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A regeneração de tecidos está mais próxima com ossos, músculos e cartilagens cultivados em laboratório

Cientista jovem em laboratório a observar modelo 3D de célula com sorriso, usando bata e luvas.

Durante anos, a pergunta não foi se era possível “fabricar” tecido em laboratório, mas se esses materiais conseguiriam reproduzir, com fidelidade, o que o corpo precisa para reparar uma lesão real. Agora, há um avanço concreto na reconstrução de tecidos que mostra que osso, cartilagem, músculo e tecido semelhante a gordura podem ser regenerados a partir de células estaminais da medula óssea.

O trabalho também deixa claro até onde já chegaram os materiais de reparação cultivados em laboratório - e muda o foco para a etapa mais exigente: perceber se estes enxertos conseguem manter-se viáveis e integrar-se no organismo humano.

From cells to shaped tissue

No interior de estruturas de suporte (scaffolds) impressas em 3D, os tecidos engenheirados formaram formas definidas que correspondem a estruturas biológicas danificadas.

Investigadores do Instituto Politécnico Nacional (IPN), liderados por Jorge Vela Ojeda, demonstraram que células estaminais da medula óssea podem ser orientadas para crescerem em vários tipos de tecido.

Em vez de surgirem como uma massa uniforme, os tecidos desenvolveram-se em formas distintas, refletindo a estrutura de osso, cartilagem, músculo e gordura.

Essa diferenciação traz um novo desafio: conseguir dar forma ao tecido em condições controladas não garante que ele sobreviva ou se integre depois de implantado.

Multiple outcomes of stem cells

As células estaminais mesenquimais estão no centro do projeto - uma população da medula que, com os estímulos certos, pode tornar-se osso, cartilagem e gordura.

Ao contrário das células estaminais formadoras de sangue, são não hematopoiéticas, o que significa que pertencem ao sistema de tecido que sustenta a medula óssea - e não ao sistema que produz sangue.

Os investigadores valorizam-nas não apenas pelo potencial de diferenciação, mas também pelos sinais de reparação que libertam em redor de tecido lesionado.

Esse duplo papel - construir e sinalizar - ajuda a explicar porque surgem repetidamente em estudos de regeneração.

Harvesting from original sources

A matéria-prima deste estudo vem da medula óssea, o tecido mole no interior dos ossos que alberga várias populações de células estaminais.

Vela referiu que a via de recolha mais simples é a aspiração a partir da crista ilíaca, a borda superior da bacia, usando uma agulha.

A quantidade disponível ali, de forma natural, é pequena. Ainda assim, o grupo do IPN afirma que o volume pode ser expandido em laboratório antes de ser utilizado.

Essa capacidade de multiplicar células escassas transforma uma amostra mínima em algo suficientemente grande para testar.

Scaffold structure support

Depois de expandidas, as células foram colocadas sobre scaffolds - suportes impressos em 3D que dão forma ao tecido em crescimento e uma superfície onde se possa fixar.

Em seguida, os investigadores ajustaram o “constructo” a uma fratura teimosa ou a outra zona lesionada, em vez de deixarem crescer uma massa sem direção.

O objetivo foi produzir osso, tecido conjuntivo e músculo que se encaixassem numa fratura que não consolida ou num órgão específico.

Aqui, a estrutura não é um detalhe estético: a geometria pode determinar se o tecido reparado se integra no corpo ou falha quando é submetido a esforço.

Healing signals at work

A reparação não depende apenas de as células se fixarem e passarem a “morar” no local. O interesse médico concentra-se nas proteínas e nas pequenas vesículas que estas células libertam. Observa-se, em particular, quais ajudam a reduzir a inflamação e a promover a formação de novos vasos sanguíneos.

Isto é importante porque uma área lesionada muitas vezes precisa primeiro de um ambiente de cicatrização mais favorável antes de conseguir reconstruir-se.

Mesmo assim, um constructo que funciona numa placa pode comportar-se de forma diferente quando entram em cena o fluxo sanguíneo, os sinais do sistema imunitário e as forças mecânicas.

The challenge of consistency

Antes de qualquer implante chegar a um doente, a ciência tem de passar por um teste bem menos glamoroso: disciplina de fabrico.

Células mantidas em cultura durante demasiado tempo podem sofrer mutações, desviar-se para uma identidade errada ou crescer de formas que ninguém pretendia.

Os reguladores procuram esterilidade, pureza, comportamento estável e evidência de que o produto não criará novos danos após a implantação.

Esses controlos tornam o avanço mais lento, mas também separam a medicina regenerativa credível do marketing baseado em promessas.

Guardrails for new therapies

As orientações internacionais são claras: produtos celulares complexos não devem passar diretamente de resultados promissores em laboratório para cuidados de rotina.

As diretrizes da International Society for Stem Cell Research (ISSCR) indicam que a segurança e a eficácia têm de ser demonstradas em ensaios clínicos antes de uso padrão.

Também pode ser necessária monitorização a longo prazo, porque produtos celulares transplantados podem persistir e gerar problemas mais tarde.

Assim, o próximo passo da equipa - utilização em doentes com apoio do IMSS - será muito mais exigente e difícil.

Knowledge from the clinic

A experiência clínica também influencia a rapidez com que um projeto destes amadurece. Depois de 23 anos a liderar a hematologia num hospital especializado na Cidade do México, Vela viu muitos resultados laboratoriais falharem.

“Isto vai ajudar esta área a desenvolver-se muito mais depressa”, disse Ojeda.

Essa promessa, ainda assim, depende de melhores experiências e de evidência clara - não apenas de automatização.

Competing in regenerative medicine

O México entrou agora neste campo devido a esta investigação, mas Vela observou que os Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e Alemanha foram os que mais avançaram.

A medicina regenerativa progride quando biologia, materiais, cirurgia e regulação avançam em conjunto.

O resultado do IPN é relevante porque liga uma universidade pública, uma escola médica e um sistema nacional de saúde em torno de tecidos que não cicatrizam.

Se essa colaboração se transformará numa terapia dependerá de resultados reprodutíveis - não do impacto dramático que o marco inicial possa sugerir.

A parte mais difícil já não é moldar células da medula óssea em tecido de substituição, mas levar esse tecido, com segurança, até à clínica.

Se os investigadores conseguirem fechar essa distância com fabrico limpo, ensaios e acompanhamento comprovado, a medicina regenerativa no México tem um futuro promissor.

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