Noites de semana atarefadas, frigorífico vazio e uma lata de atum esquecida no fundo do armário: um clássico do jantar contemporâneo.
Em muitas casas, o atum em lata é o plano B de confiança que transforma prateleiras quase nuas numa refeição rápida. Ainda assim, a atenção renovada ao mercúrio e a outros metais pesados tem deixado muita gente a olhar para as conservas no corredor do supermercado, a perguntar-se qual será a opção mais segura - e se faz sequer sentido continuar a comprar atum.
Porque é que o atum em lata parece, de repente, controverso
Durante anos, o atum em lata foi promovido como uma fonte prática e magra de proteína. Uma porção típica de 100 g costuma fornecer cerca de 20–25 g de proteína, semelhante a um hambúrguer pequeno de vaca, mas com menos gordura saturada. É fácil de juntar a massa, saladas, sanduíches e pratos de forno rápidos.
Essa imagem tranquila foi abalada por campanhas de análises recentes na Europa que evidenciaram contaminação generalizada por metilmercúrio, a forma mais tóxica do mercúrio. Num estudo, todas as 148 latas escolhidas aleatoriamente apresentaram quantidades mensuráveis e mais de metade ultrapassou um limite rigoroso de 0,3 mg por quilo, definido para proteger quem consome peixe com frequência.
O metilmercúrio acumula-se lentamente nos tecidos do organismo, pelo que o problema de saúde está na exposição repetida, e não numa única sanduíche de atum.
As autoridades de saúde pública alertam que uma exposição elevada e prolongada pode afetar o sistema nervoso e interferir no desenvolvimento cerebral de bebés ainda por nascer e de crianças pequenas. Por isso, as recomendações para grávidas e para crianças em idade precoce tendem a ser mais prudentes do que para a população em geral.
Como é que o mercúrio vai parar ao atum
O mercúrio chega ao ambiente tanto por processos naturais como por atividades humanas, incluindo a queima de carvão e determinadas operações industriais. No oceano, parte desse mercúrio é transformada por microrganismos em metilmercúrio, que é absorvido por plâncton e outros organismos de pequena dimensão.
A partir daí, o metilmercúrio sobe na cadeia alimentar: os peixes comem esses organismos e, depois, peixes maiores alimentam-se dos mais pequenos. Em cada nível, a concentração aumenta. Este fenómeno, chamado bioacumulação, ajuda a explicar porque é que grandes predadores como o atum, o peixe-espada e o tubarão costumam apresentar valores mais elevados.
O tamanho e a idade contam: quanto maior e mais velho for o atum, mais tempo teve para acumular metais pesados na carne.
Assim, as espécies de atum não representam todas o mesmo nível de risco. E é precisamente essa diferença que orienta a escolha de uma lata mais segura.
O atum mais barato e mais “limpo”: conheça o atum-listão
Atualmente, especialistas em nutrição destacam uma espécie como opção mais sensata para consumo regular: o atum-listão, também conhecido como listão ou bonito-de-barriga-listada.
Porque é que o atum-listão tende a ter menos mercúrio
- Menor tamanho corporal: o listão é, em geral, mais pequeno do que espécies como o atum-albacora e o patudo.
- Ciclo de vida mais curto: vive menos anos, logo tem menos tempo para acumular poluentes.
- Posição mais baixa na cadeia alimentar: em comparação com atuns maiores, alimenta-se de presas ligeiramente menores.
No conjunto, estes aspetos traduzem-se em níveis médios mais baixos de metilmercúrio na sua carne. Embora os valores possam variar consoante a zona de pesca e o processamento, várias autoridades de saúde já consideram as latas à base de listão a escolha preferencial quando fazem recomendações de atum para crianças e grávidas.
Entre os atuns em lata mais comuns no mercado, o listão é frequentemente o que apresenta menor carga de mercúrio e um dos preços mais baixos.
Comparação de preços: mais acessível por natureza
Em supermercados franceses, onde foram divulgados números recentes, uma lata de 140 g de marca própria, com listão inteiro em salmoura, era vendida a 1,99 €, enquanto uma lata equivalente de atum-albacora custava 2,16 €. A diferença pode parecer reduzida, mas ao longo de um ano de compras regulares torna-se relevante.
| Tipo de atum em lata | Espécie típica | Nível relativo de mercúrio | Preço relativo |
|---|---|---|---|
| Listão (atum-listão) | Atum-listão | Mais baixo | Mais baixo |
| Albacora | Albacora | Mais alto | Mais alto |
| Atum “branco” de gama superior | Espécies de atum de grande porte | Frequentemente mais alto | Mais alto |
Para quem conta o orçamento, uma conserva que é simultaneamente mais barata e menos contaminada tem um apelo óbvio - sobretudo quando, em pratos misturados, a diferença de sabor é pequena.
Com que frequência é seguro comer atum em lata?
