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Estudo: bananas brasileiras perto da barragem de Fundão podem conter metais tóxicos

Agricultor e cientista analisam banana numa mesa com bananas, frutos de cacau e instrumentos junto a bananal e rio.

Pontos-chave

  • Investigadores verificaram que bananas, mandioca e polpa de cacau cultivadas perto do local do colapso da barragem de Fundão, em 2015, apresentam níveis elevados de metais tóxicos, incluindo cádmio e chumbo.
  • O estudo concluiu que o consumo de bananas provenientes da zona do estuário do Rio Doce pode representar riscos para a saúde das crianças, e que a mandioca e o cacau também exibiram concentrações preocupantes de metais.
  • Apesar de a maioria das bananas consumidas nos Estados Unidos vir da América Central, os resultados mostram como a poluição industrial consegue contaminar culturas e comprometer a segurança alimentar muito depois de um desastre ambiental.

Colapso da barragem de Fundão e efeitos no estuário do Rio Doce

Em 2015, a barragem de rejeitos de Fundão - uma estrutura de aterro destinada a armazenar subprodutos da mineração de ferro - colapsou em Minas Gerais, no Brasil. O acontecimento ficou para muitos como o “pior desastre ambiental” da história do país. E, anos depois, isso continua a trazer más notícias para quem costuma petiscar bananas brasileiras.

Na altura, o colapso gerou uma onda de lama que varreu e soterrou a localidade mais próxima, provocando 19 mortes e desalojando centenas de pessoas. A pluma de rejeitos avançou até ao litoral, onde danificou recifes de coral, mangais e praias e, pouco tempo depois, atingiu também áreas agrícolas. Agora, investigadores de ciência do solo, engenharia ambiental e saúde pública da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal do Espírito Santo (Brasil) e da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) estão a mapear as consequências a longo prazo.

No final de 2025, a equipa publicou, na revista Geoquímica Ambiental e Saúde, os resultados de um estudo que procurou perceber se as culturas cultivadas perto do local - em particular no estuário do Rio Doce - são seguras para consumo.

O que foi analisado nas bananas, na mandioca e no cacau

De acordo com os autores, o foco recaiu sobre bananas, mandioca e polpa de cacau cultivadas em solos afetados pelo desastre. Para avaliar se os alimentos tinham sido prejudicados, mediram concentrações de cádmio, crómio, cobre, níquel e chumbo - metais associados a óxidos de ferro, que, como explicaram, “são os principais componentes dos rejeitos”. E, segundo o que observaram, comer uma banana dessa região pode, de facto, acarretar riscos para a saúde, sobretudo no caso das crianças.

“Nosso grupo vem estudando os impactos do colapso da barragem há anos. Obtivemos as primeiras amostras sete dias após o acidente e imediatamente entendemos que havia um risco iminente de contaminação de plantas, solo, água e peixes”, afirmou Tiago Osório, agrónomo e professor no Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo. “Mas a pergunta permaneceu: Essa contaminação representa um risco para a saúde humana?”

Como os “elementos potencialmente tóxicos” passam para as partes comestíveis

No trabalho, a equipa descreveu de que forma as plantas absorvem estes “elementos potencialmente tóxicos”, conhecidos como PTE, a partir dos resíduos da mineração e acabam por os acumular nos tecidos comestíveis - precisamente os que chegam às prateleiras dos supermercados.

“O teor de óxidos de ferro no solo, que é o principal constituinte dos rejeitos, correlaciona-se com o seu teor na planta”, explicou Amanda Duim Ferreira, investigadora de doutoramento. “Estudámos a passagem dos constituintes dos rejeitos no solo para a água e, depois, da água para a planta, incluindo as folhas e os frutos.”

Para quantificar com precisão o nível de contaminação, os investigadores recolheram amostras de solo e de plantas e submeteram-nas a um ciclo de lavagem e pesagem. Em seguida, separaram a parte comestível do restante material vegetal e desidrataram-na até obter um pó.

“Dissolvemos o ‘pó vegetal’, transformando-o numa solução com a ajuda de vários ácidos, e determinámos a concentração na solução”, disse Duim Ferreira. “Convertendo o cálculo da concentração de material na solução e comparando-o com o peso do material diluído, obtivemos a concentração de PTE em miligramas por quilograma de biomassa seca.”

