central, mas que a organização está hoje mais coesa do que nunca. "Foi unidos que dissemos um "rotundo não" ao anteprojeto em julho do ano passado. Foi unidos que dissemos que íamos para a greve geral. E foi unidos que recusámos agora um anteprojeto que não evoluiu nas matérias fundamentais", declarou no discurso de 1.º de maio, na festa dos trabalhadores organizada pela central no Centro Desportivo do Jamor, em Oeiras.
"A UGT não cedeu. A UGT não vai ceder perante aquilo que são as traves mestras do Governo", afirmou, recebendo uma salva de palmas dos trabalhadores presentes. Em seguida, salientou que a UGT recusou "sempre esta conceção de diálogo e esta estratégia do Governo", defendendo que "a negociação verdadeira, ao contrário do que alguns pensam, não é a cedência ou a capitulação de um lado".
Sem esclarecer se a UGT se juntará à greve geral convocada pela CGTP para 3 de junho, Mário Mourão evocou o passado recente e referiu por duas vezes a greve de 11 dezembro de 2025. A decisão, frisou, só será tomada depois da conclusão das negociações, caso estas falhem.
Trabalhadores em Portugal
Temporários
Na UE, quase 13% dos trabalhadores por conta de outrem têm contratos temporários, enquanto em Portugal a percentagem está nos 15,1%, revelou ontem a Pordata.
Por conta própria
Em Portugal, a proporção de trabalhadores que exercem atividade por conta própria é de 14,7%, acima da média da UE (13,7%).
Com mais horário
Portugal é o 5.º país da União Europeia com a carga horária semanal mais elevada. Em média, são 39,7 horas.
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