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Sete novas espécies de Batracomorphus descobertas no Parque Nacional de Kibale, Uganda

Homem a analisar um insecto numa folha com lupa em floresta, junto a livro aberto e lanterna acesa.

Sete insectos das florestas tropicais do Uganda, com aspeto semelhante ao de pequenas rãs, passaram agora a ser reconhecidos como espécies novas para a ciência.

A descoberta quebra um silêncio de décadas nos registos africanos deste grupo e, entre as novas designações, uma delas leva uma homenagem que fica gravada na literatura científica.

Em bandejas com insectos atraídos pela luz no Parque Nacional de Kibale, no Uganda, sete cigarrinhas praticamente indistinguíveis acabaram por revelar-se espécies ainda sem nome.

Ao analisar esses exemplares, o entomologista Dr. Alvin Helden, da Anglia Ruskin University (ARU), concluiu que cada um correspondia a uma espécie diferente.

Como as cores e os contornos variavam muito pouco, o trabalho exigiu persistência: as diferenças não saltavam à vista numa observação rápida.

Essa diversidade “escondida” reforça a ideia de que a floresta tropical ainda guarda mais espécies do que qualquer levantamento apressado conseguiria revelar.

Aspeto semelhante a rã nas novas espécies

O aspeto “tipo rã” destas espécies resulta de corpos baixos e compactos, olhos grandes e patas traseiras longas, dobradas firmemente ao longo dos flancos.

Quando são incomodadas, disparam em saltos rápidos, graças a pernas posteriores potentes que as projetam para fora das folhas num instante.

Os biólogos chamam-lhes cigarrinhas-das-folhas: pequenos insectos fitófagos que vivem na vegetação e se deslocam com saltos súbitos.

A morfologia das cigarrinhas torna-as fáceis de detetar quando se mexem, embora distinguir uma espécie de outra seja, muitas vezes, muito mais difícil.

Provas demasiado pequenas para serem vistas

O aspeto externo não foi suficiente para resolver o problema, porque estes insectos exibem praticamente a mesma “silhueta” verde de espécie para espécie.

Por isso, os investigadores compararam estruturas reprodutoras minúsculas, onde diferenças muito subtis em ganchos, curvaturas e placas estabelecem limites fiáveis.

Esses detalhes são decisivos porque, mesmo quando são ínfimos, tendem a manter-se consistentes dentro de uma mesma espécie, oferecendo evidência que a coloração do corpo não consegue fornecer.

O artigo da ARU descreveu sete novas espécies e acrescentou ainda cinco membros do grupo já conhecidos aos registos nacionais do Uganda.

No total, Kibale ficou associado a 13 cigarrinhas-do-género Batracomorphus, um número mais elevado do que se poderia supor a partir de um único parque.

Não era reportado qualquer novo membro africano deste grupo desde 1981. Uma espécie em particular, Batracomorphus ruthae, foi o nome mais pessoal do trabalho.

Esta combinação de história científica e significado privado deu à descoberta um peso que vai além de uma simples contagem de espécies.

Recolha noturna com armadilhas de luz

A recolha noturna na floresta tropical, a altitudes superiores a cerca de 1 500 m, fez com que estes insectos se aproximassem de armadilhas luminosas, apesar do tamanho reduzido e da camuflagem.

Muitas cigarrinhas são atraídas por lâmpadas depois de escurecer, o que permite aos investigadores amostrar animais que, durante o dia, permanecem quase invisíveis.

Ainda assim, as armadilhas de luz capturam sobretudo as espécies que voam na sua direção, deixando sub-representados insectos mais discretos ou menos móveis.

Isso significa que os sete novos nomes podem ser apenas o começo, e não o retrato completo da fauna “oculta” de cigarrinhas em Kibale.

No meio da cadeia alimentar

Ao contrário de muitos insectos que mastigam folhas, as cigarrinhas alimentam-se perfurando os tecidos vegetais e sugando a seiva.

Esse tipo de alimentação pode fragilizar as plantas, e alguns parentes tornam-se pragas agrícolas quando se acumulam em grande número nas culturas.

“Eles são uma importante fonte de alimento para aves e outros insectos, e a sua presença é um sinal de um ecossistema saudável”, disse Helden.

Vistos assim, estes pequenos herbívoros ocupam uma posição intermédia numa cadeia viva, recebendo energia das plantas e transferindo-a para outros níveis.

Um registo de herança

Entre as sete espécies, Batracomorphus ruthae destacou-se porque o nome foi escolhido para honrar a mãe falecida de Helden.

“Ruth era uma cientista, que trabalhou num laboratório hospitalar”, disse Helden. Acrescentou que ela lhe comprou o primeiro microscópio e incentivou o seu interesse pela ciência desde o início.

Essa passagem transforma um artigo taxonómico da ARU num registo de herança, mostrando como a influência familiar pode perdurar através da nomenclatura científica.

Significado por trás dos nomes

Dar um nome a uma espécie não é mera burocracia, porque organismos sem nome tornam-se difíceis de comparar, proteger ou voltar a estudar.

Na taxonomia - a ciência que nomeia os seres vivos - cada descrição fixa um ponto de referência que outros investigadores podem testar mais tarde.

Isto é particularmente importante em florestas muito biodiversas, onde muitos insectos parecem permutáveis até que alguém os separe com atenção suficiente.

Depois de existirem nomes, levantamentos futuros podem perguntar onde vive cada espécie, quão comum é e que ameaças enfrenta.

Segredos dentro da floresta

É quase certo que Kibale ainda alberga mais espécies escondidas, já que um único esforço de recolha revelou muito mais diversidade do que o esperado.

Insectos diminutos escapam frequentemente aos levantamentos de fauna mais abrangentes, apesar de constituírem grande parte da vida quotidiana da floresta.

Trabalho semelhante noutras florestas africanas poderá esclarecer se estas sete espécies são curiosidades locais ou parte de um padrão mais amplo.

Essa pergunta em aberto mantém a descoberta sem um “ponto final”, e é uma das razões pelas quais pequenos artigos sobre espécies podem ser tão relevantes.

Sete novas espécies, cinco primeiros registos nacionais e um nome profundamente pessoal fazem disto algo muito mais do que um exercício de inventário.

A investigação sugere que a floresta tropical ainda esconde uma camada densa de vida, que só se torna visível quando alguém observa com detalhe suficiente.

Crédito da imagem: Dr. Alvin Helden, Anglia Ruskin University

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