Resultados: distribuição dos metais e limites na polpa de cacau

Segundo a equipa, tanto nas bananas como na mandioca, quase todos os PTE - com exceção do crómio - apareceram em concentrações mais elevadas nas raízes e nos tubérculos. Já no cacau, o padrão foi distinto, com valores superiores nos caules, folhas e frutos. Os autores acrescentaram: “Na polpa de cacau, as concentrações de cobre e chumbo excederam os limites estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).”

“Esses elementos existem naturalmente no ambiente”, afirmou Tamires Cherubin, doutorada em ciências da saúde e coautora do estudo. “Estamos expostos a eles em concentrações mais baixas. Mas, no caso de um desastre como o de Mariana, quando a exposição tende a aumentar, precisamos ter um cuidado extra.” Isto porque, em níveis mais altos, podem estar associados a vários problemas de saúde, incluindo alterações renais e cardíacas, desconforto gastrointestinal e, quando inalados, também lesões pulmonares.

Cálculos de risco (RQ, RI e TRI) e o que muda entre crianças e adultos

Com esse “cuidado extra”, a equipa calculou ainda o quociente de risco (RQ), o índice de risco (RI) e o índice de risco total (TRI) para pessoas que consumam bananas, rizomas de mandioca e polpa de cacau. A análise distinguiu, separadamente, crianças com menos de seis anos e adultos. Ao incorporar a quantidade de alimentos locais consumidos pelos residentes e ao considerar a exposição a longo prazo, bem como as diferenças de peso entre crianças e adultos, os investigadores concluíram que, para a maioria dos metais, o TRI ficou abaixo de 1 - o que indica ausência de risco relevante para adultos. No entanto, no caso das bananas, o TRI ultrapassou 1 para crianças, especificamente para o cádmio, “sinalizando possíveis preocupações de saúde”.

“Ao longo do tempo, considerando a expectativa de vida em torno de 75 anos, pode haver risco carcinogénico, pois existe a possibilidade de danos diretos e indiretos ao ADN”, disse Cherubin. Os autores acrescentaram que estes danos podem aumentar o risco de certos cancros que afetam o sistema nervoso central, o trato digestivo e os tecidos formadores de sangue. Ainda assim, “Tudo depende da capacidade do corpo humano de absorver e metabolizar esses elementos que estão disponíveis no ambiente.”

Deve preocupar-se?

Para a maioria dos consumidores norte-americanos, é improvável que este estudo altere o que chega à fruteira. Os investigadores analisaram culturas cultivadas perto do estuário do Rio Doce, no Brasil - uma área diretamente afetada pelo colapso da barragem em 2015 - e não a produção agrícola do país como um todo.

O trabalho também não aponta para uma contaminação generalizada das exportações brasileiras de bananas. Além disso, a maior parte das bananas vendidas nos Estados Unidos é importada da Guatemala, do Equador e da Costa Rica, e não do Brasil.

O risco acrescido identificado no estudo esteve sobretudo associado a crianças pequenas que consumam, durante longos períodos, bananas cultivadas localmente. Entre adultos, os níveis globais de risco mantiveram-se abaixo dos limiares considerados significativos.

A principal mensagem é outra: a contaminação ambiental pode persistir no solo durante anos, afetando com maior intensidade as comunidades que vivem mais perto da fonte.

E para quem vive (ou compra) fora do Brasil?

Para consumidores nos Estados Unidos, a preocupação tende a ser menor. Segundo dados da Federação Agrícola Americana, embora a maioria das bananas consumidas no país seja produzida na América Central e do Sul, normalmente vem da Guatemala, que fornece 40% das importações, seguida do Equador e da Costa Rica, cada um com 16%. Ainda assim, o Brasil está entre as 10 maiores nações produtoras de banana no mundo, pelo que é plausível encontrar bananas brasileiras, sobretudo para quem viaja com frequência.

Além disso, este estudo junta-se a outras evidências de que frutas e hortícolas podem ficar contaminados por poluentes presentes no solo. Em outubro, a publicação Comida e Vinho noticiou outro estudo que mostrou como microplásticos conseguem contornar as barreiras naturais das raízes das plantas e acumular-se em hortícolas comestíveis, como os rabanetes, reforçando a importância de cuidar do solo para que ele também cuide de nós.

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