De um modo geral, as autoridades de saúde tranquilizam: consumir atum em lata de forma ocasional não é motivo para alarme. A preocupação surge quando o atum passa a ser um hábito diário, em especial entre grupos mais sensíveis ao mercúrio.
Na prática, muitos nutricionistas recomendam alternar o atum com outros produtos do mar e distribuir as porções ao longo da semana. Para um adulto médio sem problemas médicos específicos, pode pensar assim:
- Use atum uma a duas vezes por semana, evitando o consumo diário.
- Sempre que possível, prefira latas à base de atum-listão.
- Vá rodando com peixes pequenos e gordos, como sardinha ou cavala, que tendem a acumular menos mercúrio.
Variar regularmente o que chega ao prato é uma das formas mais eficazes de reduzir a exposição a longo prazo a qualquer contaminante.
Grávidas, mães a amamentar e crianças pequenas devem seguir as orientações nacionais, que normalmente limitam grandes peixes predadores - incluindo bifes de atum - e favorecem alternativas com menor teor de mercúrio. Muitos organismos de saúde disponibilizam tabelas com o número de porções ajustado ao peso corporal.
Leitura inteligente de rótulos no corredor do atum
Como identificar listão na lata
Os rótulos de atum em lata podem induzir em erro, porque expressões de marketing como “pedaços claros”, “branco sólido” ou “postas em salmoura” nem sempre revelam a espécie. No entanto, uma leitura mais atenta costuma trazer informação útil:
- Nome da espécie: o listão pode surgir como “listão”, “bonito-de-barriga-listada” ou pelo nome científico Katsuwonus pelamis.
- “Atum claro”: nalguns mercados, “atum claro” costuma corresponder a listão, enquanto “atum branco” pode referir-se à albacora.
- Origem e método de pesca: não garantem menos mercúrio, mas podem ajudar na escolha do ponto de vista da sustentabilidade.
Se a embalagem não indicar a espécie, é comum que algumas marcas económicas usem listão, sobretudo na Europa, mas não existe uma regra. Para quem se preocupa com saúde e ambiente, vale a pena gastar mais alguns segundos a confirmar a espécie.
Equilibrar benefícios e riscos no prato
O peixe, incluindo o atum, fornece nutrientes em falta na alimentação de muitas pessoas: ácidos gordos ómega‑3, vitamina D, proteína de alta qualidade e minerais relevantes como selénio e iodo. Cortar por completo o consumo de marisco e peixe pode dificultar o cumprimento das recomendações destes nutrientes, sobretudo em quem come pouca carne.
O consenso científico atual aponta para uma abordagem equilibrada. Para a maioria dos adultos, os benefícios de comer peixe algumas vezes por semana - especialmente espécies gordas - superam os potenciais riscos associados a contaminantes, desde que se varie a escolha e se mantenham porções moderadas.
Optar por peixes mais pequenos, alternar espécies e dar preferência ao atum-listão inclina a balança para os benefícios e reduz o risco a longo prazo.
Ideias práticas de refeições com atum de menor teor de mercúrio
Com uma lata de atum-listão na despensa, há muitas formas simples de a usar sem depender de atum todos os dias:
- Taça de massa mediterrânica: junte massa integral, uma lata de listão escorrido, tomate-cereja, alcaparras e um fio de azeite. No fim, envolva um punhado de espinafres para aumentar a fibra e o folato.
- Salada de peixe misto: use meia lata de atum juntamente com sardinhas em conserva, feijão e vegetais crocantes. Assim, distribui a exposição ao mercúrio por diferentes espécies e mantém a proteína elevada.
- Gratinado de atum e legumes: envolva listão num prato em que predominem brócolos, ervilhas e batata. O peixe funciona como apontamento de sabor, não como o volume principal.
Estas estratégias mantêm o atum no seu repertório, ao mesmo tempo que limitam naturalmente a quantidade consumida em cada refeição. Em paralelo, aumentam a diversidade nutricional no prato.
Termos-chave que costumam baralhar consumidores
Duas expressões aparecem recorrentemente nas recomendações de saúde sobre peixe e vale a pena clarificá-las:
- Metais pesados: grupo de elementos metálicos, como mercúrio, chumbo e cádmio, que podem ser tóxicos em níveis relativamente baixos. Estão presentes no solo, na água e no ar, e alguns acumulam-se nos organismos.
- Bioacumulação: acumulação gradual, ao longo do tempo, de uma substância como o metilmercúrio num organismo. Nos peixes predadores, acontece à medida que consomem presas contaminadas durante a vida.
Perceber estes conceitos ajuda a interpretar manchetes sobre peixe contaminado sem oscilar entre o pânico e a indiferença. Em vez disso, torna-se possível fazer mudanças consistentes e informadas: escolher listão em vez de atuns maiores, alternar com sardinha ou cavala e usar o atum em lata como recurso útil - não como rotina diária.
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