Uma equipa sino-americana de investigadores conseguiu, finalmente, identificar a peça que faltava: uma rede cerebral chamada SCAN, afectada por uma hiperconectividade patológica, poderá estar na origem de todas as perturbações motoras e cerebrais.
Quando a doença de Parkinson se manifesta num doente, surge acompanhada por sintomas que se estendem a todo o organismo: hipertonia (rigidez dos movimentos), acinesia (lentidão), tremores, alterações do sono ou da digestão, perda do olfacto… Embora esta diversidade clínica seja conhecida há muito tempo, os neurologistas não conseguiam esclarecer porque é que funções tão distantes entre si eram afectadas - faltava uma peça no puzzle.
Doença de Parkinson: o SCAN como “engarrafamento” nervoso criado pelo cérebro
O período de 2024-2025 assinalou uma viragem, quando uma equipa da Universidade de Washington, em St. Louis, identificou o SCAN (Somato-Cognitive Action Network), uma rede cerebral que liga o controlo motor às funções internas e cognitivas, explicando, por fim, porque é que esta patologia consegue afectar simultaneamente todo o corpo humano. Ainda assim, faltava demonstrar que esta rede era, de facto, um alvo da doença e de que forma a patologia a atingia. Isso acaba de ser confirmado graças ao trabalho de uma equipa internacional (incluindo investigadores da Universidade de Washington e da Universidade Tsinghua), que publicou este estudo a 4 de fevereiro na revista Nature.
Ao examinarem dados de ressonância magnética de mais de 800 pessoas com a doença, a equipa liderada por Hesheng Liu mostrou que o SCAN destes doentes estava ligado em excesso - demasiado conectado. Num indivíduo saudável, esta rede funciona como um comutador: sincroniza as intenções conscientes com as respostas fisiológicas automáticas. Por exemplo, assegura a transição fluida entre um gesto voluntário, como agarrar um objecto, e funções internas como o ritmo cardíaco ou a postura. Trata-se de uma interface dinâmica que distribui recursos cerebrais conforme as exigências do momento, permitindo caminhar enquanto se pensa sem que uma tarefa interfira na outra.
Nos doentes com Parkinson, o SCAN fica sobrecarregado por impulsos nervosos e esse excesso produz uma actividade eléctrica que baralha a transmissão de mensagens entre o corpo e o cérebro. Em vez de facilitar a circulação da informação, esta hiperconectividade gera interferências que impedem os doentes de agir como pretendem. Hesheng Liu compara-o a « um túnel obstruído » no qual « nenhum tráfego pode circular normalmente ».
Esta congestão ajuda a perceber porque é tão difícil, para alguns doentes, andar e falar ao mesmo tempo. Como o SCAN já não consegue definir prioridades entre os fluxos de informação, o cérebro passa a não conseguir separar os comandos motores dos processos cognitivos.
As conclusões deste trabalho apontam ainda para uma convergência entre todos os tratamentos usados para conter a doença. Todos provocam o mesmo efeito sobre o SCAN, quer se trate da levodopa (o tratamento farmacológico padrão), da estimulação cerebral profunda (ECP), da estimulação magnética transcraniana repetitiva (rTMS) ou dos ultra-sons focados de alta intensidade (HIFU). Apesar de se basearem em princípios físicos diferentes (química, electricidade, magnetismo ou ondas sonoras), estas abordagens terapêuticas conseguem, na prática, desobstruir o « túnel obstruído » a que Hesheng Liu se refere. No fundo, estes tratamentos são apenas vias distintas para chegar ao mesmo destino: o SCAN. Uma descoberta que, a prazo, deverá reduzir o risco de peregrinação terapêutica, uma vez que os neurologistas passam finalmente a dispor de um indicador universal.
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