Mais um dia de serviço para a pick-up elétrica Maxus T90. Não falha o trabalho - o desafio está na produtividade.
Apesar de, nos últimos anos, a evolução deste tipo de veículo ter sido evidente, a realidade é que a maioria das pick-up continua a ser vista, acima de tudo, como uma ferramenta de trabalho. E, nesse contexto, as versões Diesel tendem a manter-se como as preferidas.
Ainda assim, a Maxus T90 EV segue um caminho pouco habitual: é a primeira pick-up 100% elétrica a chegar ao nosso mercado. Fomos perceber onde ganha e onde perde.
Por fora, apresenta-se como tantas outras: cabine dupla, caixa de carga separada e uma base assente num chassis adaptado para acomodar a bateria de 89 kWh, que alimenta o sistema elétrico e está instalada sob o habitáculo.
No desenho, a frente destaca-se por uma aparência de «Stormtrooper», com uma grelha muito grande e as letras da marca no topo, ao centro. Mais junto às extremidades, os faróis superiores integram luzes diurnas e piscas, ambos em LED. Já os principais ficam mais abaixo, na vertical, e recorrem a lâmpadas de halogéneo.
Atrás, sobressai a grande tampa de acesso à caixa de carga, onde existe uma faixa horizontal preta com a inscrição Maxus - e que, infelizmente, não permite trancar o portão. Mais em baixo e de forma discreta, surgem dois degraus integrados, úteis quando é necessário subir para a caixa de carga.
Interior foi pensado para durar
O interior da Maxus T90 EV parece resultar de duas fases bem distintas. De um lado, nota-se uma prioridade clara à durabilidade: materiais maioritariamente rígidos, mas sólidos, bem montados e sem ruídos parasitas.
Até os bancos em pele - com regulação elétrica na frente - encaixam nessa lógica. Entre eles, mantém-se uma solução clássica: a alavanca do travão de mão. Também a chave segue a mesma filosofia tradicional, com comando à distância para trancar/destrancar, mas com necessidade de ser inserida na ignição.
Depois, há sinais de uma abordagem mais “digital”: um ecrã central tátil que concentra algumas definições e permite ligação ao smartphone através de Apple CarPlay ou Android Auto. Abaixo, encontram-se comandos táteis para o ar condicionado - embora não seja automático - e o painel de instrumentos, de leitura analógica, inclui o computador de bordo ao centro.
Maxus T90 EV em modo família
Uma pick-up raramente é a escolha óbvia para transportar família diariamente, ainda que o problema não esteja, propriamente, no espaço disponível. A lotação para cinco ocupantes não levanta dificuldades, mesmo com a necessidade de montar cadeirinhas de bebé ou equipamentos semelhantes.
O maior entrave está na bagageira: o espaço principal é a caixa de carga traseira, exposta ao exterior e, mesmo com cobertura, condicionada pelo facto de o portão traseiro não poder ser trancado. Como alternativa, existem os compartimentos de arrumação sob o piso do banco traseiro e o espaço atrás do encosto. Na prática, chegam para guardar cabos de carregamento, mas revelam-se curtos para volumes maiores.
Movimento (quase) em silêncio
Ao volante, a posição de condução é competente e encontra-se com relativa facilidade. O banco dispõe de comandos elétricos, mas faltam alguns ajustes - como a regulação lombar - e a coluna de direção não oferece ajuste em profundidade, apenas em altura.
Sendo um modelo 100% elétrico, seria expectável uma operação totalmente silenciosa, mas não é exatamente isso que acontece. O aviso sonoro de circulação, habitual em elétricos, é demasiado presente, mesmo para quem vai dentro do habitáculo.
Fora isso, o silêncio domina. Após entrar, rodar a chave para ativar o sistema, libertar o travão de mão e escolher a posição pretendida no seletor rotativo da consola central, o funcionamento é o de um elétrico como qualquer outro.
Ainda assim, continua a comportar-se, em muitos aspetos, como uma pick-up tradicional. A combinação de molas de lâmina no eixo traseiro com a ausência de carga - que pode ir até uma tonelada - faz com que a traseira tenda a “saltitar”, sobretudo quando o piso não está perfeitamente liso.
Em contrapartida, o facto de existir quase meia tonelada extra sob o habitáculo baixa significativamente o centro de gravidade, algo que se sente no comportamento dinâmico da Maxus T90 EV. Não será, naturalmente, a escolha para uma estrada sinuosa - até porque a direção é muito desmultiplicada e transmite pouca informação -, mas ainda assim não deixa de oferecer uma condução com uma margem de confiança aceitável.
