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Investigação mostra que uma única sessão de terapia pode ser muito útil.

Homem sentado a falar com terapeuta numa sala iluminada, transmitindo emoções com a mão no peito.

AP - Pouco antes da época festiva de 2025, Julie Hart sentia-se encurralada, como se não avançasse. Um problema persistente, com o qual lutava há anos, deixava-a a remoer durante o dia inteiro e a duvidar de quase tudo o que alguma vez tinha dito, feito ou seria capaz de fazer.

Chegou a ponderar recorrer à terapia tradicional, mas acabou por optar por aconselhamento de sessão única. Em vez de se comprometer com consultas semanais, teria apenas 60 minutos para enfrentar aquela questão. E resultou.

“Eu diria que me ajudou a destravar - de uma forma muito positiva, significativa e eficaz”, afirmou Hart, de Springfield, no estado da Virgínia.

Hart passou a fazer parte do que os especialistas descrevem como um número crescente de pessoas que, pelo menos por agora, preferem abdicar das semanas, meses ou até anos que a terapia convencional costuma implicar, escolhendo uma abordagem mais focada e directa.

Na prática, a terapia é exactamente o que o nome sugere: uma única sessão - normalmente com cerca de uma hora - em que um terapeuta ajuda o cliente a identificar passos concretos para aliviar um problema específico. O objectivo não é resolver tudo de uma vez, mas sim permitir que a pessoa saia com um conjunto de estratégias, uma espécie de caixa de ferramentas, para saber como abordar a situação.

“Essas estratégias faziam todo o sentido”, disse Hart. “Mas quando estamos no meio do problema, não as conseguimos identificar.”

Especialistas apontam investigação que demonstra que a terapia de sessão única funciona

A investigação sobre intervenções de sessão única “floresceu nos últimos cinco ou 10 anos, ao ponto de isto se ter tornado uma forma mais consolidada de apoio à saúde mental”, explicou Jessica Schleider, professora de Psicologia na Northwestern University e directora fundadora do Lab for Scalable Mental Health.

Segundo Schleider, o seu laboratório realizou uma meta-análise de 415 ensaios clínicos e concluiu que, na maioria dos casos, abordagens de sessão única reduziram dificuldades de saúde mental em vários tipos de problemas, incluindo depressão e ansiedade, tanto em jovens como em adultos.

De onde vem a terapia de sessão única

Não se trata de uma novidade. Sigmund Freud é frequentemente referido como alguém que a disponibilizou.

Ainda assim, tornou-se cada vez mais comum como forma de colmatar falhas no acesso a cuidados de saúde mental - e, de acordo com Schleider, a necessidade está maior do que nunca.

O custo da terapia tradicional aumentou para várias centenas de dólares por mês e, mesmo entre quem consegue pagar ou tem seguro, é habitual deparar-se com longas listas de espera.

“Mesmo que, por milagre, duplicássemos de um dia para o outro o número de profissionais de saúde mental com formação, ainda assim ficaríamos muito longe de conseguir responder à necessidade de apoio em saúde mental”, disse Schleider.

E isto sem contar com outros obstáculos, como as pessoas que não conseguem faltar ao trabalho para comparecer a sessões todas as semanas.

Além disso, os dados indicam que o número mais comum de sessões que as pessoas efectivamente recebem é apenas uma, porque muitos começam e depois não regressam, acrescentou Schleider.

“É uma solução realmente elegante para dar às pessoas o apoio de que precisam no momento em que essa necessidade surge”, afirmou.

Em que difere da terapia tradicional

Sharon Thomas, psicóloga e directora de terapia de sessão única no Ross Center, em Washington, D.C., explicou que tanto o terapeuta como o cliente entram na sessão com expectativas: “Que o cliente consiga ter uma mudança significativa na sua vida e que vejamos uma melhoria tanto na sua auto-eficácia como uma diminuição dos seus sintomas com apenas uma visita.”

Em vez de realizar uma avaliação exaustiva do passado do cliente e das suas circunstâncias actuais, o terapeuta centra-se num problema específico. No final da sessão, o cliente sai com um plano escrito, com passos delineados para ajudar a atenuar essa dificuldade.

“Nem toda a gente quer falar de trauma de infância”, disse Thomas. “Está muito focado naquilo em que o cliente quer focar-se naquele momento.”

Para quem é indicada a terapia de sessão única

Arnold Slive, professor de Psicologia na Our Lady of the Lake University, no Texas - e um dos pioneiros das clínicas de terapia de sessão única em regime de atendimento sem marcação no Canadá, nos anos 1990 -, disse que a maioria das pessoas pode beneficiar desta abordagem. Isso inclui quem enfrenta uma situação difícil e pontual, como um problema no trabalho, ou algo mais duradouro, como a ansiedade.

Slive sublinhou que, ainda assim, os terapeutas têm o dever de avaliar o risco de auto-agressão e que muitas pessoas com problemas crónicos de saúde mental podem continuar a beneficiar de terapia tradicional ou de medicação.

“Isto não pretende substituir todas essas outras coisas que os profissionais de saúde mental fazem, mas pode ajudar as pessoas a sentirem-se melhor”, disse Slive.

Outra premissa é que cada cliente já entra na sessão com forças pessoais que o podem ajudar a lidar com a sua questão. As sessões únicas também tendem a atrair um perfil diferente de cliente - por exemplo, alguém que talvez esteja céptico quanto a saber se a terapia tradicional é, de facto, para si.

“É como pôr um dedo do pé na água”, disse Slive.

No caso de Hart, meses depois continuava a sentir-se melhor e referiu que se sentia mais confiante por saber que podia voltar, se fosse necessário.

“Saí de lá a sentir-me tão optimista”, disse Hart.

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