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Cada gravidez transforma o cérebro de forma única.

Mulher grávida com mão na cabeça e ilustração de cérebro, num quarto iluminado com plantas e ecografia.

A neurociência está a mostrar, com técnicas de imagiologia cerebral avançadas, que cada gravidez deixa uma marca própria no cérebro da mãe. Estas alterações não se limitam às emoções e à intuição: envolvem também a atenção, a motricidade e a perceção social - e diferem de forma clara entre a primeira e a segunda gravidez.

Como a gravidez remodela o cérebro materno

Durante a gravidez, as mudanças físicas fazem-se sentir quase todos os dias. Já as adaptações no cérebro passam, em grande parte, despercebidas - embora seja precisamente aí que ocorra uma transformação notável. Algumas estruturas parecem diminuir, as redes reorganizam-se e as ligações tornam-se mais eficientes; é como uma renovação em que se eliminam “cabos” desnecessários e se optimizam os que são essenciais.

Uma equipa do Centro Médico Universitário de Amesterdão acompanhou 110 mulheres ao longo de vários anos. O cérebro foi avaliado antes da conceção e depois do parto, comparando-se três grupos:

  • Mulheres na primeira gravidez
  • Mulheres na segunda gravidez
  • Mulheres sem filhos

A conclusão foi clara: o chamado “cérebro materno” não é um evento único. Ele continua a adaptar-se a cada gravidez, seguindo padrões distintos.

"Cada gravidez deixa uma assinatura neuronal individual - como uma impressão pessoal no cérebro materno."

Primeira gravidez: a base do “cérebro materno”

As mudanças mais profundas surgiram nas mulheres que estavam grávidas pela primeira vez. A imagiologia revelou uma diminuição perceptível do volume cortical, com um valor mediano de cerca de três por cento nas áreas afectadas.

A rede mais impactada foi a chamada rede de modo padrão. Esta rede está associada a:

  • Autoperceção e experiência interna
  • Reflexão sobre outras pessoas
  • Cognição social, isto é, interpretar comportamentos e emoções

Também se observaram alterações em regiões frontoparietais, envolvidas no planeamento, na tomada de decisões e no processamento de informação. Apenas com base nos exames cerebrais, os investigadores conseguiram distinguir, com uma precisão de cerca de 80 por cento, se se tratava de uma primeira ou de uma segunda gravidez.

Menos volume não significa menos capacidade

A redução de volume identificada não é, de acordo com o conhecimento atual, um sinal de “perda” do cérebro. Os dados sugerem antes um tipo de afinação: certas ligações são compactadas, sinapses pouco úteis são eliminadas e redes importantes passam a estar mais estreitamente conectadas. Este padrão é semelhante ao que acontece na puberdade, quando o cérebro amadurece.

Após a primeira gravidez, aumentou a conectividade funcional dentro da rede de modo padrão. Isto sugere que o cérebro da mãe passa a orientar-se mais para processos internos e para a leitura de sinais sociais - competências cruciais para a vinculação e para a sensibilidade no contacto com o recém-nascido.

"A primeira gravidez funciona como uma renovação profunda das redes cerebrais que suportam a ligação emocional e a perceção social fina."

Segunda gravidez: aperfeiçoamento do cérebro materno para atenção e motricidade

Na segunda gravidez, o padrão foi diferente. A redução do volume cortical foi, no conjunto, um pouco menos marcada, e as regiões afectadas localizaram-se noutros pontos. Desta vez, o destaque recaiu mais sobre redes ligadas à atenção e à sensorialidade.

Em particular, observaram-se respostas mais fortes na área da rede dorsal da atenção e em zonas sensoriomotoras. Estas regiões ajudam a detetar estímulos externos mais rapidamente, a ajustar o foco de atenção com flexibilidade e a coordenar movimentos.

Houve ainda outro resultado: no sistema da via piramidal direita, o chamado tracto corticospinal, verificaram-se mudanças em propriedades microestruturais. As medições apontam para uma estrutura de fibras mais organizada - o que sugere optimização das vias responsáveis pelo controlo motor.

O que isto pode significar no dia a dia

Quando já existe uma criança pequena em casa e ocorre uma nova gravidez, o cenário é distinto do da primeira vez: um bebé está a caminho, enquanto uma criança mais crescida continua a exigir atenção. A vigilância, a rapidez de resposta e a coordenação física tendem a ser mais solicitadas.

É precisamente nesse ponto que estas alterações parecem encaixar. O cérebro dá sinais de se preparar para uma carga múltipla, por exemplo através de:

  • Mudança mais rápida entre diferentes tarefas

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