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Escândalos políticos, corrupção e confiança na democracia: como se perde

Mulher de óculos segura chá quente na cozinha, olhando pela janela com expressão pensativa.

A chaleira desliga-se com um estalido, o rádio engasga-se e volta a ganhar vida e, algures entre a meteorologia e o trânsito, uma voz anuncia: “Em desenvolvimento nesta hora…”. Fica ali, com a caneca na mão e o vapor a embaciar-lhe os óculos, como se estivesse a tentar encaixar dois mundos ao mesmo tempo: a rotina arrumada da cozinha e o teatro desordenado do poder. O primeiro sentimento que reparo que surge não é propriamente raiva. É antes um ligeiro afrouxar no peito, o tipo de suspiro que se solta quando o autocarro que esperava passa sem parar. As notícias avançam, as crianças precisam de sapatos, a caixa de entrada pisca com impaciência. Ainda assim, algo pequeno desencaixou. E são essas peças soltas que mais tarde fazem barulho, quando o país tem de ser conduzido no meio de uma tempestade e se pergunta quem, de facto, vai ao volante.

A manhã seguinte ao rebentar de um escândalo

Há um instante que já todos conhecemos: ouve-se o título, e o primeiro pensamento é: “Claro.”. Não é espanto - é um aceno cansado. Essa é a química estranha do escândalo político: menos uma explosão única, mais uma fuga contínua de confiança pelas costuras da vida pública. Chega-se ao trabalho e, junto ao elevador, a conversa é feita de sobrancelhas erguidas e de piadas que mordem mais do que parece. Depois vem a hora de almoço e já ninguém consegue dizer, ao certo, quem fez o quê; fica apenas a sensação de que alguém importante contornou regras que nos repetem serem inegociáveis para todos os outros.

É nessa diferença entre as nossas regras e as deles que a confiança começa a escoar. Nem tanto pelo tamanho da falha, mas pela desigualdade das consequências. Se um ministro pode “esquecer” uma reunião, ou um jantar com financiadores, ou uma via VIP durante uma pandemia, que outras obrigações lhes parecerão opcionais? O dia segue, mas a suspeita cola-se - como o cheiro do takeaway de ontem no caixote do lixo que se esqueceu de pôr na rua. Passa-se a ver a conferência de imprensa seguinte com os olhos semicerrados; e um país de olhos semicerrados é um país difícil de governar.

O que a confiança faz, de facto, numa democracia

A confiança não é uma palavra fofa. É aquilo que permite esperar pela nossa vez sem empurrões, pagar impostos sem guardas armados e aceitar uma política de que não gostamos porque acreditamos que a intenção é limpa. Quando a confiança se mantém, uma sociedade complexa consegue fazer coisas espantosamente difíceis. Quando se desgasta, tudo se torna mais pesado e mais sombrio: regulamentos viram discussões, pequenos erros passam a crises morais e compromissos sensatos ganham o aroma de encobrimento. A máquina continua a funcionar, mas range em vez de cantar.

Basta recuar aos primeiros meses da pandemia. Aceitámos regras dolorosas porque a relação parecia recíproca. Cada fotografia de uma festa no jardim, ou cada história sobre uma via VIP, vinha com juros acumulados: não era só que alguns quebraram as regras - foi terem feito o resto de nós sentir-se totós por as cumprir. É por isso que um escândalo pode ecoar durante anos. Não se trata de exigir perfeição. Trata-se de escolher a justiça quando ninguém está a ver.

O ciclo entre encolher os ombros e a fúria

Os escândalos puxam-nos para um ritmo exasperante: um pico de indignação, uma semana de memes, uma audição numa comissão e, depois, uma dissolução lenta num encolher de ombros. Nesse encolher de ombros mora a emoção mais perigosa da vida pública: a resignação. O cinismo sabe a inteligência porque nunca se deixa desiludir, mas também é um fertilizante excelente para o mau comportamento. Se “são todos iguais,”, então já não há nada para defender - e nada que valha a pena reparar.

Já vi este guião em miniatura. Numa reunião de câmara municipal, uma vez reparei no cheiro a desinfetante e no risco de uma esferográfica enquanto alguém tomava notas, e pensei: é aqui que a confiança se constrói, em salas aborrecidas. Os escândalos fazem essas salas parecerem inúteis; quando as pessoas acreditam que o processo é só encenação, ou desligam, ou sobem o tom. A apatia entrega as chaves aos suspeitos do costume; a fúria dá um microfone a quem prometer partir alguma coisa. Em qualquer dos caminhos, a maioria silenciosa fica encalhada no passeio.

