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Pete Hegseth e a alegada ordem “matem todos” numa operação antidroga no Caribe

Helicóptero sobrevoa homens num barco no mar, alguns com os braços levantados, em cenário costeiro ao pôr do sol.

A acusação é tão frontal quanto perturbadora: durante um ataque norte-americano antidroga no mar, altos responsáveis terão ordenado que ninguém fosse deixado vivo.

A missão mortal que desencadeou uma tempestade política

De acordo com uma investigação divulgada inicialmente pelo Washington Post e replicada por órgãos de comunicação social dos EUA, o episódio ocorreu a 2 de Setembro, durante uma operação norte-americana contra uma embarcação suspeita de tráfico de droga no Caribe. A acção integrava uma ofensiva mais ampla da administração Trump contra rotas marítimas de narcóticos na região e no Pacífico oriental.

Segundo essas reportagens, forças dos EUA abriram fogo sobre o barco suspeito, destruindo-o e lançando a tripulação à água. Terão sobrevivido apenas dois homens, agarrados a destroços a flutuar. O que se seguiu é o núcleo do escândalo que tem vindo a crescer.

Durante uma conversa segura com comandantes de topo, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, terá dado uma ordem directa: “matem todos”, sem deixar sobreviventes do ataque.

Duas fontes com conhecimento directo da operação, citadas anonimamente pelo Washington Post e pela CNN, afirmam que o chefe do Comando de Operações Especiais dos EUA transmitiu depois instruções para um segundo ataque. De acordo com essas fontes, esse ataque subsequente não visaria já a embarcação, mas sim os sobreviventes que permaneciam na água, com o objectivo de cumprir a alegada directiva do secretário.

Especialistas em direito questionam a base para força letal

Vários peritos em direito dos conflitos armados, ouvidos por meios de comunicação norte-americanos, defendem que os sobreviventes já não representariam uma ameaça iminente. Esta avaliação vai ao cerne da questão: caso a ordem se confirme, poderá ter havido violação do direito internacional humanitário.

Quando combatentes ficam hors de combat - fora de combate por ferimento, naufrágio ou rendição - passam a estar protegidos pelas leis da guerra e não podem ser deliberadamente visados.

Académicos e juristas sublinham alguns princípios centrais que, em geral, orientariam qualquer averiguação:

  • Se os EUA enquadraram a operação como parte de um conflito armado ou como acção de aplicação da lei.
  • Se os sobreviventes mantinham armas ou capacidade imediata de atacar pessoal ou navios norte-americanos.
  • Se o segundo ataque foi apresentado como forma de neutralizar um perigo para a navegação, ou como eliminação de testemunhas ou suspeitos.
  • De que modo as regras de empenhamento usadas em missões antidroga se articulam com as Convenções de Genebra.

Vários especialistas disseram a órgãos de comunicação dos EUA que, à luz dos relatos publicados, não se vislumbra um perigo claro e actual que sustente um segundo ataque letal contra pessoas já neutralizadas na água. Se essa leitura se confirmar, a operação poderá situar-se numa zona cinzenta jurídica ou mesmo configurar uma morte ilícita.

Pete Hegseth responde e fala em “notícias falsas”

Na rede social X (antigo Twitter), Pete Hegseth rejeitou a acusação sem reservas, classificando-a como “notícias falsas”. Garantiu que a actuação dos EUA respeitou o direito norte-americano e o direito internacional e descreveu o segundo ataque como uma medida técnica necessária.

Segundo Hegseth, o ataque subsequente pretendia afundar totalmente a embarcação danificada e impedir que ficasse à deriva como perigo para a navegação, e não executar sobreviventes.

A explicação, porém, colide com as versões atribuídas às fontes anónimas, que sustentam que a directiva visava as pessoas, não o casco. Sem um registo público e desclassificado da missão, observadores externos têm pouca margem para verificar, de forma independente, qual dos relatos corresponde aos factos.

O Congresso intervém com escrutínio bipartidário

A notícia gerou uma reacção rápida em Washington. Democratas e Republicanos sinalizaram que não tencionam deixar o assunto confinado aos canais internos do Pentágono.

Mike D. Rogers, Republicano, e Adam Smith, Democrata - os principais responsáveis da Comissão dos Serviços Armados da Câmara dos Representantes - emitiram uma rara declaração conjunta. Anunciaram que a comissão, em coordenação com o equivalente no Senado, iria reforçar a supervisão das operações conduzidas pelo Departamento de Defesa no teatro do Caribe.

Os dois deputados afirmaram estar a tomar “medidas bipartidárias” para obter um relato completo da missão, sublinhando a intenção de exercer um controlo rigoroso sobre a actividade militar norte-americana na região.

À porta fechada, é provável que membros do Congresso procurem obter:

Elemento solicitado Finalidade
Registos da missão e dados de selecção de alvos Esclarecer o que os comandantes sabiam e quando, e como os alvos foram designados.
Regras de empenhamento em vigor nesse dia Avaliar se o ataque respeitou a política aplicável.
Comunicações entre o Pentágono e o comando no terreno Determinar se foi emitida uma ordem explícita de “sem sobreviventes”.
Pareceres jurídicos internos Verificar se juristas militares levantaram objecções na altura.

