Dados recentes de investigadores irlandeses estão a virar do avesso a ideia clássica do queijo como “vilão”. Um Cheddar específico, feito com leite de vacas alimentadas a erva, parece comportar-se melhor do que o esperado no perfil de gorduras e em alguns indicadores relacionados com o coração. Ainda assim, o tema não fica livre de ressalvas.
Porque é que o queijo ganhou má reputação na saúde do coração
Há anos que o queijo aparece nas recomendações de nutrição clínica como um alimento “problemático”. A razão é conhecida: tem muitas gorduras saturadas, que podem aumentar o colesterol LDL - muitas vezes chamado de colesterol “mau”. Quando este valor se mantém elevado ao longo do tempo, o risco de enfarte do miocárdio e de AVC tende a subir.
Por isso, várias sociedades científicas aconselham a limitar as gorduras saturadas a uma pequena fatia das calorias diárias. Em muitos guias, o foco recai quase automaticamente sobre a manteiga, os enchidos - e o queijo. A lógica faz sentido, mas deixa escapar um detalhe importante: nem todas as gorduras saturadas têm o mesmo efeito no organismo.
As gorduras saturadas de cadeia mais curta tendem a ser mais neutras nos lípidos sanguíneos, enquanto as de cadeia muito longa costumam associar-se a resultados menos favoráveis. O queijo, por sua vez, contém uma mistura destes tipos. A isto soma-se o sal: uma porção pequena de 30 g de Cheddar já contribui de forma significativa para a ingestão diária recomendada de sódio.
No dia a dia, também é fácil ultrapassar a “porção padrão”. Uma camada generosa no pão, alguns cubos na salada e, mais tarde, mais um pouco com vinho - e a quantidade total sobe rapidamente. É precisamente aqui que entra a nova investigação: o que acontece quando as pessoas consomem mesmo muito queijo, e até que ponto a alimentação das vacas faz diferença?
O que a investigação sobre Cheddar de pastoreio avaliou, de facto
Uma equipa de Dublin recrutou 58 adultos com mais de 50 anos, todos com excesso de peso, mas sem doenças crónicas graves. Durante seis semanas, cada participante ingeriu 120 g de Cheddar por dia - cerca de quatro porções habituais.
O ponto-chave foi a comparação entre dois tipos de queijo, consoante a origem do leite:
- Grupo A: Cheddar produzido com leite de vacas mantidas no exterior a comer erva.
- Grupo B: Cheddar feito com leite de vacas alimentadas em estábulo com uma ração mista.
No restante, a alimentação manteve-se, em geral, semelhante e não foram planeadas mudanças relevantes no estilo de vida. A equipa mediu, no início e no fim, os valores de colesterol e o perfil de ácidos gordos no sangue.
A evolução inesperada do colesterol
Ao fim de seis semanas, observou-se que o colesterol total e o colesterol LDL diminuíram em ambos os grupos, com uma magnitude semelhante. Isto contraria a expectativa de que uma ingestão tão elevada de queijo iria, por definição, agravar os lípidos sanguíneos.
A comparação do perfil de ácidos gordos no sangue foi ainda mais curiosa. Quem consumiu queijo proveniente de vacas alimentadas a erva apresentou níveis mais baixos de determinados ácidos gordos saturados. Já o queijo de vacas alimentadas em estábulo associou-se a perfis ligeiramente menos favoráveis.
"A alimentação das vacas parece influenciar quais as gorduras que acabam por estar no queijo e, em última análise, no sangue das pessoas."
Ainda assim, os próprios autores enquadram os resultados com prudência: depois de correções estatísticas, as diferenças entre grupos reduziram-se. Além disso, o estudo teve poucos participantes, durou pouco tempo, utilizou uma quantidade de queijo muito acima do habitual e não incluiu um grupo de controlo sem queijo. Em suma, são sinais promissores, mas não conclusões definitivas.
Em que é que o queijo de pastoreio difere do queijo “habitual”?
O leite de vacas alimentadas a erva costuma apresentar um perfil de ácidos gordos diferente do leite de animais cuja dieta assenta sobretudo em rações mais concentradas. Isso traduz-se, por vezes, em diferenças no próprio queijo, como:
- tendência para maior proporção de ácidos gordos de cadeia curta e média
- rácio diferente entre ómega-3 e ómega-6
- em alguns casos, teor mais elevado de vitamina K2
A vitamina K2 desperta especial interesse em cardiologia por estar envolvida na regulação do destino do cálcio no organismo - mais para os ossos e menos para as paredes dos vasos sanguíneos. Alguns estudos observacionais associam uma ingestão mais elevada de K2 a menor risco de calcificação vascular.
Assim, os dados irlandeses encaixam numa ideia mais ampla: os lacticínios são alimentos complexos e o impacto na saúde cardiovascular depende de muito mais do que apenas a quantidade total de gordura.
Que quantidade de queijo pode continuar a ser “amiga” do coração?
Uma análise de grande escala, com dados de vários países e quase 200.000 participantes acompanhados durante cerca de dez anos, encontrou um resultado relevante: quem consumia, em média, aproximadamente 40 g de queijo por dia apresentou menor risco de doença cardiovascular do que pessoas com consumo muito baixo ou muito elevado. A diferença, nessa análise, foi de cerca de 18%.
Este tipo de estudo não prova uma relação direta de causa-efeito, mas aponta uma tendência: o consumo moderado de queijo parece não ser o principal problema - podendo até fazer parte de um padrão alimentar globalmente compatível com boa saúde.
Como referência geral para adultos saudáveis sem doença cardíaca conhecida, pode considerar-se:
| Grupo de pessoas | Quantidade de queijo recomendada |
|---|---|
| Adultos saudáveis, com peso normal | cerca de 30–40 g por dia, no contexto de uma alimentação equilibrada |
| Pessoas com colesterol elevado ou doença cardíaca | cerca de 2–3 porções por semana de 30–40 g |
Quem já tem problemas cardíacos ou valores muito elevados de lípidos no sangue deve discutir com o(a) médico(a) ou com um(a) nutricionista a melhor forma de incluir queijo na dieta.
Que tipos de queijo se enquadram melhor num dia a dia com foco no coração?
Ao escolher na secção de queijos, não vale apenas procurar produtos de pastoreio: também importa verificar o teor de sal e de gordura. Para quem quer manter os indicadores cardiovasculares sob controlo, opções mais adequadas para o dia a dia incluem:
- mozzarella fresca de leite de vaca
- queijos duros suíços com teor de sal moderado
- ricotta
- queijos regionais de pastoreio com origem claramente identificada
Já variedades mais intensas e salgadas - como Cheddar curado, queijos azuis ou feta - funcionam melhor como “tempero”: pequenas quantidades para dar sabor, em vez de grandes porções como base da refeição.
Formas de incluir queijo com prazer, sem penalizar o coração
Algumas estratégias simples para evitar que o queijo se transforme numa armadilha de colesterol:
- Preferir fatias finas e queijos mais aromáticos - assim obtém-se muito sabor com menos quantidade.
- Combinar queijo com muitos vegetais, por exemplo em legumes assados no forno ou em saladas.
- Planear pelo menos uma refeição principal por dia sem queijo, como uma refeição de leguminosas ou de peixe.
- Quem gosta de comer muito queijo pode compensar, nesse mesmo dia, reduzindo enchidos e carne vermelha.
Desta forma, o queijo mantém-se como alimento de prazer e não se torna, sem dar por isso, uma fonte dominante de gorduras saturadas e sal.
O que este estudo significa no quotidiano - e o que não significa
A investigação irlandesa ajuda a reduzir o alarme para quem aprecia queijo: mesmo 120 g de Cheddar por dia não pioraram os lípidos sanguíneos dos participantes; pelo contrário, associaram-se a uma descida do colesterol. O Cheddar proveniente de vacas alimentadas a erva mostrou, em tendência, um perfil de gorduras no sangue um pouco mais favorável.
Isto não quer dizer que, a partir de agora, seja sensato comer “montanhas” de queijo. Os participantes foram acompanhados de perto, consumiram produtos padronizados e o ensaio durou apenas seis semanas. Não foram avaliados efeitos de longo prazo, nem impactos na evolução do peso ou na tensão arterial.
O aspeto mais interessante é a direção dos resultados: a origem do leite e a dieta das vacas podem influenciar de forma mensurável o efeito do queijo na saúde. Optar conscientemente por produtos de pastoreio pode, assim, ser um pequeno elemento numa alimentação amiga do coração.
Para interpretar melhor os valores de colesterol, convém dominar os conceitos essenciais. O LDL é, de forma geral, a fração que transporta colesterol para os vasos, enquanto o HDL tende a ajudar a removê-lo. Uma combinação de LDL baixo com HDL suficientemente alto costuma ser considerada favorável. As gorduras saturadas nem sempre reduzem o HDL, mas podem aumentar o LDL - dependendo da sua estrutura e da quantidade total ingerida.
No dia a dia, o que mais conta é o conjunto: quem se mexe com regularidade, baseia a alimentação em alimentos pouco processados, privilegia fruta, legumes, cereais integrais e leguminosas e evita fumar, geralmente consegue incluir uma porção moderada de queijo por dia. Os novos dados sugerem que, dentro desse padrão, escolher mais frequentemente queijo de pastoreio pode trazer uma pequena vantagem para o coração e os vasos, sem abdicar do prazer à mesa.
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