Porque é que os escândalos continuam a acontecer

Falamos de maçãs podres porque é mais cómodo do que olhar para os barris. A realidade é menos cinematográfica e mais persistente. Mil pequenas decisões - muitas delas legais - criam o ambiente que convida às grandes falhas. Segundos empregos que parecem inofensivos no papel. Jantares com financiadores onde “acesso” é um eufemismo que toda a gente finge não ouvir. A intermediação de interesses que “não é tecnicamente” intermediação, a mensagem no WhatsApp que nunca entra em ata porque “é informal.”.

A corrupção não é apenas envelopes com dinheiro; é um sistema que diz “sim” aos amigos mais depressa do que aos desconhecidos. O escândalo das despesas dos deputados do Parlamento do Reino Unido doeu porque expôs uma cultura, não uma excentricidade. O caso Owen Paterson também, tal como as histórias de contratos de EPI acelerados durante a Covid. Quando as regras são maleáveis e as relações são tudo, não é preciso uma grande conspiração - basta a compulsão silenciosa de ser prestável com quem se parece e soa como nós.

Reformas que mordem mesmo (escândalos políticos, corrupção e confiança)

Não precisamos de um novo cancioneiro; precisamos de ferramentas mais afiadas e de menos espaço para contornar. A primeira regra é luz do dia de que ninguém se consegue esconder. A publicação em tempo quase real das reuniões ministeriais e dos contactos de intermediação de interesses impediria as reconstruções nebulosas que aparecem depois de cada revelação. Os registos de reuniões deviam incluir não só quem esteve presente, mas o que foi pedido e quem beneficiou - em formato legível por máquina, pesquisável e verificado por um organismo independente com poder para multar. As agendas não podem ser tratadas como se fossem feeds de Instagram.

Não precisamos de anjos no Governo; precisamos de atritos que tornem o pecado inconveniente. Uma entidade de ética com base legal - chame-se-lhe um Comissário Anticorrupção - com poderes para exigir prova, encaminhar crimes e publicar conclusões sem autorização ministerial mudaria os incentivos de um dia para o outro. Reforce-se a proteção a denunciantes com apoio jurídico e uma pequena recompensa, previsível, se a informação poupar dinheiro público. E acabe-se com a farsa de as mensagens privadas serem, de algum modo, “off-record”: negócios públicos têm de ser registados, arquivados e sujeitos a pedidos de acesso a documentos, mesmo quando são escritos com o polegar num comboio.

Seguir o dinheiro

O financiamento político é a corrente sanguínea. Sem limites, o corpo sobreaquece. Ponha-se um teto sensato nas doações para que um único cheque não afogue uma centena de contribuições pequenas e, em paralelo, igualem-se pequenas doações com fundos públicos para amplificar vozes discretas. Proíbam-se canais empresariais de passagem e garanta-se que os beneficiários efetivos de todos os doadores são verificáveis antes de o dinheiro entrar - não meses depois, quando o escândalo já passou na televisão. E publique-se toda a despesa e todas as doações quase em tempo real, com trilhos de auditoria e sanções que realmente assustem quem pensa quebrar as regras.

Travar a porta giratória

Conflitos de interesses raramente rugem; costumam sussurrar. Um período de nojo de cinco anos para ministros e altos responsáveis antes de poderem pressionar os seus antigos departamentos baixaria a temperatura. Esse intervalo tem de ser vigiado e ter dentes, não apenas cartas cordiais de uma comissão que toda a gente ignora. As regras de contratação pública deviam partir, por defeito, da concorrência aberta, com exceções registadas, justificadas e revistas por auditores que respondam ao Parlamento - e não aos próprios departamentos. Publique-se cada contrato, calendário e aditamento, e identifiquem-se pelo nome os decisores.

Luz e dentes

A transparência sabe bem, mas é só metade do trabalho. “Transparência sem aplicação é teatro.” Dêem-se dados ao público, sim; e dêem-se às entidades de fiscalização poderes para bater a portas e apreender os ficheiros que alguém “se esqueceu” de carregar. Leis contra ações judiciais abusivas que visam silenciar a participação pública impediriam que figuras poderosas amordaçassem jornalistas que investigam de perto, enquanto equipas de investigação devidamente financiadas - do Gabinete Nacional de Auditoria à Comissão Eleitoral - transformariam factos fugitivos em consequências.

O lado humano da reforma

Qualquer correção parece técnica até imaginarmos para quem serve. A professora que fica até tarde a corrigir testes, a enfermeira que passa por uma máquina de vending que cheira a batatas fritas mornas às 2 da manhã, a cuidadora informal que troca turnos para votar. Não precisam de santos de fato; precisam de jogo limpo. Regras que em Westminster parecem picuinhas, fora dali soam a respeito. Esse é o ponto: construir sistemas que digam, de cem formas subtis, “não és parvo por fazeres o que é certo.”.

As reformas acima não são autocolantes; mudam a sensação de um dia dentro do Governo. Se uma reunião exige um formulário, e um formulário gera um registo, então um favor passa a ser um risco e não um reflexo. Torne-se a escolha honesta mais rápida e a escolha duvidosa mais lenta, e surpreende o quão decentes as pessoas conseguem ser. Não por se terem transformado, mas porque o caminho de menor resistência passou a atravessar a decência.

Quando a confiança volta, tudo o resto fica mais fácil

A confiança não chega com fogo de artifício. Regressa de lado, em momentos pequenos. Um ministro assume um erro antes de o jornal o imprimir. Um presidente de câmara anula um contrato, não depois de uma investigação jornalística, mas porque a auditoria o sinalizou. Uma pessoa poderosa perde uma decisão, nada desaba, e a mensagem chega: as regras não são só para os outros. Na próxima vez que for necessária uma política difícil, o resmungo é mais brando e o slogan no autocarro conta menos do que o registo na agenda.

Há um som nisto, se estivermos atentos. É o tom mais baixo do debate, o murmúrio de um público menos cínico, a sensação de um país a discutir dentro dos limites da justiça. As eleições voltam a ser disputas de ideias, e não combates para ver quem melhor sacode a vergonha. A burocracia descontrai, porque já não precisa de se vestir com armadura para sobreviver ao próximo golpe.

O que podemos fazer entre escândalos

É fácil sentir-se plateia no meio disto. Não somos. Apoie-se o jornal local que ainda vai ao tribunal e à assembleia municipal, porque a luz do dia começa em lugares pouco glamorosos. Escreva-se ao deputado não apenas quando estamos furiosos, mas quando queremos que subscreva padrões mais exigentes ou publique as suas reuniões. Participe-se num júri de cidadãos, ou pressione-se a autarquia a publicar contratos em formatos abertos. A linguagem seca da governação esconde uma verdade viva: a atenção é uma forma de poder.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Há trabalho, filhos, roupa para lavar - e o apelo do botão de silenciar é forte. É por isso que as reformas têm de ser desenhadas para ambientes de baixa atenção, onde a configuração por defeito é a honestidade. Até lá, apoie-se quem se dá ao trabalho por nós - auditores, organizações, pessoas que fazem pedidos de acesso a documentos para que não tenhamos de o fazer. E vote-se, mesmo quando o preferido não concorre, porque a abstenção é um cheque passado ao status quo.

A confiança constrói-se em tempo de paz, não apenas se remenda em crise. Isso implica recompensar o aborrecido, aplaudir o discreto e reparar quando alguém com poder escolhe o certo antes de ser obrigado. O aplauso conta. A cultura - na política como nas famílias - é um circuito entre os comportamentos que celebramos e aqueles que recusamos em silêncio.

A história que contamos sobre a corrupção

Gostamos de uma narrativa arrumada: vilão, trama, exposição, justiça. A vida real vem com pontas soltas e arcos longos. Rebenta um escândalo, há uma demissão, e a dor fica, porque a dor não era sobre uma pessoa. Era sobre saber se as regras são reais. São? Não porque o repetimos, mas porque o próximo a testá-las sente uma margem dura.

Quando essa margem se faz sentir, algo frágil repara-se. Nota-se numa quarta-feira chuvosa, quando um ministro entra num pavilhão escolar e faz uma admissão desajeitada, mas honesta. Ou num comboio tardio a caminho de casa, quando um jovem funcionário público, de olhos pesados, não apaga uma mensagem porque o sistema e a consciência, agora, rimam. É aí que o rádio da manhã soa menos a aviso e mais a um país a falar numa voz em que voltamos a confiar.

E se isto lhe parecer longe, agarre-se a esta ideia: cada escândalo é também um mapa, a mostrar exatamente onde as regras são finas. Siga-se o traço. Insista-se nas correções. Veja-se o que acontece na próxima vez que a chaleira estalar.

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