Reacção de Trump: apoio ao secretário da Defesa, pelo menos por agora

Confrontado com as alegações, o ex-presidente Donald Trump adoptou um registo conhecido. Disse não ter conhecimento desta operação em específico, mas frisou confiar na negação de Hegseth.

“Ele diz que não disse isso, e eu acredito nele”, afirmou Trump aos jornalistas, acrescentando que procuraria mais informações. A frase traduz apoio político ao seu antigo responsável da Defesa, pelo menos no plano público, mas mantém espaço para um eventual afastamento se surgirem novas provas.

A Casa Branca sob Trump tem, há muito, apresentado missões marítimas antidroga como componente central da sua agenda de segurança. Por isso, qualquer indício de irregularidade nessas operações torna-se politicamente explosivo, sobretudo entre legisladores Republicanos que procuram projectar firmeza contra o crime sem desrespeitar normas militares.

Uma campanha letal no mar, longe das câmaras

Desde Setembro, forças dos EUA terão visado mais de vinte embarcações suspeitas de contrabando de narcóticos no Caribe e no Pacífico oriental. Estas interdições, segundo a cobertura mediática, terão provocado pelo menos 83 mortes.

As operações envolvem normalmente uma combinação de navios da Marinha dos EUA, patrulhas da Guarda Costeira e, por vezes, aeronaves, em cooperação com parceiros regionais. Em muitos casos, as embarcações suspeitas recusam-se a parar, e as tripulações podem lançar carga ao mar ou tentar abalroar meios de intercepção.

O que diferencia o incidente de Setembro não é o primeiro ataque, mas sim a alegada intenção de não deixar sobreviventes, mesmo depois de cessar a ameaça imediata. A acusação toca directamente na ética da guerra à distância, em que operadores observam pequenas figuras num ecrã em vez de enfrentarem o adversário a curta distância.

Pressão sobre a Venezuela e a política por detrás da missão

A controvérsia surge também num quadro estratégico mais amplo. Donald Trump intensificou publicamente a pressão sobre o Governo do Presidente Nicolás Maduro, na Venezuela, acusando-o de ter um papel central no escoamento de cocaína e outras drogas para os Estados Unidos.

Nos últimos meses, Trump não só apertou sanções como também admitiu a possibilidade de ataques aéreos em território venezuelano para atingir alegadas infra-estruturas ligadas ao narcotráfico. Esse discurso alimenta uma narrativa em que o Caribe e as águas circundantes passam a ser vistos como uma extensão do campo de batalha contra o crime organizado e contra regimes hostis.

Quando rusgas antidroga começam a assemelhar-se a operações de guerra, esbatem-se as fronteiras entre aplicação da lei, contraterrorismo e conflito militar em larga escala - com consequências graves para quem é apanhado no mar.

Como o direito da guerra trata náufragos e rendidos

A acusação dirigida a Hegseth tem especial impacto por tocar num conceito central do direito internacional humanitário: a protecção de quem está “fora de combate”, frequentemente designado pelo termo francês hors de combat.

Ao abrigo das Convenções de Genebra e do direito consuetudinário, marinheiros náufragos, combatentes feridos e pessoas que se tenham rendido de forma clara não podem ser atacados. Devem ser recolhidos, receber assistência médica quando possível e ser tratados com humanidade. Essa protecção aplica-se independentemente de pertencerem a forças armadas estatais, grupos rebeldes ou, em algumas interpretações, redes criminosas organizadas quando actuam num contexto de conflito armado.

As operações contemporâneas tornam o quadro mais complexo. Missões antidroga costumam estar mais próximas da aplicação da lei do que da guerra clássica. Nesse contexto, a força letal deve ser o último recurso, limitada à legítima defesa imediata ou à prevenção de dano iminente. Disparar sobre sobreviventes agarrados a destroços, se se provar, encaixa mal em qualquer dos dois modelos.

O que este caso pode significar para futuras ofensivas marítimas

Mesmo sem existir, por agora, um inquérito público, o episódio já está a influenciar o modo como decisores discutem a interdição de droga no mar. Várias consequências possíveis estão em cima da mesa:

  • Regras de empenhamento mais apertadas para missões antidroga, com linguagem mais clara sobre o tratamento de sobreviventes.
  • Maior envolvimento da Guarda Costeira e de juristas do Departamento de Justiça no planeamento operacional.
  • Pressão para sistemas de registo a bordo que documentem decisões-chave e avaliações sobre alvos.
  • Mais prudência por parte de aliados convidados a integrar patrulhas marítimas lideradas pelos EUA em regiões sensíveis.

Para comandantes no mar, este tipo de controvérsia pode criar um risco diferente: hesitação. Oficiais têm de decidir em segundos, com mar agitado, muitas vezes à noite e com informação incompleta. Um escrutínio político acrescido pode levá-los a registar mais e disparar menos - algo que muitos juristas considerariam desejável, mas que alguns militares poderão ver como uma limitação.

O caso levanta ainda uma questão mais ampla para cidadãos e legisladores: até onde devem ir as forças armadas quando assumem missões que se aproximam do policiamento, da luta antidroga às patrulhas antipirataria? Quanto mais estas fronteiras se confundem, mais essenciais se tornam normas claras - sobretudo quando uma ordem curta como “matem todos” pode ecoar muito para além de um único trecho escuro de oceano.

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