O cancro da mama continua a ser, à escala mundial, o diagnóstico oncológico mais frequente nas mulheres - e a incidência não pára de crescer. Uma grande análise com informação de mais de 200 países aponta agora para um dado difícil de ignorar: uma parte relevante do risco está ligada a comportamentos concretos, ou seja, a escolhas do dia a dia que muitas mulheres conseguem, de facto, alterar. A mensagem pode ser desconfortável, mas também é mobilizadora - mudanças de estilo de vida podem reduzir de forma clara o risco individual.
O que a nova análise mundial revela de facto
O estudo, publicado numa revista científica de grande reputação, recorreu a dados de 204 países, abrangendo o período entre 1990 e 2023. Em vez de se limitar a contabilizar novos casos e mortes, a equipa calculou um indicador mais refinado: os chamados “anos de vida saudáveis” perdidos devido ao cancro da mama - quer por morte prematura, quer por anos vividos com limitações significativas.
Em 2023, perderam-se globalmente cerca de 24,3 milhões desses anos de vida saudáveis por causa do cancro da mama. Deste total, aproximadamente 6,8 milhões - isto é, 28 por cento - podem ser atribuídos diretamente a seis fatores de estilo de vida modificáveis.
"Os dados sugerem: cerca de uma em cada quatro mulheres com cancro da mama poderia ter reduzido claramente o seu risco com hábitos diferentes."
Na leitura dos autores, os riscos agrupam-se em dois grandes blocos:
- Fatores metabólicos: como obesidade marcada e valores de glicose no sangue persistentemente elevados
- Fatores comportamentais: sobretudo tabagismo, falta de atividade física e determinados padrões alimentares
As diferenças regionais são evidentes. Em países mais ricos da América do Norte e da Europa Ocidental, em média 32 por cento dos anos de vida saudáveis perdidos relacionam-se com estes fatores influenciáveis; no Sul da Ásia, a proporção é de 24 por cento. Um dos motivos apontados é simples: alimentação, prevalência de excesso de peso e movimento no dia a dia variam muito de região para região.
Os seis principais fatores de risco no quotidiano
1. Consumo elevado de carne vermelha
O fator isolado com maior peso na análise é a ingestão elevada de carne vermelha. Este comportamento representa cerca de 11 por cento da carga global associada ao cancro da mama, medida em anos de vida saudáveis perdidos.
Por carne vermelha entende-se sobretudo vaca, porco e borrego. O problema tende a surgir quando grandes quantidades são consumidas durante anos, particularmente quando a carne é muito tostada ou grelhada. A exposição a temperaturas altas favorece a formação de substâncias que podem danificar células. Em alguns produtos, somam-se ainda hormonas e resíduos associados à produção animal.
2. Tabagismo
Logo a seguir surge o tabaco, responsável por cerca de 10 por cento dos anos de vida saudáveis perdidos por cancro da mama. Muitas pessoas associam imediatamente o tabagismo ao cancro do pulmão, mas o fumo do tabaco afeta o organismo como um todo. As toxinas entram na corrente sanguínea, chegam ao tecido mamário e podem interferir com células e com o equilíbrio hormonal.
O fumo passivo também conta. Mulheres que vivem ou trabalham com fumadores intensos apresentam um risco superior ao de não fumadoras em ambientes sem fumo.
3. Glicose no sangue persistentemente elevada
Em terceiro lugar aparece uma carga de glicose anormalmente alta, à qual são atribuídos cerca de 9 por cento da carga da doença. Não se trata apenas de diabetes já diagnosticada, mas também da fase prolongada que a antecede, em que os valores sobem gradualmente.
Quando a glicose se mantém elevada de forma contínua, o metabolismo desequilibra-se, processos inflamatórios são estimulados e os níveis hormonais podem alterar-se. Este conjunto cria um contexto em que células cancerígenas têm mais facilidade em surgir e proliferar.
4. Excesso de peso e obesidade
Um índice de massa corporal elevado contribui com cerca de 7 por cento para o quadro geral. O tecido adiposo não é apenas um “depósito” inerte: produz substâncias sinalizadoras e hormonas. Isto torna-se particularmente relevante após a menopausa, altura em que os estrogénios passam a ser produzidos sobretudo no tecido adiposo; em excesso, podem elevar o risco de cancro da mama.
5. Álcool
O consumo de álcool está associado, nesta análise, a cerca de 5 por cento dos anos de vida saudáveis perdidos. Mesmo quantidades regulares consideradas “normais” fazem o risco subir de forma mensurável. O álcool é convertido no organismo em acetaldeído, uma substância capaz de danificar o ADN. Em paralelo, o álcool pode mexer com o sistema hormonal, incluindo o nível de estrogénios.
6. Inatividade física
A falta de atividade física explica cerca de 4 por cento da carga da doença. Quem passa muitas horas sentado e raramente se mexe tende a desenvolver menos massa muscular, gastar menos energia e apresentar mais frequentemente dificuldades com peso, glicose e tensão arterial. A atividade física, pelo contrário, funciona como uma medida “multifunções”: reduz inflamação, ajuda a estabilizar hormonas e reforça o sistema imunitário.
Até que ponto é possível reduzir o risco?
Os investigadores modelaram um cenário: se todos os países conseguissem reduzir a exposição a estes seis fatores até ao nível dos 10 por cento da população mundial mais bem posicionada, poderiam ser “salvos” anualmente cerca de 1,9 milhões de anos de vida saudáveis.