Potência da Maxus T90 é suficiente?
Na Maxus T90 EV existe apenas um motor elétrico, responsável por mover o eixo traseiro e montado em conjunto com o inversor. De acordo com a marca, debita 130 kW (177 cv) e cerca de 310 Nm. A tração é exclusivamente traseira, pelo que não se recomendam aventuras muito longe do asfalto.
Sendo um veículo apontado sobretudo ao meio empresarial, como alternativa energética aos habituais Diesel, espera-se que a “função” de uma pick-up seja transportar (ou rebocar) cargas mais exigentes.
Aqui, os números não impressionam: a carga útil fica limitada a 1000 kg. E para quem pensa em reboque, também há limitações - o máximo rebocável é de 1000 kg. Para comparação, uma Isuzu com tração apenas traseira consegue rebocar até 2500 kg.
Ainda assim, com 177 cv disponíveis, o comportamento pode diferir bastante consoante os quilómetros sejam feitos com ou sem carga. Sem peso, a resposta do motor é imediata e a T90 EV ganha velocidade com rapidez, sem se mostrar lenta, mesmo em autoestrada.
Fora de estrada, e apesar do visual robusto típico de uma pick-up, a falta de tração integral vai complicar a vida a quem precisa de lidar com terrenos mais difíceis. A altura ao solo pode ser superior à de um SUV (18,7 cm), mas em pisos de baixa aderência a tração traseira torna-se um entrave.
Consumos “secretos” e autonomia
A Maxus anuncia 330km de autonomia em percurso misto e 471 km em ambiente urbano. Quanto a consumos, a marca indica 26,8 kWh/100 km - um valor plausível tendo em conta que falamos de «apenas» 177 cv para um peso superior a 2,3 toneladas.
Para validar o número, recorremos ao computador de bordo, mas depressa surge um problema: o sistema não está “autorizado” a apresentar médias acima de 18,6 kWh/100. Isto significa que, após reiniciar os valores, bastam poucos minutos para ficar registado 18,6 kWh/100 km como se fosse um valor definitivo - não por ser a medição real, mas porque o software não mostra nada acima desse limite.
Em autoestrada, a velocidade máxima é limitada a 120 km/h e, repetindo o reset, algumas centenas de metros depois a média volta a fixar-se em… 18,6 kWh/100 km. Com o consumo instantâneo acontece algo semelhante, mas com o teto definido nos 60 kWh/100 km.
Sobra, por isso, observar autonomia e carregamentos para estimar o gasto energético. No início do ensaio, com a bateria a 100% - como indicado no mostrador analógico - a autonomia apontada era de 423 km. Após 125 km, quase sempre em autoestrada, a indicação desceu para 75%. Depois de 242 km, já com algum percurso urbano, chegámos a 45% de carga e 178 km de alcance.
Num carregador rápido - a Maxus T90 EV permite carregamento em DC (corrente contínua) até 80 kW - passámos de 178 km para 386 km em cerca de 65 minutos, ficando o indicador nos 90%. No final, após somar mais 120 km, a autonomia desceu para 154 km e o mostrador indicava 65%.
Tamanho da Maxus T90 não é um problema
Além de pesar 2300 kg, a Maxus T90 EV é um “objeto” com quase 5,4 m de comprimento e 1,9 m de largura. A altura ultrapassa 1,80 m e a distância entre eixos é de 3,155 m. Com estes números, e tendo em conta uma direção muito desmultiplicada e pouco comunicativa, seria fácil antecipar dificuldades em manobras e em cidade. Ainda assim, contra a expectativa, a pick-up elétrica da Maxus mostrou-se prática e simples de manobrar.
Peso e preço a condizer
Se o peso é um daqueles valores elevados que se associam facilmente a veículos elétricos, o mesmo se aplica ao preço. O PVP da Maxus T90 EV é de 81 381 euros, sendo que mais de 15 mil euros correspondem a IVA.
Como a presença deste modelo no mercado nacional está claramente orientada para empresas e organismos públicos, este preço pode pesar - e muito - quando chega a altura de fazer contas.
Quanto ao equipamento, tudo o que se vê no modelo das imagens está incluído de série. A única opção é a pintura metalizada, com um custo de 400 euros.
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