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Microquimerismo materno: como células da mãe permanecem no corpo dos filhos

Mãos de uma criança e de um adulto dadas sobre uma mesa com alguns objetos médicos à frente.

A gestação pode terminar, o cordão é cortado, mas a ligação física entre mãe e filho não desaparece: mantém-se ativa, invisível e silenciosa.

Em muitos adultos que vivem hoje, continuam a circular células maternas recebidas durante a gravidez e aceites pelo organismo décadas após o parto. A investigação começa, agora, a perceber como é possível esta convivência improvável - e o que ela pode revelar sobre imunidade, doença e até sobre a nossa própria identidade biológica.

O que é o microquimerismo materno

Este fenómeno é conhecido, em ciência, por microquimerismo materno. Em termos práticos, significa que permanece no corpo do filho um número muito reduzido de células da mãe muito tempo depois de a gravidez terminar.

Durante a gestação, algumas células atravessam a placenta e fixam-se em diferentes tecidos do feto. E, após o nascimento, não desaparecem por completo: há estudos a mostrar que podem ser detetadas muitos anos - até décadas - mais tarde.

Em média, estima-se que uma, entre cerca de um milhão de células em uma determinada região do corpo, possa ser de origem materna - uma minoria quase invisível, mas biologicamente ativa.

Este trânsito não acontece apenas num sentido. A mãe também pode reter células do feto, que permanecem no seu organismo por longos períodos. Este intercâmbio de mão dupla acaba por formar uma espécie de “arquivo biológico” partilhado entre gerações.

Onde essas células da mãe se escondem

Já foram encontradas células maternas em várias zonas do corpo dos filhos, incluindo:

  • Fígado
  • Coração
  • Pele
  • Sangue periférico
  • Cérebro e sistema nervoso central

Não estamos a falar de grandes porções de tecido materno, mas sim de pequenas “ilhas” celulares dispersas. Ainda assim, a evidência sugere que o efeito biológico pode ser maior do que o número de células faria supor.

Por que o sistema imunológico não as destrói

Em teoria, o sistema imunitário deveria identificar estas células como intrusas. Elas transportam genes da mãe e, portanto, diferem do “padrão” genético do filho. Pela lógica clássica da imunologia, o organismo tenderia a atacar aquilo que considera estranho.

Na realidade, porém, acontece o oposto: a maioria destas células é tolerada e pode permanecer durante toda a vida. Um trabalho feito em ratos e publicado na revista Immunity ajuda a esclarecer esta aparente contradição.

O papel das células educadoras

No estudo, os investigadores seguiram o comportamento de células maternas provenientes da medula óssea. Estas células exibem marcadores específicos - como LysM e CD11c - típicos de células mieloides ou dendríticas, conhecidas por coordenarem respostas imunitárias.

Numa fase muito precoce da vida, estas células funcionam como “professoras” do sistema imunitário em desenvolvimento. Ao interagirem com o organismo fetal, favorecem a formação de um subconjunto particular de linfócitos: as células T reguladoras, ou Treg.

As células T reguladoras funcionam como freios da imunidade: sinalizam ao corpo que certas presenças estranhas não devem ser atacadas, ajudando a evitar reações exageradas.

Com este ajustamento fino, o sistema imunitário do bebé passa a interpretar aquelas células maternas como não ameaçadoras. A tolerância instala-se e, em condições normais, mantém-se ao longo da vida.

Quando os cientistas removeram em laboratório, de forma dirigida, as células maternas LysM⁺ CD11c⁺, o equilíbrio alterou-se. O número de Treg caiu abruptamente e, de um momento para o outro, o organismo dos animais começou a rejeitar as células da mãe, tratando-as como invasoras.

Uma tolerância ativa, não automática

Estes resultados indicam que a tolerância às células maternas não é apenas um “efeito colateral” da gravidez. Pelo contrário, parece ser um mecanismo ativo, sustentado por um pequeno conjunto de células altamente especializadas.

Se essas “educadoras” desaparecem ou deixam de funcionar, o sistema imunitário pode voltar-se contra algo que antes aceitava. Esta possibilidade ajuda a ligar o microquimerismo materno a determinados quadros inflamatórios e autoimunes.

Entre proteção e risco: o lado ambíguo das células maternas

O papel destas células aparenta ser duplo. Em alguns cenários, podem contribuir para a reparação de tecidos. Noutros, surgem associadas a doenças autoimunes, como lúpus, tiroidites e esclerose sistémica, por exemplo.

Há trabalhos que detetaram células maternas em áreas afetadas por inflamação crónica, perturbações neurológicas e até em alguns tipos de cancro. A grande questão é perceber se estas células estão:

  • a agravar o quadro, ao promover respostas imunitárias desorganizadas, ou
  • a tentar limitar os danos, ajudando na cicatrização e no controlo da inflamação.

Este conjunto de fenómenos também tem sido analisado no contexto dos transplantes. A hipótese é que compreender como o corpo aprende a tolerar células da mãe pode orientar fármacos e protocolos para reduzir a rejeição de órgãos e tecidos doados.

Uma fronteira borrada entre “eu” e “outro”

O microquimerismo obriga-nos a rever a ideia de identidade biológica. Do ponto de vista genético, um indivíduo pode não ser composto apenas pelas suas próprias células. Em vez disso, pode transportar um mosaico: células de origem materna, por vezes relacionadas com gestações anteriores, e até células de irmãos gémeos perdidos em fases muito iniciais.

Essa mistura de códigos genéticos cria uma zona cinzenta: células estrangeiras que se tornam, na prática, parte estável do organismo.

No plano cultural, imaginar “pedacinhos da mãe” distribuídos pelo corpo do filho reforça a dimensão física de um vínculo familiar que não termina quando se corta o cordão umbilical.

O que essa pesquisa pode mudar na prática

À medida que o comportamento das células maternas é melhor mapeado, os cientistas veem possibilidades em várias áreas da medicina:

Área Possíveis aplicações
Doenças autoimunes Perceber se células maternas participam em gatilhos de doença ou se ajudam a proteger contra surtos.
Transplantes Inspirar novas formas de induzir tolerância a órgãos e tecidos de dadores, diminuindo a rejeição.
Oncologia Avaliar se células maternas presentes em tumores atuam como aliadas do sistema imunitário ou como cúmplices do cancro.
Gestação de risco Entender melhor complicações associadas à inflamação, como pré-eclâmpsia, a partir dos fluxos celulares mãe–feto.

A longo prazo, este conhecimento pode apoiar terapias que não se limitem a “desligar” a imunidade, mas que a modifiquem de forma semelhante ao que acontece na gestação: promovendo tolerância específica sem criar brechas para infeções oportunistas.

Conceitos que valem uma explicação extra

Para quem não é da área biomédica, alguns termos aparecem repetidamente neste debate e convém esclarecê-los:

  • Microquimerismo: presença de um pequeno número de células geneticamente diferentes do restante organismo, mas que convivem de forma estável.
  • Células T reguladoras (Treg): subtipo de linfócitos T que atenua reações de defesa exageradas, ajudando a evitar que o corpo ataque a si próprio.
  • Células dendríticas: células do sistema imunitário que atuam como mensageiras, apresentando “pistas” de invasores a outras células de defesa.
  • Tolerância imunológica: estado em que o sistema de defesa aprende a não reagir contra determinados alvos, mesmo quando eles parecem estranhos.

Uma forma útil de visualizar isto é imaginar uma escola: o sistema imunitário jovem chega “cru” e, durante a gestação e a infância, passa por uma aprendizagem intensiva. As células maternas integram o corpo docente, ajudando a ensinar o que deve ser atacado e o que deve ser poupado.

Cenários futuros e perguntas em aberto

Uma linha de investigação discute se, no futuro, seria possível usar células derivadas da mãe como ferramenta terapêutica programada. Em teoria, poderiam transportar instruções específicas para travar inflamações em locais estratégicos, como articulações ou intestino.

Outra frente analisa riscos menos evidentes. Em famílias com um histórico marcado de autoimunidade, compreender o perfil de microquimerismo pode ajudar a identificar quem tem maior probabilidade de desenvolver determinadas doenças. Isso traz dilemas éticos: até que ponto é desejável mapear e antecipar este tipo de predisposição?

Enquanto estas respostas não chegam, um ponto já parece sólido: a gravidez não deixa apenas memórias e histórias de família. Deixa também um legado celular misturado no organismo, em níveis que a maioria das pessoas nunca vai notar - mas que pode influenciar a saúde ao longo de toda a vida.


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