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Nova espécie *Tripedalia maipoensis* descoberta na Reserva Natural de Mai Po, em Hong Kong

Cientista observa água-viva transparente num aquário durante estudo ao ar livre.

Num viveiro de camarão na Reserva Natural de Mai Po, em Hong Kong, investigadores identificaram uma nova espécie de medusa do género Tripedalia. O animal mede apenas cerca de 1,3 cm de comprimento, o que o torna difícil de detectar na água turva do tanque.

A descoberta acrescenta um quarto membro descrito à família Tripedaliidae, um pequeno conjunto de medusas-cubo muito próximas entre si. No seu todo, estas criaturas invulgares pertencem aos cnidários, um grupo com apenas 49 espécies conhecidas em todo o mundo até ao momento.

Uma descoberta surpreendente de medusa

O trabalho foi coordenado pelo Professor Qiu Jianwen, da Hong Kong Baptist University (HKBU), um biólogo marinho que acompanha a forma como os ecossistemas costeiros reagem às mudanças. A sua investigação centra-se em invertebrados marinhos, isto é, animais sem coluna vertebral que vivem no mar.

Durante os verões de 2020 a 2022, a equipa recolheu amostras nocturnas em viveiros de camarão localizados entre mangais e o estuário aberto. Um estuário - a zona costeira onde o rio encontra o mar - traz marés que renovam a água destes viveiros.

Ali, a água é salobra, uma mistura ligeiramente salgada de água doce com água do mar. Nesse tom castanho-esverdeado, uma medusa transparente pode passar pelas redes sem ser apanhada, a menos que alguém observe com muita atenção.

Conheça Tripedalia maipoensis

A Tripedalia maipoensis apresenta uma campânula límpida, quase sem cor, com uma forma cúbica arredondada. A campânula mede cerca de 1,5 cm de cima a baixo, o que permite ao animal manter-se suficientemente pequeno para se esconder entre caules de plantas.

Em cada canto da medusa, projectam-se três pedálios achatados - almofadas musculares onde se fixam os tentáculos - que se estendem para fora e ajudam a deslocar água durante a natação. Da extremidade de cada almofada pende um único tentáculo, capaz de atingir aproximadamente 10 cm de comprimento.

Quando a campânula contrai e relaxa, um velário fino - uma membrana muscular que fecha parcialmente a abertura - ajuda a concentrar o jacto de água libertado atrás da medusa.

É essa propulsão direccionada que permite à Tripedalia maipoensis nadar mais depressa do que muitas outras medusas, que se deslocam com pulsações mais fracas e derivam com maior facilidade.

Como sabem que é uma espécie nova

Ao microscópio, a equipa verificou que esta medusa partilhava algumas características com a sua parente das Caraíbas, Tripedalia cystophora, mas que se distinguia em vários traços essenciais.

A nova espécie possui três pedálios em cada canto da campânula, apenas um tentáculo por cada pedálio e canais bifurcados no velário.

Para ir além das diferenças morfológicas, os cientistas construíram uma filogenia - uma “árvore” que mostra relações evolutivas - com base em ADN de vários genes.

Essas comparações posicionaram a Tripedalia maipoensis lado a lado com a Tripedalia cystophora, o que reforça que são parentes próximas e não a mesma espécie.

Um conjunto de dados particularmente importante veio do rRNA, um tipo de material genético frequentemente utilizado para comparar espécies. No gene 16S rRNA, a Tripedalia maipoensis diferiu da Tripedalia cystophora em cerca de 17,4%, uma diferença suficientemente grande para sustentar a designação de uma nova espécie.

O que 24 olhos conseguem realmente fazer

Tal como as suas parentes mais próximas, a Tripedalia maipoensis tem 24 olhos, organizados em quatro grupos, localizados em estruturas chamadas ropálios. Cada ropálio - um “clube” sensorial que suporta um conjunto de olhos - fica suspenso um pouco abaixo da margem da campânula.

Em cada grupo, dois olhos maiores com lente, capazes de formar imagens graças a pequenas lentes, asseguram a maior parte da visão detalhada. Os restantes quatro olhos, do tipo fosseta e fenda, são órgãos mais simples que seguem sobretudo variações de claro e escuro, em vez de contornos nítidos.

Em experiências com Tripedalia cystophora, os cientistas observaram que alguns olhos voltados para cima ajudam a medusa a permanecer sob a cobertura do mangal.

Esses olhos apontam continuamente para o mundo acima da água, fornecendo orientação visual suficiente para contornar raízes e outros obstáculos.

A Tripedalia maipoensis partilha esta distribuição de tipos de olhos, pelo que poderá igualmente recorrer a olhos específicos para tarefas como caça e navegação.

Ainda assim, é necessário testar de forma directa como esta espécie recém-descrita reage à luz e às sombras no seu próprio habitat de viveiro lamacento.

Aprendizagem e comportamento sem cérebro

As medusas-cubo parecem simples, mas o seu comportamento sugere capacidades inesperadas para animais tão pequenos e moles. Conseguem nadar depressa, desviar-se de obstáculos e manter-se em zonas ensolaradas onde se acumulam pequenos crustáceos.

Experiências recentes de aprendizagem com Tripedalia cystophora indicam que estas medusas conseguem alterar o modo como nadam após colisões com obstáculos.

Esse padrão é compatível com aprendizagem associativa, um processo em que os animais ligam experiências a acções futuras. A Tripedalia cystophora não tem um cérebro único, mas possui um sistema nervoso central, uma rede que coordena sinais vindos dos olhos e dos músculos.

Por a Tripedalia maipoensis ser tão próxima do ponto de vista evolutivo, os cientistas suspeitam que possa partilhar algumas destas capacidades de aprendizagem, assim que forem avaliadas directamente.

Lições de Tripedalia maipoensis

A Tripedalia maipoensis é a primeira medusa-cubo formalmente registada em águas costeiras chinesas, o que altera a forma como os cientistas traçam a distribuição global deste grupo.

O facto de viver num viveiro de camarão gerido, ao lado de uma cidade muito activa, também evidencia que paisagens moldadas pelo ser humano podem continuar a esconder espécies ainda sem nome.

Para quem trabalha em conservação, cada espécie recém-identificada acrescenta informação sobre a biodiversidade local, isto é, a diversidade total de formas de vida num ecossistema.

Encontrar espécies adicionais numa reserva bem estudada como Mai Po leva os cientistas a suspeitar que zonas húmidas mais discretas possam esconder ainda mais vida.

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