"Mesmo mudanças moderadas em vários hábitos ao mesmo tempo podem ter mais impacto do que uma alteração radical num único ponto."
Segundo o estudo, uma combinação particularmente eficaz assenta em quatro medidas:
- Limitar a carne vermelha a uma ou duas porções por semana
- Procurar um peso saudável e evitar oscilações de peso
- Garantir pelo menos 150 minutos de atividade física por semana, por exemplo caminhada rápida, ciclismo ou natação
- Sem tabaco e com o mínimo de álcool possível
Estas recomendações apoiam-se em múltiplos estudos de longa duração com centenas de milhares de mulheres acompanhadas durante décadas. A novidade desta análise é reunir esses resultados numa perspetiva verdadeiramente global.
Porque é que as mulheres mais jovens passam a estar mais no centro das atenções
Um dado particularmente inquietante é o seguinte: entre mulheres com menos de 30 anos, a frequência de cancro da mama aumenta ligeiramente todos os anos. Durante muito tempo, esta faixa etária foi vista como relativamente protegida - e os números sugerem que a realidade está a mudar.
Os autores apontam razões possíveis, ligadas a uma adoção mais precoce de comportamentos de risco: alimentação muito rica em carne e açúcar, consumo elevado de produtos ultraprocessados, muitas horas sentadas por causa de estudo, trabalho de escritório ou tempo prolongado de ecrã - frequentemente somados a tabaco e a episódios ocasionais de consumo excessivo de álcool.
Por isso, a prevenção idealmente começa cedo, ainda na escola e na formação. Criar rotinas saudáveis na juventude significa levar essa proteção para as décadas seguintes.
Diferenças globais - e o que a Alemanha pode aprender com estes dados
A mortalidade varia de forma marcada entre regiões. Em países a sul do Saara, morrem em média 28 em cada 100.000 mulheres com cancro da mama; no mundo, o valor médio situa-se nos cerca de 13. Na Europa Ocidental, são apenas aproximadamente 11, apesar de aí serem diagnosticados mais casos.
Esta vantagem está sobretudo associada a melhor acesso a rastreio e tratamento. Ainda assim, a análise sublinha outro ponto: mesmo onde os sistemas de saúde estão bem estruturados, o estilo de vida pode continuar a empurrar o risco para cima se não houver medidas que contrariem a tendência.
Os autores referem que políticas públicas podem fazer diferença: tributação de produtos de carne fortemente processados, rotulagem nutricional clara, proteção contra o fumo, ciclovias seguras, parques acessíveis e oferta de desporto e atividade física no quotidiano. Vários países que atuaram de forma consistente nestas frentes registam, desde 1990, uma redução da mortalidade por cancro da mama de cerca de 30 por cento.
Como ajustar o dia a dia de forma prática
A diferença entre saber e conseguir fazer é grande, sobretudo com rotinas cheias. Por isso, pode ajudar pensar em passos pequenos e cumulativos:
- Introduzir um dia sem carne por semana como ponto de partida
- Trocar o almoço à secretária por uma caminhada curta
- Sair uma paragem antes no caminho para o trabalho
- Substituir bebidas açucaradas por água ou chá sem açúcar
- Reservar bebidas alcoólicas para ocasiões especiais
- Para fumadoras: começar por contar conscientemente cada cigarro e, depois, preparar um plano de cessação com apoio médico
Estas medidas não atuam de forma isolada. Reduzir açúcar facilita controlar o peso, mexer-se mais melhora os valores de glicose, beber menos ajuda o fígado - e, em simultâneo, o risco diminui para vários tipos de cancro, doenças cardiovasculares e diabetes.
O rastreio continua a ser indispensável
Apesar do potencial do estilo de vida, nem todos os casos são evitáveis. Fatores genéticos, idade e acaso mantêm o seu papel. Por isso, a deteção precoce continua a ser decisiva.
As mulheres devem tirar partido dos exames de vigilância disponíveis. Conforme a idade e o programa nacional, isso inclui o rastreio por mamografia. Como complemento, pode ser útil palpar regularmente a mama e, perante alterações, procurar aconselhamento médico sem demora.
Quem tem risco familiar acrescido - por exemplo, vários familiares próximos com cancro da mama ou do ovário - deve referi-lo explicitamente na consulta. Nesses casos, podem ser consideradas vigilâncias mais intensas ou consultas de aconselhamento genético.
O que significa, na prática, “anos de vida saudáveis”
A análise baseia-se num indicador pouco usado no quotidiano: os “anos de vida saudáveis”. A lógica é não contar apenas mortes, mas também o tempo vivido com limitações importantes - por exemplo devido a tratamentos repetidos, dor crónica ou efeitos adversos graves.
Se uma mulher perde cerca de dez anos de vida por morte prematura e, além disso, teria vivido mais cinco anos com forte incapacidade, então, neste cálculo, perdem-se 15 anos de vida saudáveis. Esta perspetiva ajuda a perceber o quanto se ganha quando uma doença é evitada ou quando o seu impacto é significativamente reduzido.
É precisamente aqui que entram os seis fatores modificáveis. Não são uma garantia de vida sem cancro, mas alteram as probabilidades de forma palpável. Ajustar hábitos não é apenas uma medida contra o cancro da mama: é um investimento diário na saúde do organismo como um todo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário