Às vezes não é a crítica que nos desestabiliza - é um elogio simples e bem-intencionado. Alguém diz “Estás com ótimo aspeto hoje”, e a resposta sai automática: uma gargalhada, um gesto a afastar, o clássico “Qual quê, estou um desastre”. Quem elogiou até sorri, mas há ali qualquer coisa que esfria por um segundo. Não é drama. É só… menos proximidade do que havia instantes antes.
Chamamos a isto modéstia e seguimos em frente. Só que, para a psicologia, estas reações pequenas e meio desconfortáveis raramente são apenas “conversa de circunstância”. Muitas vezes falam de ligação, confiança e, sobretudo, de segurança emocional - aquela sensação interna de que é seguro ser visto, reconhecido, valorizado.
A forma como recebes um “Fizeste um bom trabalho” desenha, de forma silenciosa, o quão seguro te sentes com as pessoas. E, por vezes, o quão seguro te sentes contigo. Curiosamente, um elogio pode ser mais íntimo do que uma confissão.
When “Nice shirt” feels like a threat
Repara em qualquer grupo de adultos no trabalho ou numa festa e vais ver um padrão. O elogio chega e, do outro lado, a pessoa encolhe, brinca, muda de assunto - ou, por um breve segundo, ilumina-se e diz simplesmente: “Obrigado/a.”
É naquele microsegundo entre ouvir o elogio e escolher a resposta que a psicologia presta atenção. Para algumas pessoas, o sistema nervoso recebe um elogio como um cobertor quente. Para outras, é mais como um holofote apontado a uma cena de crime.
Dizemos que adoramos incentivo, mas muitos de nós ficam tensos quando ele aparece de verdade. A boca diz “obrigado”, mas os ombros dizem “por favor não olhes demasiado para mim”.
Imagina a Lena, 32 anos, gestora de projetos. Numa reunião, o chefe diz: “Geriste aquele cliente de forma brilhante.” A sala vira-se por um instante na direção dela. O coração da Lena dispara; ela ri-se alto demais e atira: “Sinceramente, foi sorte - eles estavam bem-dispostos.”
No comboio a caminho de casa, ela repassa o momento, envergonhada. Porque foi tão difícil dizer só “Obrigado”? Lembra-se de ser miúda, levar um desenho e ouvir: “Não fiques com a cabeça grande.” O elogio vinha sempre com um aviso. E, agora, qualquer elogio parece um teste que ela pode falhar da próxima vez.
Os psicólogos falam de “segurança sentida” - não se estás seguro/a no papel, mas se o teu corpo acredita que está. Os elogios tocam nesse ponto sensível porque dizem: “Eu vejo-te. Eu valorizo esta parte de ti.”
Se, no passado, ser visto/a levava a crítica, rejeição ou pressão, o cérebro aprende a associar elogio a perigo. Então protege-te: minimiza, desvia, esconde.
Por outro lado, quando cresces com aprovação consistente e não-condicional, os elogios soam como um eco natural de quem és. Não precisas de te apagar nem de “atuar”. Consegues receber as palavras sem sentir que, em troca, passas a dever perfeição.
Esse intervalo entre estas duas reações é a tua segurança emocional a aparecer em tempo real.
How to accept a compliment without panicking inside
Começa tão pequeno e atrapalhado quanto for preciso. Da próxima vez que alguém disser algo gentil, faz uma pausa de uma respiração e não faças nada. Sem piada. Sem “não foi nada”. Só uma pausa mínima, meio estranha, que dá ao teu cérebro tempo para perceber que não há perigo.
Depois, experimenta uma frase simples: “Obrigado/a, isso significa muito.” Não precisas de justificar, desvalorizar, ou devolver o elogio como se estivesse a queimar. Deixa as palavras assentarem em ti durante dois segundos.
Isto não é uma questão de boas maneiras. É um micro-exercício para te deixares ver sem fugir.
Muitos de nós devolvem um elogio automaticamente.
“A tua apresentação foi ótima!”
“Oh, a tua também foi incrível, adorei os slides!”
Parece simpático, mas muitas vezes é uma fuga. Desvias o foco depressa, porque estar no centro te faz sentir exposto/a. Com o tempo, isto treina o teu cérebro a acreditar que o teu valor só existe quando estás a dar - não quando estás a receber.
Experimenta uma pequena demora. Primeiro aceita e, depois, se quiseres mesmo, retribui mais tarde. É nessa pausa que a auto-estima vai crescendo em silêncio.
O psicólogo Guy Winch diz muitas vezes que aceitar elogios é “higiene emocional”: “Quando descartamos o elogio, descartamos também evidência valiosa que contradiz a nossa autocrítica dura.”
- Repara no teu guião automático
Apanha frases como “Não foi nada”, “Qualquer pessoa fazia”, ou “Tive sorte”. Isto não é humildade - é apagares-te. - Experimenta uma resposta nova de cada vez
Troca “Eu não sou assim tão bom/boa” por “Trabalhei muito nisto, obrigado/a.” Pequenas melhorias vão reprogramando, aos poucos, o que sentes que mereces. - Observa o corpo, não só as palavras
Os ombros sobem? Desvias logo o olhar? Estes movimentos pequenos mostram o quão seguro o teu sistema nervoso se sente ao receber carinho. - Pratica primeiro com pessoas seguras
Escolhe um/a amigo/a ou parceiro/a e diz que estás a treinar aceitar elogios. Deixa a prática ser um bocadinho estranha e honesta. - Deixa existir o desconforto
Sejamos sinceros: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. Crescer aqui sabe a “esquisito” no início. Desconforto não é falhar - é só novidade.
What your reaction quietly reveals about your emotional world
Olha com atenção para o teu estilo.
Fazes sempre uma piada quando alguém te elogia?
Isso muitas vezes aponta para medo de vulnerabilidade: se levas o elogio a sério, admites que aquela parte de ti importa - e isso pode assustar.
Se respondes logo com defeitos (“Obrigado, mas estraguei o slide três”), pode ser um escudo perfeccionista. Preferes criticar-te primeiro antes que outra pessoa o faça. Há uma segurança estranha em chegares tu antes do “golpe”.
Depois há quem aceite elogios, mas só quando entregou acima do esperado. Se o elogio vem num dia normal, sentem-se impostores. Este padrão costuma crescer a partir de amor condicional: afeto que só aparecia quando eras excelente.
Por fora, parecem confiantes. Por dentro, sentem que uma prestação “média” os vai expor. Assim, o elogio não cai como “tu és valorizado/a”, mas como “mantém este nível ou perdes tudo”. Não admira que o corpo fique tenso.
Algumas reações mostram algo ainda mais fundo: se acreditas que tens permissão para ocupar espaço emocional. Pessoas que cresceram a cuidar dos outros muitas vezes sentem culpa por serem elas a receber atenção positiva. Apresam-se a tirar o foco de cima, porque ser o “objeto de cuidado” é inseguro ou desconhecido.
Outras têm o oposto: recebem elogios com facilidade, mas desmoronam com qualquer crítica. Para elas, os elogios são como oxigénio - uma dependência. A segurança delas é externa, assente no olhar dos outros em vez do próprio.
Entre estes extremos há um meio-termo tranquilo. Consegues desfrutar de elogios, sobreviver à ausência deles, e aguentar tanto o louvor como o feedback sem te perderes. Esse espaço calmo não é um traço de personalidade - é um clima emocional treinável.
Por isso, talvez o próximo elogio que receberes não seja só uma gentileza social. É um espelho pequeno, a mostrar como a tua história, o teu sistema nervoso e o teu diálogo interno estão a dançar juntos.
Não precisas de analisar cada “Gosto dos teus sapatos.”
Mas reparar no reflexo - encolho, desvio, brilho, ou congelo? - pode ser um check-in surpreendentemente honesto.
A partir daí, podes renegociar isto contigo com suavidade. Podes decidir que ser visto/a não é o mesmo que ser julgado/a. Podes deixar palavras boas tocarem-te sem ficares a dever perfeição a ninguém.
Às vezes, o verdadeiro trabalho emocional não está num grande momento em terapia, mas naquele sussurro de segundo em que alguém diz “Fizeste bem” e tu escolhes, em silêncio, não fugir.
| Key point | Detail | Value for the reader |
|---|---|---|
| Compliment reactions show felt safety | Deflecting, joking, or tensing up often point to old patterns of criticism, pressure, or conditional love | Helps you decode your own automatic responses without blaming yourself |
| Accepting praise is a trainable skill | Simple practices like pausing, saying “Thank you,” and observing your body can slowly reshape your reactions | Gives you concrete tools to build emotional safety, not just theory |
| Being seen doesn’t have to mean being exposed | Learning to tolerate the spotlight in small doses creates a calmer inner climate over time | Supports healthier relationships, better boundaries, and a kinder inner voice |
FAQ:
- Why do I feel physically uncomfortable when someone compliments me? Your body may have learned to link “being noticed” with criticism, pressure, or rejection. So even harmless praise triggers a stress response. Over time, gentle practice with safe people can teach your nervous system that this kind of attention is not a threat.
- Is deflecting compliments really that bad? It’s not “bad,” it’s just information. When you constantly brush off praise, you also block evidence that you’re capable and worthy. That can quietly feed low self-esteem and self-doubt, even if you seem confident on the outside.
- How can I start accepting compliments if it feels fake? Begin with a simple “Thank you” and allow it to feel unnatural. You’re not faking the achievement, you’re just trying a new script. With repetition, your words and your self-image slowly line up.
- What if I worry people will think I’m arrogant? Accepting a compliment is not boasting; it’s acknowledging someone’s perception. Arrogance usually comes from exaggerating your value, not calmly agreeing that something went well.
- Can therapy really help with something this small? Yes. Compliments touch core beliefs about worth, safety, and visibility. Working on this in therapy often unlocks bigger shifts: easier relationships, stronger boundaries, and a more stable sense of self.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário